1. Retomando.
Vimos, então, no texto anterior, a hipótese de que a Bíblia não narra adequadamente a origem do ser humano, e os argumentos iniciais que contestam o texto bíblico a partir de dados filosóficos, científicos ou mesmo textuais, para tentar comprovar que essa narração bíblica é inadequada. É uma discussão surpreendentemente parecida com a que temos hoje em dia, no sentido de que, mesmo hoje, muita gente ainda confronta uma leitura fundamentalista, literal, da Bíblia, por um lado, com dados científicos ou filosóficos, do outro, para tentar desacreditar as Escrituras. Se, naquela época, o maior problema vinha da necessidade de harmonizar uma visão de mundo fundamentalmente aristotélica com um relato bíblico advindo de um contexto judaico, inteiramente alheio à concepção grega do mundo, o problema hoje se dá entre os fundamentalistas bíblicos e os cientificistas, normalmente os evolucionistas e biologistas.
Como veremos, a leitura bíblica que Tomás propõe tem, como parâmetro, a harmonização da Revelação com os dados da razão, em especial com os dados filosóficos e científicos. O mesmo Deus que se revela nas Escrituras é o mesmo Deus que criou o mundo e se dá ao exame filosófico e científico da realidade. Assim, não pode haver contradição real entre a Bíblia e a ciência, ou entre a Bíblia e a filosofia, desde que as respectivas concepções sejam examinadas com abertura de mente e respeito aos limites de cada abordagem. É exatamente o que veremos Tomás fazer aqui. Se, por um lado, muito daquilo que se tinha por boa ciência no século XIII (época em que ele escreveu a Suma) está, hoje, irremediavelmente ultrapassado, por outro lado o modo com que Tomás lida com os aparentes conflitos entre fé e razão continua a ser exemplar ainda hoje. Vamos ao texto.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor observa que a narração da criação das outras coisas é diferente da narração do ser humano, no relato bíblico. As outras coisas são criadas com a simples declaração de Deus; “faça-se”. Mas a criação do ser humano, além de envolver o sexto dia, usar o plural (façamos) e registrar a imagem de Deus e a criação em dois sexos, ainda prossegue num segundo e longo relato, no capítulo seguinte. Logo, essa quebra de simetria na narração revela uma imperfeição do relato bíblico, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
O ser humano é o ápice da criação. De fato, tudo foi criado para que o ser humano tivesse um lugar adequado para viver. Somente o ser humano foi criado à imagem de Deus (embora isso não devesse ser fonte de soberba e descaso autoritário com o resto da criação, mas, ao contrário, de cuidado e gratidão, como ensina o Papa Francisco na Encíclica Laudato Sí).
Ora, tudo é criação de Deus, e por isso tudo tem a dignidade criatural. Merece, portanto, todo o respeito de nossa parte. Tomás cita, aqui, o Salmo 102 (101), 26b: “O céu é obra de tuas mãos”. Cita também o Salmo 95(94), 5: “O céu é dele, pois foi ele quem o fez, e a terra firme que suas mãos plasmaram”. As Escrituras, portanto, ressaltam muitas vezes a maravilha da criação de todas as coisas.
Mas, quanto ao ser humano, as Escrituras usam um modo ainda mais especial de falar; isso se vê de modo muito claro no segundo relato da criação, que inicia em Gn 2, 4b. Nesta passagem, como no primeiro relato (em especial Gn 1, 26-2, 4a) a Bíblia quer mostrar a centralidade do ser humano na criação. De fato, diz Tomás, mesmo nós, simples humanos, quando agimos, colocamos maior atenção e cuidado naquilo que é o centro da nossa intencionalidade. De modo análogo, os relatos bíblicos sempre ressaltam o ser humano, usando, para com ele, de uma linguagem mais apurada, mais completa, do que aquela que descreve a criação dos outros seres.
O segundo argumento objetor.
Ainda criticando a linguagem das Escrituras, no primeiro relato da criação, o argumento destaca que, no relato da criação de todas as coisas que Deus fez diretamente, ele simplesmente diz: “faça-se”. Mas, na criação do ser humano, ele diz “façamos” (Gn 1, 26), como a indicar que não o fez pessoalmente, mas delegou essa criação a alguém. Assim, o relato, diz o argumento, é inadequado.
A resposta de Tomás.
Esta mudança de expressão (do singular “faça-se” ao plural “façamos” em Gn 1, 26) não deve ser compreendida como se Deus estivesse dando uma ordem às forças naturais, ou mesmo aos anjos, de que modelassem o corpo humano sem a intervenção divina direta. A compreensão mais adequada é aquela que vê, nessa passagem, uma participação especial das Pessoas divinas, já que o ser humano seria imagem da Trindade de modo mais completo do que as outras coisas criadas. Estamos, portanto, diante de uma ênfase na dignidade humana como mais perfeita imagem criatural da Trindade. Isso dá ao ser humano uma importância intrínseca, que deve ser respeitada em si mesma, independentemente de quaisquer considerações fáticas ou morais. A dignidade do ser humano não está condicionada a fatores como idade, inteligência, sexualidade, crença, pertença social ou cultural ou mesmo integridade de saúde e consciência. O ser humano é digno simplesmente por ser expressão, imagem da Trindade.
O terceiro argumento objetor.
O ser humano é uma unidade composta de matéria e forma; a matéria se expressa no corpo, e a forma é a alma espiritual, que é a estrutura do próprio corpo. Assim, não faz sentido que as Escrituras digam que Deus “modelou o corpo humano” e depois “insuflou-lhe nas narinas um sopro de vida”, já que a própria estrutura do corpo é a alma, e, portanto, moldar o corpo já é conceder-lhe alma. Não há sentido, portanto, em dizer que Deus soprou a alma num corpo já moldado. Logo, conclui o argumento, a narração de criação é inconveniente e imperfeita.
