1. Introdução.
Já vimos, no texto anterior, o quanto Tomás defende e acredita que a sexualidade, a própria configuração do corpo humano de modo sexuado, é uma dimensão originária, querida por Deus, e não uma decorrência ocasional em razão da queda no pecado. Mas a sexualidade, no ser humano, não tem o mesmo sentido que tem nos outros seres vivos. Nas plantas, como tivemos oportunidade de ver, a reprodução é a própria razão de viver, e por isso, de regra, a reprodução não é sexuada: cada indivíduo se basta para reproduzir. Nos animais, a reprodução sexuada marca o fato de que há outras funções vitais mais nobres, ou, pelo menos, tão nobres quanto a reprodução. Assim, cada indivíduo precisa ser complementado por outro indivíduo do sexo oposto para reproduzir-se, o que determina que a reprodução não seja o centro de sua existência. Nos seres humanos, a razão para existir está na própria natureza espiritual da alma; a reprodução tem que fazer sentido como atividade inteligente, dirigida pelo espiritual, pelo reflexivo, como tendência guiada pela razão para o bem.
Dentro deste contexto, e conhecendo hoje uma biologia mais complexa do que aquela que Tomás conhecia (para não mencionar a ciência do tempo da redação da Bíblia), como poderíamos ler aquele trecho bíblico que diz que a mulher saiu do homem? Trata-se simplesmente de uma herança patriarcal, machista, ou há algum sentido mais profundo, de centralidade da relação entre homens e mulheres, que o texto quer marcar? Este é o debate agora.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, que provocara o debate neste tema tão polêmico, é que não é nada adequado, é falso mesmo, muito inconveniente, dizer que a mulher saiu do homem, como faz a Bíblia em Gn 2, 21. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar essa hipótese. Examinemo-los.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor quer trazer a interpretação bíblica para o campo da biologia, da animalidade mesma. De fato, diz o argumento, a separação em sexos é algo comum ao ser humano e aos outros animais. Ora, quanto a nenhum outro animal a Bíblia diz que a fêmea saiu do macho. E, de fato, sabemos que, biologicamente, não ocorreu assim. As fêmeas não são “feitas dos machos” no reino animal. E, pelos nossos corpos, somos parte do mesmo reino animal que eles. Portanto, não há nenhum sentido na passagem bíblica que afirma que a mulher foi “tirada do homem”, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento vai ainda mais longe do que o primeiro. Se o primeiro recorre à biologia, o segundo vai recorrer à própria fisica. De fato, diz o argumento, coisas da mesma espécie são compostos a partir da mesma matéria fundamental. Ora, quando narra a criação do homem, o texto diz que Deus tomou o barro (ou a argila) da terra e o moldou, para fazer-lhe o corpo. Ora, quando narra a criação da mulher, o texto diz que Deus tomou, como matéria fundamental, o corpo do homem. Há, aqui, uma evidente falta de simetria, que torna ininteligível o processo de criação da mulher: homem e mulher são da mesma espécie, mas o homem é feito do barro e a mulher, tirada do corpo do homem. Portanto, nem sequer coerência material o texto apresenta, nessa passagem. Assim, não é adequado dizer que a mulher foi tirada do homem, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O propósito de haver mulheres, segundo o texto, é a cooperação na reprodução humana. Ora, um parentesco muito próximo é muito prejudicial, não só moralmente, mas até biologicamente, para a reprodução. O próprio Livro do Levítico, 18, 16 e seguintes, na Bíblia mesma, diz que a intimidade sexual e a reprodução entre pessoas biologicamente muito próximas é condenável. Mas, se a mulher foi tirada do homem, eles seriam verdadeiramente clones um do outro, o que os tornaria muito impróprios para os fins reprodutivos. Logo, dizer que a mulher foi tirada do homem é algo muito inconveniente, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra lembra que esse trecho do Livro do Gênesis não está ali por acidente, nem é algo que destoa do restante da revelação bíblica. De fato, diz o argumento, o Livro do Eclesiástico (17, 5) reza que “de sua própria substância, deu-lhe uma companheira semelhante a ele, com inteligência, língua, olhos, ouvidos e juízo para pensar; cumulou-os de saber e inteligência”. Logo, deve haver algum sentido profundo, no texto bíblico, quando diz que a mulher foi “tirada do homem”, e devemos buscar esse sentido, e não desprezar simplesmente o texto.
5. Encerrando.
Tomás dará, em sua resposta sintetizadora, cinco razões para que a Bíblia narre a criação da mulher como “tirada do homem”. São riquíssimas. Podemos ou não concordar com elas, mas examiná-las com os olhos de quem quer aprender, de quem quer chegar ao sentido mais profundo das palavras sem se deixar cegar pelos preconceitos do tempo de Tomás ou dos nossos próprios tempos, vai nos ensinar muita coisa. Faremos isso no próximo texto.
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