1. Retomando.
É muito sensível, nos dias de hoje, e muito arriscado, retomar um texto tão marcado pelo tempo como a Suma Teológica, quanto ao assunto da dignidade igual entre homens e mulheres. Tomás é um homem de seu tempo e, mesmo marcado pela retidão da fé, que o ensina a respeitar a igualdade essencial de dignidade entre homem e mulher, ainda está muito profundamente marcado pela visão grega de que a mulher é como que um “homem incompleto”, inferior, defeituoso. Também acreditava, como os outros de seu tempo, que a reprodução seria a mera recepção passiva, pela mulher, da semente de um novo ser integralmente fornecida pelo homem. Desse modo, havia uma certa distorção com relação à visão trinitária, quando levada em analogia ao casal humano: imaginava-se que o homem seria análogo a Deus Pai, como origem não originada do Filho. A mulher seria como a matéria cósmica: toda receptora, sem colaborar em nada com o resultado da formalização do novo ser.
Esta visão, como sabemos hoje, não era correta nem sequer do ponto de vista biológico, nem tampouco do ponto de vista teológico. De fato, biologicamente, é o encontro dos gametas masculino e feminino que geram o novo ser; assim, a participação dos sexos, quanto aos gametas, é equivalente. Teologicamente, sabemos que esse encontro biológico dos gametas leva à intervenção divina, que participa da geração do novo ser pela criação direta de sua alma espiritual. Assim, não há analogia para o papel de Deus Pai na reprodução, porque a Trindade participa da reprodução humana não de modo analógico, mas de modo unívoco mesmo. Por outro lado, o abraço que gera o filho, na sexualidade humana, guarda mais analogia com a geração do Espírito Santo na Trindade: é do amor recíproco do Pai e do Filho que ele é criado, que ele procede, como reza o Credo Niceno-Constantinopolitano com a cláusula filioque: Creio no Espirito Santo, que procede do Pai e do Filho.
Mas chega de especulações; examinemos, agora, a resposta de Tomás a esta hipótese espinhosa que diz, de maneira infeliz, que a mulher não teria sido parte do projeto original de criação da parte de Deus.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Homem e mulher, cooperadores e complementares.
Desde o início e por toda a eternidade, Deus concebeu o ser humano como sexuado, isto é, como macho e fêmea, complementares e cooperadores na obra da criação divina. E não para qualquer tipo de cooperação, como se um fosse, de alguma forma um servo ou súdito do outro; pra a maioria das atividades, na verdade, homem e mulher podem ser ajudados por terceiros e até por animais ou ferramentas. Existe, pois, um sentido específico para o qual eles são cooperadores e complementares: as atividades de geração e cuidado com a prole.
Note-se que, em sua resposta, em vez de usar os termos “cooperadores” e “complementares”, Tomás usa a expressão bíblica “adjutorium” (auxílio), para explicar a relação da mulher para com o homem. É preciso notar, porém, que a Bíblia fala da mulher como “auxiliar que corresponde” (Gn 2, 20), e isso parece trazer uma ideia de reciprocidade que exclui qualquer hierarquia ou subordinação. Assim, temos que ler o texto bíblico sem os preconceitos do tempo de Tomás, e sem os preconceitos do nosso próprio tempo.
Neste sentido, a existência da distinção sexual tem relação com a família: ela fundamenta a relação familiar como uma relação de plena reciprocidade entre os sexos e as gerações, como ensina a sociologia relacional de Pierpaolo Donati. Para este fim é que a diversidade sexual existe, e é para esse fim que ela é insubstituível. Ser sexuado significa ser aberto a ser completado pelo outro.
A dimensão biológica.
Tomás vai examinar, assim, o modo de reprodução nos outros seres vivos.
