1. Introdução.
Nunca faltou, na história, quem quisesse criticar Deus, ou negar sua participação nas coisas materiais e na história, pelo argumento de que “se Deus fosse perfeito, ele jamais criaria um mundo tão toscamente configurado como o nosso”. As críticas envolvem, também, a configuração do ser humano: como um ser tão frágil, tão desprovido de atributos naturais de defesa e ataque, tão vulnerável e pouco eficiente do ponto de vista dos instintos e das habilidades, pode ter ido tão longe a ponto de se tornar o ser mais influente, mais importante da Terra?
A teoria evolucionista tem uma tendência a justificar retroativamente aquilo que de fato existe. Se um animal tem um pescoço curto, é fácil explicar que ele teve vantagens evolutivas por conseguir ser mais furtivo, mais capaz de se esgueirar em lugares baixos e apertados. Se ele tem o pescoço longo, então foi beneficiado pela capacidade de alcançar alimento em lugares altos, e assim por diante. Também a configuração do corpo humano, que, do ponto de vista animal, é bastante desvantajosa, é explicada como um desafio que desenvolveu a inteligência, pela necessidade de desenvolver meios artificiais de compensar as vantagens naturais. Enfim, não se pode negar a consistência das explicações científicas evolutivas, quando bem fundamentadas em fatos provados, mas essa especulação retroativa que tende a justificar, por suposição, qualquer realidade hoje existente, como decorrente desta ou daquela vantagem, parece forçada. Toda teoria que explica um fato e também seu contrário não pode ser catalogada como científica. Falta, como diria o filósofo Karl Popper, falseabilidade, isto é, a possibilidade, em tese de ser desmentida por fatos que a contrariem.
No presente artigo, Tomás fará o debate sob outro enfoque: ele confia na perfeição de Deus, sabe que o ser humano foi muito bem concebido para ser justamente como é, e sabe que as críticas que se levantam contra os nossos limites corporais são, no fundo, má compreensão da própria realidade: são irracionais. Aqui, estamos diante de uma situação em que a Revelação cristã ultrapassa a razão (ao propor a doutrina da criação direta do corpo humano por Deus); mas isso não significa que a revelação despreze a razão, nem que a contrarie: ao contrário, interpelada pela revelação, a razão é capaz de ir mais longe e perceber a profundidade da maravilha que é o ser humano, inclusive em sua dimensão corporal, e como o corpo humano é perfeitamente adequado à natureza desse animal inteligente que somos.
Mas deixemos de digressões e vamos ao artigo.
2. A hipótese inicial controvertida.
A hipótese controvertida inicial, introduzida para provocar o debate, propõe que o corpo humano parece ser inadequado ao ser humano; aparentemente, diz essa hipótese, o corpo humano poderia ser mais conveniente, mais perfeito, mais completo do que atualmente é.
Existem três argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese, e um argumento contrário (sed contra), que dá razões para não aceitá-lo. Vamos a eles.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que, segundo a fé revelada na Bíblia, o ser humano é o mais nobre dos animais, e coroa a criação. Assim, seria de esperar que aquelas capacidades próprias dos animais (relativas à capacidade de interagir sensorialmente com o ambiente e mover-se através dele) deveriam ser, no ser humano, mais perfeitas do que são nos outros animais, que são inferiores a nós. No entanto, não é assim que as coisas ocorrem. Vemos que os corpos dos animais são muito mais capazes de movimentos e sensações que não conseguimos: aves voam, felinos correm muito mais do que nós, répteis escalam paredes, cães têm um olfato muito mais apurado, só para dar alguns exemplos. Assim, o corpo do ser humano não está à altura do que deveria ser, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Mas não é apenas na velocidade e na capacidade dos sentidos que os animais têm corpos muito mais poderosos que os nossos. Em termos de capacidade de defesa, somos desprovidos de garras e presas como os leões, ou de pelos densos e proteção térmica como os ursos, ou de carapaças como as das tartarugas. Assim, nosso corpo, que deveria ser o mais nobre de todo o reino animal, na verdade exibe um inadmissível grau de imperfeição, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Olhando a estrutura física dos animais, vemos que a maioria é quadrúpede, e mesmo os que não o são, arrastam-se no chão ou são encurvados em postura, como os símios; nenhum outro animal é capaz de se erguer de maneira reta sobre as pernas. Ora, as plantas, por outro lado, notadamente as árvores, são retilíneas, esguias, como os seres humanos. Ora, seria de se esperar que nossa postura se assemelhasse mais àquela dos animais, que estão mais próximos de nós, do que das plantas, que nos são mais distantes. Assim, não parece conveniente que nosso tronco se assemelhe mais ao dos vegetais do que ao dos animais, e portanto não podemos afirmar que o corpo humano é adequadamente formado, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento contrário proclama que a autoridade das Escrituras nos impede de acreditar e defender que o corpo do ser humano não seja adequado para aquilo para que foi criado. O argumento cita Eclesiastes 7, 29: “Somente descobri isto: Deus fez o homem reto, mas é ele quem procura os extravios.” Ora, se isto é assim, não é em sua compleição física, nos atributos corporais, dados por Deus, que devemos procurar defeitos no ser humano, mas em sua formação moral, que é responsabilidade sua, conclui este argumento.
5. Encerrando.
O corpo humano encerra as limitações e a perfectibilidade do ser humano; revela sua sujeição ao tempo, pelo envelhecimento, e à decadência, pelas doenças e pela morte. Mas todas estas coisas, embora decorram, como veremos adiante, da queda dos primeiros pais no pecado, não são más num sentido moral. São males físicos, sofrimentos, que podem ser inclusive poderosos auxiliares no caminho da santificação.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás para esse debate tão rico.
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