1. Retomando.
Há um mistério no fato de que a sexualidade existe, e mais: que a sexualidade, no ser humano, decorre da nossa corporeidade. E a nossa corporeidade é algo que somos, não algo que fazemos. Não podemos deixar de ser corpóreos sem morrer. Portanto, aceitar a própria corporeidade como dom é aceitar estar vivo, aceitar ser humano. A separação do ser humano em corpos sexuados é da própria substância humana, porque ser corporal é próprio da substância humana. E isso é do plano original de Deus, já vimos.
Aqui, ao debater se as Escrituras estão corretas ao descrever a mulher como tirada do homem, chegamos a um outro ponto do mistério: diferentemente dos outros animais, para quem a sexualidade se resolve no instinto reprodutivo, no ser humano esse mistério envolve a própria natureza espiritual: a sexualidade envolve a incompletude ontológica e existencial, que impede o individualismo e o torna irracional, por deixar evidente que, mesmo no plano corporal, somos incompletos. Mas não somos, por outro lado, movidos por instintos deterministas, nem por uma ontologia biológica; a própria sexualidade determina apenas uma tendência ao outro, que é a tendência a completar-se humanamente. E essa tendência, para ser humana, deve ser ética, isto é, deve ser ordenada pela inteligência. Deve levar em conta o conhecimento do que somos, do que é o outro, de quem é Deus, do sentido da abertura à vida, da dignidade de todos os envolvidos (inclusive da eventual prole) e principalmente daquilo que, em nós, é recebido como dom e é ofertado como dom.
Assim, todos esses dados, todas essas dimensões, devem ser levadas em conta quando apreciamos essa ideia de que a mulher foi retirada do homem: parece maravilhoso pensar que, no fundo, a sexualidade nos devolve uma unidade primeira, que é anterior e mais essencial do que a separação. Somente buscando, como fim, aquilo que éramos no início é que seremos plenificados, e somente sendo plenificados é que seremos felizes. E se a liberdade é a capacidade de reconhecer o fim e buscá-lo por iniciativa própria, aceitar os dons de Deus da nossa corporeidade sexuada e da nossa unidade primordial são os únicos meios de identificar nosso fim e tender a alcançá-lo. O fim verdadeiro não pode nunca ser inventado, não pode ser nunca criado por nós mesmos, pelo simples fato de que a nossa origem não é determinada por nós mesmos. Determinar o próprio fim é perder completamente a possibilidade de ser pleno. Em suma, de ser livre.
Mas deixemos de digressões. Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Sim, diz Tomás, foi muito conveniente que as Escrituras narrassem, no segundo relato de criação (Gn 2, 4b a 25), que a mulher foi tirada do homem. É certo que isso deve ser lido com muito cuidado, para evitar que pareça que, de algum modo, Deus deu algum tipo de superioridade ao homem sobre a mulher. Não se pode ler assim. Mas há uma série de significados que podem ser extraídos dessa narração, como importantes para a espécie humana:
– Em primeiro lugar, retratando um ser humano originário, ainda indiviso sexualmente, a narrativa deixa mais clara a origem comum da espécie, como Deus é origem de toda a Criação. Assim, São Paulo poderá, ao pregar para os atenienses, ensinar que “de um só, [Deus] fez toda a raça humana para habitar sobre a face da terra”; não é preciso explicar a importância histórica dessa afirmação, não somente para a economia da salvação em Jesus, mas também para a dignidade de toda pessoa humana e para a universalidade das relações, que ultrapassam diferenças culturais, políticas ou religiosas para fundamentar-se na origem comum de toda a humanidade.
– Em segundo, isto traz a unidade ontológica entre homem e mulher a um grau insuperável, tornando o amor entre os dois um reflexo da sua unidade original. A partir do fato de que a união sexual implica um reencontro que devolve ao ser humano a unidade original, a monogamia indissolúvel passa a ter um lastro potente na Revelação, a tal ponto que o texto pode dizer, em seguida (Gn 2, 23-24): “uma vez que foi tirada do homem, por isso um homem deixa seu pai e sua mãe e se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne”. Ora, no caso da espécie humana, em que a união se dá com a complementariedade e a exclusividade do vínculo, isto é, de modo exclusivo e indissolúvel, que é a única maneira que respeita completamente a dignidade pessoal de ambos, era necessário que a sexualização do corpo humano fosse narrada desse modo, diferentemente da diferença sexual dos animais, que, desprovidos de dignidade pessoal, não estabelecem as relações sexuais a partir desses mesmos princípios.
– O terceiro motivo envolve o fato de que nada, no ser humano, é simplesmente instintivo ou carnal, mas tudo, toda potencialidade natural, toda inclinação, toda tendência, deve envolver e se ordenar pela razão; assim, essa convivência para a vida toda envolve e ordena todas as dimensões humanas em convivência, não somente os atos sexuais. Formar uma só carne é formar família, isto é, entrar naquela relação de plena reciprocidade entre os sexos e as gerações, na qual se entra com a totalidade do ser, e não somente para fazer sexo ou constituir patrimônio junto. É muito apropriado, então, descrever o fundamento dessa relação de integralidade na doação dizendo que um saiu do outro, e para ele volta.
– Por fim, um quarto motivo seria a analogia da relação matrimonial com a relação entre Cristo e a Igreja. Um cônjuge tira do outro seu princípio de existir, como a Igreja tira de Cristo seu princípio e sua consumação. Este é o fundamento do sacramento do matrimônio, que, como diz São Paulo na Carta aos Efésios (5, 32), “Esse mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja”. Vale lembrar, aqui, que a palavra “sacramento” tem a mesma raiz que a palavra “mistério”.
3. Encerrando.
Mais uma vez, lembramos aqui das profundidades da chamada “teologia do corpo”, do Papa São João Paulo II, disponíveis para acesso na Internet.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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