1. Retomando.
Explicar a geração humana nunca foi fácil. Ainda não é. Na verdade, mesmo a sofisticada teoria neodarwiniana, com seu apelo ao genoma e suas complicadas análises biológicas não podem explicar a progressiva organização da matéria que resulta na capacidade de abstração e reflexão que tem a mente humana: são capacidades inteiramente não-materiais, mas que se exercem, em nós, de modo integralmente material. De qualquer modo, mesmo explicando caminhos pelos quais uma espécie pode, eventualmente, engendrar outra, é difícil explicar como elas podem surgir de início. Há três degraus que a simples ordem natural não pode explicar: 1) a existência de algo em vez de nada. Para que haja algo que se explique em si mesmo, é preciso que o nada seja capaz de engendrar algo, o que transformaria o nada em Deus. 2) A existência de vida em vez de mera matéria. A vida ultrapassa a mera ordem da matéria, introduz uma realidade qualitativa e quantitativamente não explicável a partir dos elementos anteriores. 3) a existência da mente reflexiva e abstrata. Estes casos demonstram, como Tomás explica, o profundo dinamismo do envolvimento de Deus com sua criação, e como ele a vai enriquecendo progressivamente. Com os seres humanos, diz Tomás, ocorre um triplo envolvimento: a criação em corpo e alma do primeiro humano, a partir da matéria dada, como narrado em Gn 2, 7; a criação separada e pessoal de cada alma posterior, para formar cada indivíduo humano que existe ou existiu e, por fim, a graça que nos recria para a vida eterna da glória pela redenção.
Mas voltemos ao nosso assunto: o fato de que os corpos humanos são criados por geração, lembra Tomás, não pode nos esconder a verdade de que o próprio surgimento do ser humano como ente material, como animal inteligente, não pode ser explicado apenas por forças naturais (sejam forças angélicas, como se acreditava no tempo de Tomás, sejam forças impessoais, físicas ou biológicas, como defende a ciência de nossos dias). Essas forças podem explicar a geração, mas não explicam a primeira produção.
Vamos às respostas de Tomás quanto aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que Santo Agostinho já explicava o funcionamento do universo material como algo que Deus colocou a encargo dos anjos; isto significa que os antigos já tinham noção de que o funcionamento do universo não era ocasionalista, isto é, que as coisas têm, naturalmente, poder para se relacionar, para realmente causar efeitos, sem que Deus os cause diretamente. Assim, quando atiramos uma pedra para cima e ela volta, não é porque Deus empurre a pedra para baixo, mas porque as próprias leis da natureza a conduzem assim. Os antigos acreditavam que essa capacidade de interação regular na natureza era responsabilidade dos anjos, como nós, hoje, acreditamos que são forças naturais impessoais. O fato é que o argumento afirma que essas forças naturais (sejam angélicas, sejam impessoais) são capazes de produzir o ser humano, sem que Deus precisasse criar efetivamente o primeiro homem em sua corporeidade.
A resposta de Tomás.
Na realidade que nos cerca, vemos que, normalmente, as forças naturais conduzem o dinamismo ordinário do universo. Sejam elas forças impessoais, como cremos hoje, ou forças angélicas, como a ciência do tempo de Tomás defendia, elas são responsáveis pela regularidade com que as coisas se comportam. Há, porém, determinados fatos extraordinários, como os milagres de Jesus (inclusive a eventual ressurreição dos mortos) e aqueles realizados por intercessão dos santos, que demandam uma atuação direta de Deus, por seu maravilhoso poder de governo, para produzir resultados para os quais as forças naturais não seriam suficientes. É, portanto, uma atuação desse tipo que explica o surgimento daquele primeiro ser humano, com seu corpo maravilhosamente preparado para receber uma alma espiritual, e ser, assim, o único animal inteligente da Terra. Essa atuação divina não se dá, porém, de forma contrária às forças naturais ou aos anjos, mas com respeito a elas e contando com elas. A atuação criadora de Deus sobre a natureza não é uma violação, mas uma elevação, e assim se dará também no juízo fina, quando toda a natureza será resgatada da atual situação decaída e nós seremos ressuscitados em nossos corpos. Também ali a ordem da natureza será elevada, mas não violada. Ou, como Tomás mesmo coloca, caberá aos anjos reunir as cinzas do mundo velho para que a ressurreição final faça surgir o mundo novo.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor vai no mesmo caminho de reforçar a causalidade natural. De fato, aquilo que está no poder da causalidade natural não precisa ser atribuído a Deus. Ninguém atribui a Deus o fato de que a gravidade atraia os corpos, ou de que o sexo cause a reprodução. Ora, diz o argumento, sabemos que a geração de entes vivos, com seus respectivos corpos, é algo perfeitamente contido nos limites da causalidade natural; nos tempos de Tomás, acreditava-se inclusive na geração espontânea de seres vivos pela putrefação, como, em nossos tempos, acreditamos na geração de novas espécies pela evolução. Enfim, a geração do corpo humano é algo, portanto, perfeitamente explicável pelo jogo de forças naturais, e não precisamos pleitear um ato criador de Deus para o surgimento de um primeiro ser humano, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A geração de seres vivos sempre envolve a transmissão de algum tipo de semente biológica, que, unida às condições adequadas de nutrição e de ambiente, é capaz de gerar o surgimento de um novo ser semelhante aos genitores. Mesmo que se acredite (como se acreditava naquele tempo) que certos seres vivos muito imperfeitos (como larvas e pequenos insetos) pudessem ser espontaneamente gerados da matéria em putrefação, pela umidade e pelo calor do sol, ainda assim se sabia que os seres vivos mais complexos, como os mamíferos, somente poderiam ser gerados pelos meios biológicos adequados. No caso dos seres humanos, fica claro que a formação inicial de um corpo capaz de compor um animal inteligente, com toda a complexidade que se apresenta num ser humano, precisaria da intervenção de alguma força causal capaz de introduzir, na natureza, uma ordem que a supera, no sentido de que nada, na natureza dos seres materiais, está preparado para gerar um ser com capacidades espirituais. Assim, o surgimento do primeiro ser humano se dá por criação, pela atuação direta de Deus, portanto, diz Tomás.
