1. Voltando ao assunto.

É preciso sempre compreender bem a insistência de Tomás em debater, quando trata da criação, a intervenção dos “anjos” na obra de Deus. Essa era a forma que a ciência do tempo dele usava para descrever as forças naturais que condicionam o universo, ou seja, era o modo de explicar as coisas do universo a partir de um enfoque que, hoje em dia, chamaríamos de “naturalista”.

De fato, os antigos, tanto como nós, conheciam e estavam sujeitos às mesmas forças da natureza que nós estamos: gravidade, movimento dos planetas, forças eletromagnéticas, forças biológicas, forças psicológicas e assim por diante. Mas, em vez de usar a categoria impessoal das “leis” científicas para explicá-las, eles usavam a categoria dos anjos, ou seja, de forças pessoais, inteligentes e leais a Deus, mas que agiam com consciência do fim e em razão dele. De certo modo, se falamos hoje, por exemplo, em seleção natural e evolução dos seres vivos, no tempo de Tomás os naturalistas falariam da condução da geração das espécies por anjos e não diretamente por Deus.

Nem vamos discutir as consequências de explicar o universo a partir de uma visão personalista, como a deles, por um lado, ou mecanicista, como a nossa, por outro. O que interessa, aqui, é que os naturalistas de ontem ressaltavam uma tese bem análoga à dos naturalistas de hoje: se, hoje, falamos da evolução como explicação natural e completa para o surgimento de todas as espécies, inclusive a humana, os antigos falavam da intervenção ativa do anjos, que seriam incumbidos das modificações e variações naturais que vemos no mundo. Evolução por seleção natural ou condução da variação por anjos, o que importa é a tentativa de explicar a condução do mundo por forças que são naturais e, de certo modo, relativamente independentes, quanto à atuação direta de Deus; da parte de Tomás, trata-se, por outro lado, de constatar um degrau, um salto qualitativo própria da espécie humana, que não pode ser explicado senão por uma intervenção pessoal e direta de Deus, quer frente aos anjos (para as teorias antigas) quer frente aos evolucionismos contemporâneos.

O debate aqui, portanto, é quanto à inexplicável espiritualidade humana, e pela existência de um corpo proporcionado a esse modo animal e espiritual de existir, sem paralelo na história natural anterior. O dado revelado parece indicar que uma intervenção direta de Deus foi necessária e programada por ele mesmo. Mas estamos nos adiantando mais uma vez. Vamos ouvir Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás não hesita em afirmar, logo de saída, que a primeira formação do corpo humano não pode decorrer de nenhuma força natural, criada, intrínseca à própria constituição do universo, mas precisa ter sido criada diretamente por Deus. Ele não ignora que muita gente, já no tempo dele, defendia que o ser humano, em sua estrutura corporal, resultou de processos naturais sobre a criação que, paulatinamente, deram origem material ao indivíduo humano; naquela época, imaginava-se um processo dirigido por anjos. Hoje, propõe-se um processo natural resultante de forças impessoais de seleção natural e evolução que, progressivamente, levassem ao surgimento da espécie humana.

Tomás não tem preconceitos contra explicações naturais, quer sejam relacionadas aos anjos, quer sejam relacionadas a leis impessoais da natureza. Ele admite a existência das duas coisas, e respeita enormemente a ciência de seu tempo – como, poderíamos afirmar, respeitaria a ciência do nosso tempo também. Mas ele enxerga motivos empíricos muito sérios, aliados a princípios filosóficos e teológicos muito consistente, para propor que forças naturais, ou mesmo forças angelicais, não seriam suficientes para explicar a formação de um ente espetacular como é o ser humano, mesmo apenas em sua dimensão corporal, que é o que nos interessa agora.

Vendo o mundo com o instrumental de Aristóteles.

Como sabemos, Platão ensinava que existe um “mundo das ideias” separado do nosso, no qual as coisas existem como formas universais e perfeitas, de modo mais real do que aquele pelo qual elas existem materialmente aqui. A existência individual, concreta e material, para Platão, é uma cópia imperfeita da existência universal das formas no mundo ideal transcendente.

Mas Aristóteles, neste ponto, tem uma visão bem diferente da visão platônica. Para Aristóteles, as coisas existem no mundo como um composto unitário de matéria e forma, e este é o modo ordinário pelo qual as formas têm a existência real. Mas elas existem separadamente também nas mentes; ali, elas têm uma existência universal, abstrata, mas apenas intencional ou de razão, quer dizer, uma existência referida às coisas concretas, materiais, efetivamente reais.

