1. Retomando.
A capacidade das nossas aptidões corporais não é um fim em si mesmo, mas um meio para que possamos exercê-las sob a coordenação de nossas aptidões intelectuais. Uma antiga propaganda de pneus automobilísticos trazia um slogan interessante: “potência não é nada sem controle”; nada adiantaria, para o ser humano, ter a capacidade de correr a uma enorme velocidade, se não fosse capaz de discernir inteligentemente quando e para onde correr. Assim, diferentemente dos leões, que dependem da força bruta, do olfato e da visão para caçar e sobreviver, o ser humano precisa de um corpo que permita uma adequada relação com o ambiente, mas sua ambição não se limita a conseguir alimento e abrigo, reproduzir-se cegamente ou mesmo dominar um bando. Queremos atingir a plenitude de nossas aptidões, viver uma vida virtuosa, e a sobrevivência física é apenas o primeiro passo para isto. Além do mais, nossa inteligência é interpelada justamente pela necessidade de sobrevivência e superação, que demanda todos os nossos esforços, físicos e intelectuais, coordenados pela inteligência. Por isso, nosso corpo é perfeitamente adequado à nossa natureza, que é racional, e cuja plenitude vem justamente da ordenação das inclinações naturais pela inteligência. Já vimos isso nos textos anteriores.
Agora, examinaremos as respostas de Tomás aos dois últimos argumentos objetores que se colocam neste artigo, e que buscam comprovar a hipótese controvertida inicial de que nosso corpo é inadequado à nossa natureza humana.
2. Os dois últimos argumentos objetores e as respostas de Tomás.
O segundo argumento objetor.
Se o corpo humano fosse adequado e perfeito, ele teria todos os elementos necessários a essa perfeição. Ocorre que faltam, ao corpo humano, atributos tanto na ordem da proteção (outros animais têm pelos densos que protegem do frio e carapaças que defendem de atacantes, por exemplo) quanto na ordem da eficiência no ataque, como garras e presas longas que o tornassem capaz de agredir e ferir agressores. Muitas feras e bichos têm esses atributos em sua configuração corporal. Nós, porém, temos apenas uma pele frágil, pouca pelagem e poucos elementos de ataque e defesa, sem garras ou presas, mas apenas com dentes frágeis e unhas pequenas e quebradiças. Portanto, o corpo humano está longe de ser perfeito ou adequado, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Os atributos dos animais, tais como garras e presas, ou mesmo carapaças e pelos longos, revelam exatamente sua natureza de feras, que está presa aos limites da sobrevivência material e da luta pelo exercício puro dos instintos de alimentação e reprodução. Tudo isso revela que esses seres não ultrapassam esses limites, e suas finalidades não vão além daquelas imediatamente dadas na vida biológica. Sobreviver, alimentar-se, reproduzir-se, proteger o bando e a prole, defender-se de predadores e morrer; eis aí a razão de existência dessas seres dotados desses atributos corporais. A própria existência desses atributos testemunha essa vocação à vida biológica, imanente, superficial.
O ser humano é chamado à virtude, ou seja, ao desenvolvimento de suas capacidades intelectuais e morais por meio da razão. Assim, seus atributos corporais são aparentemente mais delicados e sua constituição, aparentemente mais frágil. Como as suas tendências naturais são mais frágeis do que os instintos animais, é preciso que a razão e a habilidade de modificar a natureza de modo inteligente (representada pela habilidade com as mãos) complemente aquilo que falta em características biológicas, possibilitando o desenvolvimento de culturas e modos de viver que capacitam o ser humano a se adaptar e se desenvolver nos mais diversos ambientes; a inteligência e a mão fazem com que o ser humano muito mais modifique os ambientes do que seja modificado por eles. Na nossa aparente fragilidade, encontramos a abertura para a plena realização humana, portanto.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento diz respeito à postura ereta dos seres humanos. De fato, somos os únicos, em todo o reino animal, a adotar uma postura assim. Os ouros animais, nossos irmãos, têm sempre uma postura quadrúpede ou, ao menos, encurvada, de tal modo que a nossa postura ereta mais se assemelha às árvores que aos outros animais. Mas nós somos muito mais próximos dos outros animais do que das árvores. Assim, vemos que o corpo humano está muito longe de ser adequado e perfeito, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás dá quatro razões pelas quais é muito conveniente, e expressão da perfeição e adequação do nosso corpo, que tenhamos uma postura ereta, e não encurvada como a dos outros animais:
1) Os sentidos, nos outros animais, servem essencialmente aos seus fins biológicos, isto é, à pura sobrevivência, busca de alimentos e reprodução, fuga e defesa de ameaças. O ser humano, por outro lado, tem os sentidos como fontes de conhecimento sobre a realidade com a qual se relaciona, e, portanto, para fins que ultrapassam muito as suas dimensões de sobrevivência, manutenção e reprodução.
