1. Introdução.
Temos, hoje em dia, a ideia falsa de que a idade média foi um período fideísta, obscurantista, no qual as pessoas eram cegas pela religiosidade e não aceitavam as conquistas da ciência. Falsa ideia. Como veremos neste artigo, a interpretação das Escrituras era feita levando em consideração aos dados científicos, e sempre se soube que a interpretação literal era fundamentalista e absurda.
Veremos, pois, neste artigo, como os dados das Escrituras são analisados e sopesados com os elementos racionais provenientes da filosofia e da ciência, para serem devidamente compreendidos de modo a não contrariar estes últimos. Podemos, hoje, perceber que os dados científicos estão muito desatualizados, mas não podemos deixar de louvar o fato de que o modo de interpretá-los ainda pode nos ensinar, justamente, a maneira adequada de harmonizar fé e razão – e nisto Tomás de Aquino foi – e é – nosso grande mestre.
Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial diz que é impossível harmonizar aquilo que sabemos sobre a origem do ser humano, a partir dos dados científicos e da filosofia, com o relato bíblico da criação do ser humano. Este problema talvez seja ainda mais forte agora, no século XXI: como defender o relato bíblico da criação frente a ciência e à antropologia de hoje? Na verdade, estamos presos entre o fundamentalismo bíblico, por um lado, que quer defender uma leitura literal da Bíblia, e um cientificismo, por outro, que quer acreditar na ciência como uma cosmovisão incontestável 9algo que nem a própria ciência alega ser).
Assim, a hipótese controvertida, aqui, que provocará o debate, é: parece que o relato bíblico da criação do ser humano é inadequado, ou seja, a Bíblia não descreve corretamente a origem do ser humano, diz a hipótese. Veremos cinco argumentos objetores, que defenderão esta hipótese inicial. E veremos também que este artigo não tem uma resposta sintetizadora separada, mas Tomás passará a responder imediatamente aos argumentos objetores. Examinemo-los.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor constata que o primeiro relato de criação da Bíblia, aquele em que a criação é descrita como uma “sequência de dias”, traz uma incoerência entre o relato de criação de todo o universo material, por um lado, e a criação do ser humano, por outro.
De fato, ao descrever a criação de todas as outras coisas, o relato possui a seguinte estrutura: “Deus disse ‘faça-se’, e aquilo foi feito”. Mas essa simetria não se repete quanto a criação do ser humano. Aqui, o relato se alonga e se multiplica num segundo relato, em que o ser humano é moldado a partir do barro. Portanto, ao quebrar a simetria com toda a criação, quando relata a criação do homem, vê-se que a narrativa das Escrituras é frágil e inconveniente, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor ainda se move no campo da crítica literária ao texto bíblico. De fato, diz o argumento, já sabemos que o corpo humano foi resultado de uma intervenção criadora direta de Deus sobre a natureza. Isto foi adequadamente estabelecido nos artigos anteriores, que já debatemos.
Ora, quando Deus criou diretamente todas as coisas, o relato bíblico consignou a atuação dele com a expressão “faça-se”. Mas, com o ser humano, o relato usa a expressão “façamos” (Gn 1, 26), dando a entender que sua atuação foi indireta. Quem faz, impera; logo, sua atuação pode ser descrita com um verbo no imperativo como “faça-se”. Mas quem delibera ou determina que outra pessoa faça o que ele ordena, conversa com outras pessoas, e assim sua atuação pode ser descrita pelo verbo no plural, como é o caso de “façamos”. Assim, esse relato parece não se adequar à ideia de que Deus criou o corpo humano por atuação direta, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Vimos que, na estrutura metafísica humana, a matéria corresponde à estrutura corporal, e a forma corresponde à alma espiritual. Mas na Bíblia, ao descrever a atuação de Deus na criação do ser humano, em Gn 2, 7, narra que ele “modelou o ser humano com a argila do chão”. Em seguida, Deus teria “insuflado em suas narinas um hálito de vida”. Portanto, o corpo humano, material, já tinha uma estrutura, uma forma, quando recebeu o “sopro” de Deus, que seria a alma espiritual. Portanto, a narração parece dissociar a forma do corpo, por um lado, da alma, por outro, o que é destoante com o que se sabe da constituição do ser humano. Logo, o relato é inconveniente, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
A alma é a estrutura espiritual do ser humano, responsável pelo conhecimento, pelo pensamento, pela deliberação. Ela é, também, a própria estrutura do corpo, como forma que é. Ora, sabe-se que a alma está em todo o corpo humano, e em especial naquelas partes do corpo envolvidas no processo de conhecimento e deliberação, como o coração (vale lembrar que, nos tempos de Tomás, a ciência apontava o coração como estrutura responsável pelo centro de identidade do ser humano). Assim, se o sopro de Deus, segundo o relato bíblico, é responsável pela existência da alma espiritual no ser humano, é muito inconveniente que o relato narre que Deus soprou na face do ser humano, ou nas “narinas” (como dizem algumas traduções) aquilo que deve estar em todo o corpo, ou especialmente no coração ou no cérebro (como pensamos hoje em dia), conclui o argumento.
O quinto argumento objetor.
O quinto argumento lembra que a alma humana é uma só, quer para homens ou para mulheres; a alma é, em nós, aquilo que nos atribui a qualidade de imagem de Deus. Mas o ser humano é também um animal, e por isso tem sexualidade, o que se manifesta pelo fato de que nossos corpos podem ser masculinos ou femininos. Ora, segundo o ensinamento de Santo Agostinho em seu Comentário ao Gênesis, a alma foi criada antes mesmo do primeiro dia, ao passo que o corpo só o foi no sexto dia.
Assim, quando a narração diz que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, e em seguida acrescenta que homem e mulher os criou, está fazendo uma narração disparatada, porque a imagem já estava dada pela criação anterior da alma, e não tem nenhuma relação com o fato de que os corpos (que não trazem em si nenhuma imagem de Deus) sejam masculinos ou femininos; ao associar, na mesma frase, a imagem de Deus em nós com o fato de sermos masculinos e femininos, a Bíblia faz uma associação inconveniente, conclui o argumento.
4. o argumento sed contra.
O argumento sed contra defende que não podemos aceitar aquela hipótese de que as Escrituras são falsas; o argumento simplesmente nos lembra que a Escritura tem a autoridade de palavra revelada. Assim, ela pode ser lida de um modo que a harmonize com o dado filosófico ou mesmo científico, e isto é necessário. Mas não podemos fazer uma leitura da Bíblia que simplesmente destrua sua autoridade, a pretexto de uma suposta incoerência entre seu texto e os conhecimentos científicos ou filosóficos do leitor e do seu tempo. Em suma, a autoridade da Bíblia deve ser resguardada por uma leitura interpretativa que a torne coerente, e não menosprezada por alguma interpretação radical, racionalista ou cientificista, que venha a declarar que ela é absurda ou errônea, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Como não há, neste artigo, uma resposta sintetizadora de Tomás, passaremos, no próximo texto, a examinar suas respostas diretas aos argumentos objetores iniciais.
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