A resposta de Tomás.
As Escrituras são inspiradas divinamente. Mas Deus respeita os modos de expressão das culturas, e não poderíamos esperar que antigos escritores hebreus pudessem se expressar do mesmo modo que os filósofos gregos viriam a se expressar anos depois. Assim, embora se debruçassem sobre as mesmas realidades, é de se esperar que eles tenham usado modos diferentes para descrevê-la.
O ser humano é uma unidade. Não é o somatório de um corpo com uma alma, como se fosse apenas a reunião acidental de duas realidades diferentes. Assim, não teria sentido que Deus criasse corpos sem alma ou almas sem corpos; na verdade, uma vez que a alma pode sobreviver ao corpo, seria menos absurdo pensar em almas sem corpos do que o contrário. Assim, devemos interpretar este texto de alguma maneira que evite a conclusão de que o corpo foi criado de modo separado da alma ou vice-versa. Deus criou o ser humano, corpo e alma, como uma unidade, desde o princípio.
Assim, pode-se ver, em Gn 2, 7, a narração de que Deus se valeu da “argila”, ou seja, de algum princípio material preexistente (talvez um animal sem inteligência, cujo processo de evolução permitiu-lhe estar bem disposto a receber uma alma espiritual, após a devida intervenção divina em seus processos corporais); ou, talvez, o sopro que Deus lhe dá seja a assistência do Espírito Santo, que terá sua consumação em Pentecostes (At 2, 2-4). Mas esta não é uma interpretação que Tomás adote pessoalmente. Ele realmente defende que esta descrição em Gn 2, 7 é uma forma (limitada pela cultura da época) de dizer que, na alma do ser humano, há algo de espiritual, que teve que ser diretamente insuflado por Deus, e que ultrapassa a simples vida biológica dos outros animais. Santo Agostinho corrobora essa leitura. Assim, quando esse versículo fala que Deus soprou no rosto do ser humano, isto não deve ser lido como se fosse uma sequência cronológica, ou seja, como se ele houvesse primeiro moldado um corpo e depois soprado a alma, mas apenas como uma descrição (culturalmente condicionada) da criação simultânea de um corpo material e de uma alma espiritual.
O quarto argumento objetor.
Uma vez que a alma é estrutura do corpo, ela não está “localizada” em alguma parte do corpo, como pensam alguns, mas está no corpo inteiro. Logo, é inconveniente e inadequado o relato de Gn 2, 7, quando insiste que a alma foi “soprada nas narinas” ou no “rosto” do ser humano, como se ela estivesse localizada ali, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Aqui, também, deve-se respeitar o contexto cultural em que a Bíblia foi escrita. De fato, a imagem utilizada, do “sopro na face”, ou do hálito nas narinas, está relacionada ao fato de que a vida se manifesta mais visivelmente aí, ou seja, é pelo rosto que percebo que alguém está vivo, é pelas narinas que a respiração acontece; justamente por ser esse sinal visível de vida é que a Bíblia usa essa imagem do “sopro nas narinas”, ou “no rosto”, para significar a infusão da vida no ser humano. É uma imagem pertinente, adequada e ajustada à linguagem compreendida pelos destinatários da revelação bíblica.
O quinto argumento objetor.
O quinto argumento objetor lembra que a imagem de Deus, no homem, está na alma, mas a sexualidade, ser homem ou mulher, é algo do corpo. Ora, uma vez que somos seres unitários, parece bastante inconveniente que as Escrituras tenham descrito a criação do ser humano, no sexto dia, registrando que Deus os criou “à sua imagem”, para só depois dizer “homem e mulher os criou”; parece haver uma separação entre a criação da alma e a criação do corpo, e isso é inadequado, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Que o ser humano é uma unidade, não há dúvida. Nem se pode colocar isso em dúvida pelo modo de narrar da Bíblia. É bom lembrar que esse primeiro relato bíblico da criação (Gn 1, 1 a 2, 4a), não é o único. Há outras passagens bíblicas, como aquela que se inicia logo em seguida, que narram a criação (Gn 2, 4a e seguintes), além de passagens como nos salmos. No caso desse primeiro relato, a criação é narrada como uma grande liturgia cósmica, e sempre se entendeu essa narração não como uma sucessão cronológica, mas como uma grande descrição simbólica do agir de Deus em relação conosco. O próprio Santo Agostinho já defendia que não se pode entender essa menção aos “dias” como uma menção a uma passagem real de tempo, mesmo porque o tempo também é uma criatura. Agostinho defendia que a criação se dá num instante fora do tempo, em todas as suas “sementes de razões” que se desdobrarão paulatinamente na história, quando passarem da potência ao ato (visão, aliás, muito fácil de harmonizar com as modernas teorias da evolução). Outros Doutores e Padres ressaltam que a criação do ser humano deu-se de modo plenamente unitário e simultâneo, de corpo e alma, mas apenas a forma de narrar, dada a própria natureza progressiva da comunicação humana, dá ideia de que há uma sucessividade de ocorrências.
Trata-se, pois, de interpretar adequadamente a passagem, que pode ser lida sem levar à conclusão de que o ser humano não é uma unidade ontológica. Porque ele o é, e assim foi criado por Deus.
3. Concluindo.
Encerramos mais uma questão. Rica, maravilhosa. Na próxima questão, entraremos numa aventura: rever a criação da mulher, como narrada por Tomás, a partir de suas limitações científicas e filosóficas, teológicas mesmo. Ficaremos impressionados em ver como, apesar de todos os condicionamentos em contrário, ele consegue manter, embora de um modo ainda muito condicionado e precário, a igualdade de dignidade entre homem e mulher.
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