1. De volta.

O mistério da Igreja reflete o mistério (ou sacramento) matrimonial; na verdade, o matrimônio só pode ser bem compreendido por analogia ao mistério eclesial. Se a Igreja é o próprio corpo de Cristo, mas, ao mesmo tempo, é a noiva, ela vive a ambiguidade de ser um com o Cristo, mas ser outro. De certa forma, isto ocorre também no matrimônio: somos um com o cônjuge, mas somos outro. Este mistério tem seu fundamento em Gn 2, 22, com a descrição literária do modo pelo qual a mulher foi tirada do homem; ou, melhor dizendo, o ser humano se revelou como sexuado, como dividido em masculino e feminino. Sim, porque, se a sexualidade é relação, somente quando houve um sexo é que o outro poderia existir. Não se poderia dizer, então, que o primeiro ser humano era um homem, quando não havia sequer a noção de mulher para se contrapor a ele. Dele, surgiram a masculinidade e a feminilidade, como dois modos diversos de ser que se complementam numa unidade recobrada do abraço sexual. Mas não qualquer abraço, senão aquele que os faz “carne de uma só carne”, como prossegue o texto bíblico.

Examinemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que os outros animais são sexuados também, isto é, têm seus corpos constituídos naturalmente como machos e fêmeas. No entanto, não há nenhuma narração bíblia de que as suas fêmeas tenham sido “retiradas dos machos”. Ora, se os humanos são animais, não há sentido em pensar que somente entre os humanos os machos tenham originado as fêmeas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás não precisa responder a este argumento, porque o considera já respondido pela sua resposta sintetizadora. A narrativa bíblica considera o fato de que a sexualidade humana não é simplesmente a expressão do instinto reprodutivo, como nos outros animais, mas uma tendência, a ser guiada racionalmente para o bem, a integrar-se com a outra pessoa de modo unitário e indissolúvel, e a participar da obra criadora de Deus pela reprodução amorosa.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que seres da mesma espécie são feitos da mesma matéria. Não seria adequado, portanto, que a Bíblia narrasse o homem sendo feito de argila e a mulher, feita do homem. Portanto, a narração é inconveniente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás lembra que “matéria”, como conceito filosófico, descreve um princípio não especificado do qual alguma coisa é feita; assim, nos processos existentes dentro do mundo criado, as coisas sempre passam por um processo de geração, no qual determinada matéria, apropriada para determinado fim, dá origem, pelas causas eficientes que sofre, a uma coisa nova. Assim, nos processos de geração, ninguém pode, por exemplo, fazer uma estátua de mármore a partir de um tronco de madeira – a matéria seria inadequada.

Mas a criação, na Bíblia, não é um relato de geração. Trata-se do relato do poder divino de originar qualquer coisa a partir do nada. Portanto, não se deve ler o relato da criação com olhos da filosofia da geração; isso é inadequado. O necessário, aqui, é buscar a intenção teológica por trás dos relatos. Narrando a criação do ser humano a partir da argila preexistente, o autor bíblico inspirado quer, dentre outras coisas, nos mostrar a materialidade e a criaturalidade do ser humano, sua pertença ao universo criado, sua uniformidade corporal com as coisas da terra. Mas, ao narrar o processo de diferenciação sexual com a ideia de que a mulher foi retirada do homem, ele quer ressaltar, dentre outras coisas, a origem comum dos dois, sua igual dignidade, sua unidade primordial.

O terceiro argumento objetor.

A mulher não foi feita para ser uma serviçal do homem, ou para se submeter a ele em qualquer tarefa ou trabalho, mas especificamente para completá-lo no ato reprodutivo. Ora, sabe-se que a própria Bíblia determina que a relação sexual com pessoas biologicamente muito próximas é pecaminosa (ver Lv 18, 6 e seguintes). Portanto, se a mulher foi tirada do próprio, seria como que um clone dele, uma relação biológica realmente próxima demais. Portanto, tornaria inconveniente justamente a atividade sexual e reprodutiva. Portanto, a mulher não pode ter sido tirada do homem, e essa narração é bastante inconveniente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Mais uma vez, aqui, estamos confundindo a esfera biológica da reprodução com a esfera teológica da narração bíblica. De fato, a narração tem os objetivos teológicos que já especificamos, de fundamentar a relação entre os sexos em bases fortes de dom, complementariedade, unidade, indissolubilidade e abertura à ação de Deus na geração dos filhos. Não se trata, pois, de envolver nenhum tipo de parentesco ou incesto, até porque a narração bíblica não designa a mulher como “parente” do homem ou como “irmã” dele, mas como companheira, una pela origem, complementar pelo desígnio, igual em dignidade.

3. Concluindo.

É sempre possível redescobrir a beleza da sexualidade, da corporeidade complementar humana, da dimensão doada, criada, do ser humano, que deve ser aceita não como um dado biológico ou instintivo que aprisiona, mas como uma indicação que liberta, que encaminha à liberdade e à plenitude, se aceita com inteligência e respeito. Isso se torna ainda mais urgente em nossos tempos de tanta confusão sexual.