O terceiro argumento objetor.
Todos os entes materiais existem porque a matéria tem a capacidade de transformar-se em alguma outra coisa. Assim, os corpos mortos apodrecem, viram adubo, as plantas se nutrem dessa matéria, viram alimento para os herbívoros, que viram alimento para os carnívoros, que morrem e viram adubo para as plantas, e assim por diante. O substrato comum a todos esses ciclos é simplesmente a matéria que, na presença dos fatores ambientais adequados (umidade, luz, calor) pode participar da geração e da corrupção de todos os entes. Logo, se o ser humano foi feito de barro, isto é, de matéria preexistente, isso significa que, para a sua formação, além da atuação de Deus, contribuíram também os fatores ambientais, a umidade, a luz, o calor, os entes preexistentes, e portanto não se trata de um caso de criação ex nihilo (criação a partir do nada) da parte de Deus, conclui o argumento.
A resposta de Tomás
É verdade que a matéria preexistente, os fatores ambientais e as condições de umidade, luz e calor participam dos processos de geração do ser humano, como devem ter propiciado as condições adequadas para que Deus criasse o primeiro ser humano do barro da Terra. Mas a própria existência do ser humano, como animal inteligente, com suas capacidades extraordinárias em comparação com toda a natureza que o cerca, é algo que decorre diretamente da criação divina, e portanto não pode ser explicado apenas por meio desses fatores.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor lembra daquela teoria de Santo Agostinho, muito interessante, de que Deus inseriu, no ato de criação, a previsão do surgimento de todas as coisas que existiriam ao longo de toda a história. São as rationes seminales, ou, como poderíamos traduzir, sementes das causas, colocadas na natureza de tal modo que, por exemplo, o primeiro mamífero já traria em si a razão de existirem todos os mamíferos posteriores, e assim por diante. Ora, aquelas coisas que surgem em decorrência das rationes seminales existentes na natureza não decorrem diretamente de um ato criador de Deus, mas são uma consequência posterior desse ato criador, que se expressa indiretamente pela geração dos novos seres. Assim, digamos, cada cãozinho que exite hoje estava como que virtualmente contido no primeiro de todos os cãezinhos que surgiu.
Ora, o ser humano foi formado depois de todas as coisas, e a partir de matéria preexistente (o barro), como se vê dos relatos bíblicos. Logo, suas rationes seminales já estavam colocadas na natureza desde o primeiro momento da criação. Daí o argumento aduz que o surgimento do ser humano não se dá exatamente por criação, mas pelo desdobramento dessas sementes de causas naturais que a criação já continha. Logo, o corpo humano surge apenas da interação das forças naturais, e não de um ato criador direto de Deus, conclui.
A resposta de Tomás.
Existem dois sentidos para a ideia de sementes de causas que Agostinho ensina, ou rationes seminales. O primeiro sentido é aquele pelo qual Deus já inseriu, na criação, os poderes necessários para gerar todos os efeitos que ele pretendeu ao criar o mundo. Assim, os animais adultos, por exemplo, já possuem toda a capacidade reprodutora que é necessária para que surjam os filhotes. Assim, diz Tomás, a capacidade de reprodução é uma capacidade, a um só tempo, ativa e passiva. Ativa no sentido de que é capaz de produzir os efeitos esperados. Passiva no sentido de que é capaz de receber as forças que produzem os efeitos esperados: assim, o aparelho reprodutor possui a capacidade de receber e nutrir o pequeno embrião até o nascimento.
Assim, o barro, ou seja, aquela matéria que Deus usou para moldar o primeiro ser humano em corpo e alma, possuía as rationes seminales dos seres humanos, mas apenas passivamente. Isto é, possuía em si a capacidade passiva de receber a ação criadora de Deus, mas não a capacidade ativa de gerar naturalmente corpos humanos.
3. Conclusões.
Somos criaturas. Somos filhos. Somos frutos da ação de Deus. Somos parte da criação e parte da natureza. Eis uma lição de Tomás que ultrapassa os tempos e os condicionamentos dos limites científicos, e é válida em seu tempo e no nosso.
Deixe um comentário