1. Introdução.

A criação original, aquela que está narrada no segundo relato de criação da Bíblia, narra o surgimento do primeiro ser humano como alguém que não está diferenciado sexualmente. De fato, se a diferenciação sexual é uma relação, e sempre se diz com referência a outro, o primeiro ser humano não tinha um outro, frente ao qual se relacionar. A pergunta que interessa é: essa relação, esse surgimento do outro que me define e me completa, é próprio da natureza humana, tal como saiu das mãos de Deus, ou é uma característica que surge pela queda, pelo pecado original?

É preciso, aqui, reafirmar a igualdade de dignidade entre homens e mulheres, ressaltar a maneira pela qual essa diferenciação nos integra, nos completa, nos distingue, sem nos diferenciar como seres humanos. Se Adam está antes de Eva, indiferenciado, isso deve ser lido corretamente: somos seres humanos, integralmente dignos como seres humanos, antes mesmo de qualquer diferenciação sexual (antes, aí, está em sentido lógico, não cronológico).

É pela sua fecundidade que Deus cria. A fecundidade está inscrita na própria Trindade, com seu jogo de relações geradas e espiradas. Assim, no jogo da fecundidade humana o que se vê, mais uma vez, é um reflexo mesmo da Trindade. E aqui, mais do que em qualquer outro lugar, vê-se a gravidade do erro científico que era consenso no tempo de Tomás: aquela ideia de que o homem seria responsável pela semente que geraria o novo ser humano, e que toda a base material da reprodução viria do sexo masculino. Assim, o papel do homem seria inteiramente ativo, como aquele que produz e doa a base para um novo ser humano. A mulher seria apenas uma receptora e incubadora desse material. Com isso, via-se no homem o princípio da atividade, da origem, da doação, e na mulher a receptividade, a passividade, a nutrição do novo ser. Hoje, sabemos que o processo não é assim: a atividade é recíproca, assim como a doação de material genético. Permanece verdade, no entanto, que a participação dos sexos na reprodução é diferente, e este tem sido um motivo de tensões multiplicadas, hoje em dia. Passamos da defesa da equidade, da igual dignidade, para a reivindicação da equivalência, da igualdade de participação, que, no limite, inviabilizaria a própria reprodução. Ou, como diz o Papa Francisco, na Audiência Geral de 15 de Abril de 2015, vivemos uma época em que as ideologias são “expressão de uma frustração e de uma resignação, que visa a cancelar a diferença sexual porque não sabe mais como lidar com ela. Sim, corremos o risco de dar um passo atrás. A remoção da diferença, na verdade, é o problema, não é a solução”.

Compreender melhor a diversidade e a complementariedade, na igualdade de dignidade, é algo que Tomás se esforça por fazer nesta questão. Está limitado pelos dados científicos que possui. Estou certo de que, se ele soubesse o que sabemos hoje, teria avançado ainda mais na reafirmação da dignidade comum de homens e mulheres.

Em todo caso, vamos nos esforçar, com o coração aberto, para entender o que ele nos diz, e tentar reler, muito livremente, suas colocações à luz do que sabemos hoje. Ele foi bem longe, dentro do que podia, no sentido de garantir a dignidade na diversidade de sexos. Que possamos ir ainda mais longe.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial quer propor que a diferenciação sexual não estava nos planos originais de Deus para a criação, mas surgiu num segundo momento, dentro de um mundo já corrompido pelo pecado. Para esta hipótese, o homem, em sua masculinidade, seria a expressão plena do desígnio do criador, e o surgimento da mulher seria o resultado de algum tipo de degradação decorrente do pecado e da queda. É uma hipótese absurda, e será demolida por Tomás. Mas vamos examiná-la. Esta hipótese propõe que o surgimento da mulher não se deu na criação, como parte dos planos iniciais de Deus, mas num segundo momento, num mundo já decaído. Assim, a mulher teria uma dignidade inferior, de um ente gerado apenas por conta da queda. Havia, é certo, muita gente que pensava assim no tempo de Tomás, como ainda existe hoje. Vamos ouvi-los e assinalar as respostas de Tomás a eles, sempre conscientes de que Tomás está limitado pela ciência do seu tempo, mas é capaz, mesmo assim, de tomar posição em favor da igual dignidade da mulher. Existem três argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor vai resgatar justamente o pensamento de Aristóteles no seu livro sobre a geração dos animais. Ali, o filósofo grego, que de regra intui tão corretamente a verdade, vai produzir uma das afirmações mais equivocadas (e com tantos graves efeitos ao longo da história) que ele produziu. Ele afirma textualmente, nessa obra, que a fêmea é o macho falho. É como se todo ser humano devesse ser macho, e apenas por alguma falha no processo é que surgem as fêmeas, segundo ele. Ora, prossegue o argumento, quando Deus criou o mundo, ele, sendo perfeito, não iria criar algo que fosse falho. Logo, a mulher não foi criada no primeiro momento da criação, quando ainda não havia a marca da imperfeição trazida pelo pecado, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que, no paraíso, originalmente, as relações eram sempre de cooperação e coordenação, nunca de sujeição e dominação. De fato, após o pecado e a queda, Deus disse à mulher: “teu marido te dominará” (Gn 3, 16). Ocorre que a mulher é naturalmente inferior ao homem, diz o argumento, já que seu papel na reprodução é inteiramente passivo, sendo ela mera receptora da semente masculina, que traz em si todos os elementos do futuro filho. Como já lembra Santo Agostinho, tudo aquilo que é ativo é mais digno do que aquilo que é meramente passivo. Logo, a mulher é menos digna do que o homem, e portanto sua existência não poderia se dar na primeira criação, antes da queda, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Deus não incita ao pecado, nem sequer nos coloca em situações que possam nos levar a pecar. Deus não dá nem oportunidade ao pecado, nem cria ocasiões para que ele seja cometido.

Ora, a mulher é ocasião de pecado para o homem, como o prova o relato da queda; logo, Deus não deve ter criado a mulher no Paraíso, no primeiro momento da criação, sabendo que ela seria uma armadilha para o homem, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento contrário a essa hipótese machista e a esses argumentos objetores tão misóginos vem diretamente da Bíblia. De fato, é o próprio relato bíblico que estabelece a mesma dignidade para o homem e a mulher, quando narra que Deus criou a ambos no Paraíso, para que pudessem cooperar entre si. O argumento cita, para comprovar isto, a passagem de Gn 2, 18: “Não é bom que o homem esteja só, vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda”. Uma vez que, no paraíso, não poderia haver relações que não fossem de cooperação e coordenação para o atingimento dos fins comuns, fica estabelecido, claramente, que o ser humano foi criado por Deus, no Paraíso, como espécie sexuada, homem e mulher, iguais em dignidade e natureza, complementares na missão, conclui o argumento.

5. Encerrando.

No próximo texto, veremos a resposta sintetizadora de Tomás sobre este assunto; marcada pelos limites de sua cultura, mas com a intuição da igualdade de dignidade entre os sexos.