1. De volta.

Vimos, no texto, anterior, a hipótese de que o corpo humano seria inadequado à sua condição de animal inteligente, que, de certo modo, deveria ser o mais perfeito, o mais consumado de todos os animais. E não é, isso é fato. Somos mais fracos em sensibilidade externa, mais lentos, incapazes de atividades como voar, respirar sob a água ou escalar paredões, e além disso somos desprovidos de proteções naturais contra as intempéries; também somos pobres em proteções naturais como garras e presas, ou cascos e couraças. Somos dotados de uma postura ereta que torna precário nosso equilíbrio e limita a capacidade de correr ou escalar. Todos estes defeitos parecem atestar que, como animais, somos, de certo modo, fracos e mal constituídos.

No entanto, temos a palavra revelada que, como vimos no argumento objetor, nos atesta que fomos criados adequadamente por Deus (Eclesiastes 7, 30); mas como poderíamos confiar nesta Palavra, diante de constatações tão veementes dos nossos limites corporais?

É o que veremos, agora, examinando a resposta sintetizadora de Tomás e, em seguida, sua resposta ao primeiro argumento objetor.

Precisamos ser atentos, aqui, porque Tomás respeita muito a ciência empírica de seu tempo, que, aliás, ele conhece muito bem. Tomás não é um fideísta: ele tem um enorme apreço pela ciência. O que sempre nos encanta, porém, é sua capacidade de ler adequadamente os dados empíricos e extrair deles uma resposta capaz de sobreviver à mudança dos paradigmas científicos. E fornecer uma orientação sobre como examinar os nossos próprios paradigmas científicos de modo a construir, com respeito a eles, uma resposta sempre sensata, equilibrada e adequada às interpelações filosóficas e teológicas com as quais nos deparamos.

Como registro, é bom lembrar alguns consensos científicos do tempo de Tomás, que ele respeita e usa em sua resposta. A ciência de seu tempo conhecia bem a anatomia humana, mas trazia propostas, quanto aos órgãos do nosso corpo, que talvez nos pareçam bem estranhas hoje em dia. O cérebro, por exemplo, não era considerado como a sede dos nossos pensamentos e informações, mas como um grande “radiador” capaz de esfriar o nosso sangue, mantendo a temperatura corporal. O coração, por outro lado, era visto como um “aquecedor” para o sangue, e era tido como o centro da nossa identidade e dos nossos sentimentos. Tomás conhece estas concepções e as respeita, mas não perde de vista a antropologia adequada que o guia.

Mas chega de digressões: vamos ao texto de Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

Deus pensou no corpo humano, isto é, o corpo humano não é o fruto de um acaso evolutivo, mas de deliberação inteligente de Deus.

Ora, podemos perceber como funciona o desígnio de Deus quanto àquilo que ele cria quando observamos, por analogia, um ser humano criando inteligentemente uma obra. O artesão humano percebe, em primeiro lugar, qual é o objetivo que ele deseja alcançar com sua obra; em seguida, ele a cria de tal modo a poder alcançar esse fim. Por exemplo, diz Tomás, quando um engenheiro quer construir uma serra capaz de cortar, com eficiência, materiais duros, ele deve escolher algum material ainda mais resistente do que os materiais que ele pretende cortar. Por isso, se ele quiser fazer uma serra capaz de cortar, por exemplo, vergalhões de aço, ele não deve utilizar papel ou o vidro como matéria-prima para sua serra, por mais que ele ache o papel ou o vidro materiais muito bonitos, porque o papel e o vidro não seriam capazes de cortar vergalhões de aço, e sua criação não seria eficiente para alcançar o fim almejado. A estética, aqui, seria um empecilho para a criação, já que desviaria o engenheiro do fim a ser atingido. Mesmo que esse engenheiro acreditasse muito na beleza do vidro, ou na versatilidade do papel, a sua serra não poderia usar esses materiais, mas deveria ser feita de algo como diamante ou titânio. De tal modo que a perfeição dessa serra não seria medida de modo absoluto, ou em função de algum elemento estético, mas pela sua capacidade de cortar aço.

De modo análogo agiu Deus na criação. Ele deu a cada coisa aquilo que seria melhor para atingir seus fins, mesmo que, olhando de um modo absoluto, talvez houvesse alguma solução que parecesse mais bonita, mais adequada, do que aquela que efetivamente foi adotada por Deus para nós. Mas isso nos torna ainda mais dignos: podemos ter a certeza de que fomos agraciados por Deus, em nossa constituição física, com tido aquilo que é necessário e suficiente para que possamos atingir nossos fins, ou melhor, nosso fim, que é desenvolver, pelo uso da inteligência, as virtudes necessárias a uma vida plena e feliz. Vale dizer, o fim do ser humano é viver uma vida inteligente, ordenada pela alma espiritual, de tal modo a subordinar a matéria à forma, o corpo à alma, os sentidos à razão, e esta a Deus.