Assim, ninguém gera ideias, mas sempre coisas. Ideias nunca são geradas, elas existem sempre como abstração das coisas. Aqui, pedimos licença a Tomás para lembrar do conceito de geração, que é diferente dos conceitos de ação (praxis) e de produção (poiesis). A geração implica sempre dar origem a algo semelhante a si mesmo.

Ora, ideias não são geradas. Somente coisas materiais são geradas, e sempre como compostos de forma e matéria. Assim, seres imateriais como os anjos jamais podem gerar um corpo humano real. Apenas um ser humano vivo, em sua concretude individual de matéria e forma, pode gerar outro ser humano.

Por outro lado, apenas Deus pode introduzir do nada algo novo na Criação. Sabemos que, por uma lei da física, nada nem ninguém pode produzir um efeito que ultrapasse as capacidades da causa, a não ser somente Deus.

Ora, quando não havia seres humanos, não havia nenhum ente capacitado a gerar algum ser humano; logo, foi necessário que Deus interviesse diretamente para criar o primeiro ser humano.

Tomás e o evolucionismo biológico.

A resposta de Tomás vai até aí, porque ele não teve que lidar, em seu tempo, com correntes cientificistas e evolucionistas que propõem, pretensamente com rigor científico, a hipótese de que o ser humano é simples produto da evolução da matéria pelo acaso e pela seleção natural.

Mas a teoria da evolução esbarra, aqui, numa grande lacuna: a alma espiritual deve encontrar um corpo material adequado ao seu modo de ser, e não há transição, no mundo natural, entre os seres biologicamente vivos, por um lado, e os seres biológica e espiritualmente vivos, do outro. A espiritualidade não pode ser explicada por uma simples rearrumação da matéria, feita ao acaso e selecionada por aptidão à sobrevivência, como querem os evolucionistas. Ainda que se admita que o “barro” usado por Deus foi uma espécie preexistente que veio a exibir as condições adequadas para receber uma alma espiritual, essa transição (da alma simplesmente biológica para a espiritual, por um lado, e do corpo simplesmente sensível para um corpo animado espiritualmente, por outro), demandam um degrau que somente Deus pode transpor. Não se trata, aqui, de fazer Deus preencher uma suposta lacuna quando não se sabe ainda as razões científicas para um determinado fato natural; trata-se de perceber que, no plano de Deus, sempre houve o espaço para que ele próprio viesse se envolver com o surgimento de nossa espécie. Não um Deus da lacuna, mas um Deus do amor direto por seus filhos diletos que somos nós. Deus de fato criou os animais, como criou tudo mais, mas nada impediria que uns animais viessem a engendrar outros por mutação. Mas a introdução da espiritualidade no mundo animal foi reservada, como se pode ver do raciocínio de Tomás, a Ele próprio. Eis uma “mutação” que não pode ter ocorrido por acaso, nem pode ter sido gerada pela matéria, simplesmente porque se caracteriza justamente por ultrapassá-la.

Qual é esse “barro”?

Por isso, é perfeitamente conveniente defender que o primeiro corpo humano foi, de fato, criado por Deus a partir do barro, embora não saibamos exatamente que “barro” seria este; pode ter sido o “barro” de um animal que, mediante essa intervenção criadora, veio a apresentar as condições adequadas para receber uma alma espiritual e virar humano. É disso que se trata: a espiritualidade da alma se exerce, como já vimos, sem precisar de nenhum órgão corporal; mas é preciso que exista um corpo adequado ao recebimento dessa alma espiritual, e isso nenhum jogo de mutação aleatória e seleção natural pode explicar. E, aqui, é preciso ter todo o cuidado para não “amarrar” a verdade da relação criadora entre Deus e o ser humano com alguma teoria científica da moda: teorias científicas são sempre provisórias, mas a verdade da criação não o é.

3. Encerrando.

As intuições de Tomás são sempre espetaculares. O impressionante é ver que uma grande parte dos pensadores posteriores a ele simplesmente o desprezaram porque ele parecia superado como a ciência do seu tempo, que ele conheceu e respeitou, estava superada. Nada mais equivocado: as intuições de Tomás são perfeitamente válidas, justamente porque sabem encontrar caminhos para a

verdade, mesmo em meio às limitações científicas, de seu tempo e do nosso.

No próximo texto veremos as respostas aos argumentos objetores iniciais.