É certo que os animais podem obter prazer e alegria com os estímulos que recebem pelos sentidos, mas esse prazer não ultrapassa aquele associado aos instintos fundamentais, notadamente de alimentação, reprodução e associação. O ser humano, por outro lado, é capaz de sentir alegria pela contemplação sensorial, de tal modo que a beleza em si mesma é um estímulo a ele. Contemplar uma bela paisagem, a harmonia de traços faciais ou mesmo a expressão artística é algo próprio do ser humano. Portanto, enquanto os animais tendem a ter uma postura encurvada, voltada para baixo, por encontrarem assim o objeto dos seus instintos mais facilmente, o ser humano tem uma postura ereta para poder contemplar mais adequadamente aquilo que conhece, pelos sentidos, do mundo que o cerca.
2) A postura ereta exprime, também, que o cérebro, sede dos sentidos interiores, e o coração, fonte da identidade, possam dominar sobre as funções inferiores do ser humano. Trata-se, pois, de uma razão simbólica da nossa dignidade.
3) Se tivéssemos uma postura inclinada, precisaríamos usar nossos membros anteriores (os braços e nossas mãos) como meio de locomoção auxiliar, o que nos tiraria esses preciosos instrumentos de expressão da nossa capacidade de mudar o mundo com o nosso agir e fazer.
4) A postura inclinada, que leva à posição quadrúpede, também nos levaria a comer como os outros animais, sem usar as mãos para levar os alimentos à boca. Com isso, teríamos muito menos possibilidade de articulação de línguas e lábios, o que, certamente, dificultaria a criação de uma linguagem articulada, que nos permite expressar o pensamento. Não poderíamos conversar adequadamente, o que seria prejudicial à expressão de nossa inteligência.
Enfim, estas quatro razões demonstram que, para Tomás, o corpo existe, fundamentalmente, para expressar nossa inteligência. Isto é, embora a nossa alma possa exercitar sua inteligência de modo independente de qualquer órgão corporal (já que é uma capacidade estritamente espiritual), no entanto a possibilidade de aprender e de expressar a inteligência no mundo e aos semelhantes está intrinsecamente relacionada ao corpo. O ser humano é uma unidade corporal – espiritual, e o nosso corpo é perfeitamente adequado a essa realidade.
Por outro lado, lembra Tomás, é descabido comparar a postura ereta do ser humano com o tronco das árvores. Na verdade, diz Tomás, a biologia vegetar é completamente diferente da biologia humana, de tal modo que não se pode dizer, com certeza, quais partes, nos vegetais, correspondem às partes do corpo humano. As estruturas reprodutivas, por exemplo, são as flores; as raízes são mais do que mera estrutura de fixação, e de certo modo dirigem o crescimento da árvore. Por outro lado, as folhas fazem parte do processo respiratório e alimentar, de tal modo que as partes não correspondem às nossas. A posição ereta, nos seres humanos, não corresponde, nem por analogia, ao fato de que as árvores podem ser longilíneas também.
Tomás faz, então, uma observação que, embora um tanto poética, que, embora esteja muito de acordo com a visão hierárquica que ele tinha da criação, pode nos parecer muito anacrônica: as árvores têm seu aparelho alimentar na raiz e seu aparelho excretor nas folhas: estão, portanto, de ponta-cabeça com relação a nós, humanos. Os animais, que normalmente têm a boca mais elevada do que a extremidade excretora, mas, ainda assim, têm uma posição inclinada, estão numa situação intermediária entre as árvores e nós. Finalmente, em nós, a configuração do aparelho digestório, com a extremidade alimentar no alto e a extremidade excretora embaixo, revela o quanto a configuração do nosso corpo é a mais perfeita e adequada de todos os seres vivos.
3. Concluindo.
Depois dessa verdadeira aula de contemplação natural do corpo humano, de sua adequação e perfeição, e da inteligência e amor com que Deus nos fez, veremos, no próximo texto, se a narração da Bíblia descreve convenientemente essas realidades. Será uma aula de interpretação bíblica, de leitura não fundamentalista, de respeito ao dado científico e ao dado revelado.
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