Nos vegetais, diz Tomás, a função mais elevada é a reprodução. Podemos dizer que, de certo modo, os seres vivos de natureza vegetal existem e operam para a reprodução. Esta é a sua função mais elevada, de modo absoluto. Assim, diz Tomás, não é de surpreender que, neles, a reprodução não seja sexuada: cada indivíduo existe, em primeiro lugar, para perpetuar a espécie, e todas as outras funções estão subordinadas a esta. Assim, ele deve ter, em si mesmo e individualmente, todos os elementos necessários para que a reprodução aconteça, sem necessidade de um encontro entre macho e fêmea. É claro que nós sabemos, hoje em dia, que muitas espécies de plantas têm reprodução sexuada, mas, mesmo nestas, é muito comum que os órgãos reprodutivos carreguem em si os gametas masculinos e femininos, mesmo quando há reprodução cruzada com outro indivíduo. De qualquer maneira, isto não descaracteriza o ponto que Tomás quer provar.
Os animais, notadamente os animais superiores, reproduzem-se normalmente de modo sexuado. Isto indica que cada indivíduo não tem, de regra, a capacidade de se reproduzir sozinho, e, portanto, há outras funções, nele, que são tão ou mais importantes do que a simples reprodução. Por isso, a separação dos sexos permite que a atividade reprodutiva seja menos frequente, dependa sempre do encontro com outro espécime do sexo oposto, possibilitando a cada indivíduo que possa se ocupar com outras funções quando não está se reproduzindo. Além disso, diz Tomás, apenas no encontro entre os dois sexos é que a espécie manifesta sua completude: nenhum espécime tem, sozinho, todos os atributos da espécie, mas os dois juntos, na complementariedade, manifestam a unidade que possibilita a reprodução. A união sexual os unifica, tornando-se como que um só ser que representa integralmente a espécie. O ato sexual manifesta, assim, nos animais (embora de modo ainda imperfeito) suas características essenciais: unidade, complementariedade, fecundidade.
Note-se que Tomás ainda move sua argumentação com os paradigmas da ciência do seu tempo, que vê no elemento masculino a pura atividade, o dom integral da vida, e no elemento feminino a pura receptividade, a passividade na reprodução; sabemos que as coisas não são assim, embora saibamos que, no caso da espécie humana, há, de fato, um doar-se mais característico do pai (embora não exclusivo) e um receber mais característico da mãe, por causa da gestação e amamentação.
A espécie humana.
No caso dos seres humanos, nós já sabemos que a operação mais elevada, que manifesta a imagem de Deus em nós, é a operação da inteligência. Assim, as razões que explicam a reprodução sexuada em todos os animais se aplicam a nós de modo ainda mais próprio: a atividade reprodutiva está em função da atividade da inteligência. Por isso, em nós, a separação em sexos leva à consciência da incompletude individual e ao reconhecimento da dignidade do outro como imagem de Deus também. Por isso, no ser humano, o reconhecimento de que o sexo é doação unitária e complementar ordenada à transmissão da vida não é um mero dado biológico, mas um discernimento da razão dentro da tendência natural à reprodução. No ser humano, a sexualidade só faz sentido se subordinada à função mais alta, que é ser imagem de Deus pela inteligência e vontade, e essa imagem se completa pela união com outra pessoa, que devolve a unidade primordial à espécie humana, e que envolve a doação com exclusividade (única maneira de respeitar integralmente a dignidade alheia, (posto que “doação” com “reserva”, ou seja, sem entrega completa e irreversível, não é doação, mas negócio, uso ou compra e venda) para a complementação e expressão da fecundidade na reprodução, que, com a colaboração do próprio Deus (como vimos na questão anterior) transmite a vida à próxima geração, faz surgir novas imagens de Deus na pessoa dos filhos e transforma o casal em cooperadores de Deus, da própria atividade de criação divina.
3. Encerrando por enquanto.
Após essa explicação tão bela sobre a natureza da sexualidade e a beleza da união sexual humana, que envolve e convida o próprio Deus a participar da multiplicação de sua imagem em nós, veremos, no próximo texto, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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