1. Voltando para encerrar.

De modo profético, o Papa São João Paulo II fez uma série de catequeses, entre 5 de Setembro de 1979 e 28 de Novembro de 1984, nas quais ele desenvolveu a chamada “teologia do corpo”, que debateu com muita profundidade as questões de sexualidade humana a partir de uma reta antropologia e de uma teologia muito rica, com muita influência de Tomás de Aquino. O significado da sexualidade foi exposto, ali, de uma maneira realmente rica, e que antecipou em grande escala as necessidades que temos hoje de respostas.

Assim, essa abordagem pode ser utilizada para reler a Suma com olhos de hoje, com a segurança de não trair Tomás; ele era, antes de mais nada, um homem de Igreja. Sob esses olhos, seu ensinamento ganha contornos riquíssimos, como vimos no texto anterior. Por isso, devemos ler esta questão 92 não como uma exposição meio embolorada dos limites e preconceitos do tempo de Tomás, mas como uma interpelação aos preconceitos do nosso próprio tempo.

Passemos a examinar, com este olhar, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra aquela passagem em que Aristóteles classifica a fêmea como “um macho incompleto”, na obra sobre a geração dos animais. Ora, prossegue o argumento, nada que é falho ou incompleto poe sair das mãos de Deus. Logo, a mulher não foi criada diretamente por Deus no Paraíso, mas sua existência surge com a Queda, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A própria diferença sexual demonstra que os opostos (macho e fêmea) são, em si mesmos, incompletos, carentes, deficientes; se, no tempo de Tomás, se acreditava que o macho era de algum modo “menos incompleto” do que a fêmea, isso se dava porque se acreditava que no macho estava a “semente” completa da geração do novo ser, e na fêmea apenas as estruturas biológicas que fariam germinar essa semente. Assim, Tomás consignou, respeitando o dado científico de seu tempo, que as fêmeas são formadas em razão de alguma alteração nas condições materiais ou ambientais, que impediram a formação de um macho. Essa informação está errada, sabemos hoje.

Mas em seguida vemos que Tomás volta às suas intuições corretas, ao afirmar que a existência de machos e fêmeas, isto é, a bipartição da espécie em duas formas sexuais diferentes, não é uma falha, mas uma destinação natural à fecundidade da espécie. Assim, macho e fêmea são, por desígnio divino, incompletos e incapazes de iniciar o processo reprodutivo sem o outro, e por isso a sexualidade não é uma fraqueza ou um resultado do pecado, mas parte do próprio desígnio divino em criar-nos com a necessidade de relação para a complementariedade reprodutiva. E isto não só é bom; é, na verdade, “muito bom” que Deus tenha nos criado como “homem e mulher”, diz a Bíblia em Gn 1, 27.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que o plano de Deus, na criação, não envolvia nenhum tipo de sujeição ou subordinação; estes modos de relação foram consequência da queda, por causa do pecado, como diz Gn 3, 16: teu marido te dominará. Ora, naquilo que não decorre da maldição do pecado, devemos ser iguais em dignidade e natureza, como lembra São Gregório.

Ocorre que o homem e a mulher, diz o argumento, não são iguais em dignidade e natureza. A mulher é simples receptora passiva no processo de reprodução, já que a semente humana está completamente no homem, acredita o argumento. Ora, prossegue, o próprio Santo Agostinho afirma, no seu comentário literal ao Gênesis, que aquilo que é ativo é superior em dignidade àquilo que é passivo. Portanto, se a mulher é apenas receptora passiva na reprodução, ela é naturalmente inferior em dignidade e natureza ao homem, e portanto está fora do plano original da criação. Assim, a mulher não foi criada por Deus originalmente, antes da Queda, mas a própria diferença sexual surgiu após a queda, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Em dois sentidos podemos falar em submissão: num sentido forte, agressivo, que significa sujeição e subordinação. Neste sentido, realmente não havia submissão no Paraíso, nem a submissão, neste sentido, fazia parte dos planos originais do Criador. Mas há um outro sentido para a noção de submissão, que envolve estar sob a mesma missão, e que envolve a compreensão de que cada um é incompleto e precisa dos outros para atingir os objetivos comuns, sob a mesma coordenação. A complementariedade e a cooperação para o bem comum, neste sentido, e a eventual necessidade de que houvesse uma liderança para coordenar e conduzir a comunidade a este fim comum, são parte do projeto original de Deus. Mesmo no paraíso o ser humano é incompleto, aberto à relação, necessitado do outro. Mesmo no Paraíso, sob os planos de Deus, haveria diferenças de capacidades, de dons, de tal modo que uns seriam mais sábios, outros mais fortes fisicamente, outros, ainda, mais impulsivos ou extrovertidos; a formação de comunidades pressupõe que uns precisem dos outros, e que os dons sejam diversos e complementares, inclusive o dom de liderar – que, no paraíso, expressa-se como doação e serviço, e não como sujeição. Portanto, as diferenças e a incompletude de cada indivíduo não são consequência do pecado, mas da vontade de Deus de que sejamos mutuamente dependentes. Por isso, a diferença sexual não foi querida por Deus como sujeição ou subordinação, mas como complementariedade e cooperação.

O terceiro argumento objetor.

A sexualidade é uma fonte de pecados para o ser humano. Assim, a existência da mulher seria inadequada no paraíso, no qual não somente o pecado, mas as ocasiões de cometê-lo, deveriam ser evitadas. Por isso, a diferenciação da mulher não ocorreu no paraíso, mas somente após a queda, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Se Deus fosse retirar do mundo todas as coisas que podem ser ocasião de pecado, o universo ficaria empobrecido, incompleto, imperfeito. De fato, o pecado não está nas coisas, está na inteligência e na vontade humana, naquelas condutas eleitas livremente que ferem a nossa comunhão com Deus.

Portanto, não faz sentido que Deus evitasse a criação de uma realidade que é boa em si, com o fito de evitar que o ser humano, em suas escolhas particulares, evitasse uma conduta má. A liberdade é sempre um risco, e o risco da liberdade pode, por culpa do ser humano, gerar o mal moral. Mas isso não é pretexto para culpar Deus pela existência de realidades que podem ser abusadas pelo ser humano: na verdade, Deus não somente criou o ser humano livre, o que é parte da dignidade humana, como é poderoso para retirar, do mal escolhido e praticado por um ser humano, um bem maior.

3. Concluindo.

Livres, iguais em dignidade, necessitados uns dos outros, complementares, coordenados, submissos ao bem e à mesma missão, correndo o risco da liberdade, sexuados na própria essência, relacionados no serviço e no dom. Assim era o ser humano no Paraíso. Assim somos hoje, se soubermos olhar para além dos limites do pecado.