Assim, diz Tomás, podemos ter a certeza de que o corpo humano foi pensado por Deus de tal modo que nos permite atingir adequadamente estes fins; ele é perfeitamente proporcionado a isto. Portanto, aquilo que pode parecer inadequado, ou imperfeito, no corpo, na verdade não o é, se examinarmos a constituição do corpo a partir da proporção com este fim. Aquilo que, de acordo com os limites da matéria e da criaturalidade, pudesse ser desproporcional a esse fim, quer por ser insuficiente, quer por ser excessivo, não representa defeito do corpo humano, mas limite mesmo. Não precisamos de garras de leão, nem de asas de águia em nosso corpo, para os fins a que nos destinamos.

Portanto, olhando a partir do fim a que o ser humano é chamado, temos um corpo adequado e bem-proporcionado, perfeito para nós.

3. A resposta de Tomás ao primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor.

O ser humano é o cume da criação, a criatura que representa o ápice da atuação criadora de Deus, diz o argumento. Deve ser o animal mais perfeito, portanto. Assim, ele deveria ter a melhor qualidade de tudo o que representa a vida animal. Ora, a vida animal se caracteriza pela capacidade de locomoção e pela existência de órgãos dos sentidos capazes de explorar o ambiente. Mas há muitos animais com maior capacidade de locomoção do que o ser humano, como aqueles que correm mais do que nós, que podem voar ou respirar sob a água. Por outro lado, muitos animais possuem sentidos muito mais apurados que os nossos, como os cães com relação ao faro, ou as águias, quanto à visão, Portanto, o corpo do ser humano não está adequadamente configurado, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Esta é uma daquelas respostas que são muito estranhas para nós, porque se fundamenta na ciência do tempo de Tomás, que, como sabemos, foi ultrapassada pela ciência do nosso tempo.

Mas podemos acompanhar Tomás, no sentido de que ele consegue, com os dados do seu tempo, ultrapassar os limites empíricos e apontar uma direção clara para a sua antropologia: se, de fato, temos instintos mais fracos, isso se dá porque somos inteligentes, e, portanto, capazes de transcender, com a nossa habilidade, os limites dos nossos instintos. Mas vamos examinar a resposta de Tomás.

Todos os sentidos, diz Tomás, têm seu modelo e formato no sentido do tato, que é aquele sentido que permite tocar o outro, perceber as outras coisas, estabelecer esta primeira e fundamental relação com o que é externo a nós. Os outros sentidos poderiam ser descritos simplesmente como especializações do tato: por exemplo, a visão seria como que o “tato da luz”, como a audição seria o “tato do som” e assim por diante.

Ora, diz Tomás, esta capacidade de tocar a realidade e se aperceber dela, da qual o tato é a expressão mais direta, é mais perfeita no ser humano do que em qualquer outro animal. Assim, há um equilíbrio em todos os sentidos e capacidades externas humanas, de tal modo que essa percepção, essa relação com aquilo que é outro, possa ser favorecida.

Ora, sempre que algum animal apresenta algum sentido que tem uma capacidade extraordinária, isso se dá, diz Tomás, com prejuízo das outras capacidades corporais, de tal modo a provocar um desequilíbrio nas aptidões corporais daquela espécie animal. Assim, por exemplo, um animal que tem uma visão muito mais aguçada do que a visão humana pode, em contrapartida, ter um tato, ou seja, uma sensibilidade cutânea, muito menos apurado, de tal modo que possa sentir menos dor ao avançar sobre inimigos ou mesmo sobre presas. Por outro lado, um olfato muito apurado, como o dos cães, pode implicar, em contrapartida, um paladar menos seletivo, o que nos exporia à possibilidade de entoxicação alimentar com mais facilidade e impediria o desenvolvimento da arte culinária e gastronômica, por exemplo. Animais de olfato apuradíssimo não podem ter muita seletividade no paladar, porque senão sentiriam repugnância muito forte ao seu entorno. Não só os bons cheiros, mas os também péssimos, passam a ser sentidos com muito maior intensidade.

Com isso, pode se constatar que o equilíbrio entre os sentidos favorece, no ser humano, essa relação integrada e inteligente com o ambiente, própria de uma espécie com uma constituição integral superior, como é a espécie humana; a especialização de determinados sentidos, que torna algumas espécies mais capazes, em alguns aspectos, do que nós, vem com um preço que implica uma inferioridade em outros aspectos. O desenvolvimento integral do ser humano pressupõe, pois, justamente o tipo de constituição que nosso corpo possui.

4. Encerrando.

O assunto é interessantíssimo, mas o exame das próximas respostas ficaria muito longo aqui. Será feito, então, no próximo texto. Paz e bem!