1. Introdução.

Mais uma vez, vamos lidar com problemas e soluções que envolvem o estado em que a ciência se encontrava no tempo de Santo Tomás, mas o modo com que ele enfrenta os elementos do problema continua sendo magistral, continua sendo um guia para nós.

De fato, o que está em jogo, aqui, é a criaturalidade humana. Será que o corpo humano é um fruto do acaso, será que somos produto de uma “seleção natural” cega, que resultou naquilo que somos (também corporalmente?)

Na questão 90, que discutimos atrás, vimos que a alma humana não pode ser fruto de forças naturais cegas, porque ela é intelectual, isto é, capaz de operar espiritualmente, de modo que ultrapassa a matéria, para atingir a capacidade de reflexão e de universalização que está acima do concreto e do condicionado que é material. Agora o debate se volta sobre o corpo.

Somos, como animais, frutos do acaso que, cegamente, selecionou determinados caracteres em nós apenas porque são mais adequados à sobrevivência? Como explicar a conveniência perfeita entre um corpo animal e uma alma espiritual, sem debater a participação de Deus no governo das forças que nos conduziram à humanidade? É o que faremos aqui.

Há, desde logo, dois dados da ciência do tempo de Tomás que precisamos levar em conta, aqui: o primeiro é a ideia de que não é Deus que governa diretamente o universo, mas as próprias forças naturais, que são verdadeiras causas das modificações ocorridas por aqui naturalmente. Deus dá poder a essas forças porque Ele é o motor imóvel, mas a capacidade de causar é das próprias forças. Hoje, chamamos essas forças, por exemplo, de gravidade, ou de seleção natural, de eletromagnetismo; no tempo de Tomás, esses efeitos eram atribuídos aos anjos, que estavam encarregados de manter a ordem e dar dinamismo ao universo. A diferença, portanto, mais forte, consiste em que, para eles, o dinamismo seria resultado de forças pessoais, capazes de entender e obedecer livremente, enquanto, para nós essas forças são impessoais, verdadeiras leis naturais que dinamizam o universo sem qualquer espaço para liberdade pessoal. Na nossa mentalidade do século XXI, se a gravidade e o eletromagnetismo resultassem de forças com liberdade, elas seriam marcadas pela irregularidade, pelo caos, pelo individualismo de sua condução; o fato de serem uniformes e regulares, para nós, prova sua impessoalidade. Mas, para a ciência do tempo de Tomás, a liberdade consistia exatamente na regularidade, na ordem, na capacidade de acertar com o bem de modo fácil, constante e perpétuo, de tal modo que a regularidade e a uniformidade dessas forças provaria a liberdade delas, sua pessoalidade, e não o contrário.

Também o jogo de forças, na idade média, era visto como perfeitamente integrado: o universo seria composto por esferas que estariam interligadas, de tal modo que o espaço sideral e a Terra não seriam desligados entre si, mas, na verdade, funcionariam juntos, numa influência hierárquica que seria real e forte, quase como astrológica. Também aqui Tomás se esforça para negar que sejamos fruto de forças cegas, e não de uma concepção deliberada e direta de Deus.

Por fim, temos que registrar que havia uma ideia, com forte raiz na Tradição, de que a criação de Deus sempre resulta no surgimento, a partir do nada, de uma criatura completa, perfeita, atual, sem defeitos, neste nosso mundo mesmo. Não seria concebível que Deus criasse um bebê que viesse a crescer, ou mesmo um hominídio que progressivamente fosse se tornando “matéria” adequada para receber a humanidade em si. Não temos mais essa concepção da criação: hoje, pensamos mais em termos de progressividade. Mas é necessário reafirmar, aqui, que há uma diferença entre “defeitos” e “limites”: a obra de Deus não tem defeitos, e neste sentido os antigos estavam certos. Mas ela, a criação, e cada criatura, têm limites, e isso não depõe contra Deus. Ao contrário, ao usar da progressividade, da causalidade segunda, Deus realiza aquilo que o Livro dos Provérbios coloca tão bem (25, 2): “A glória de Deus é ocultar uma coisa; a glória dos reis é esquadrinhá-la”. A sabedoria divina permite que Deus costure o universo e “esconda o avesso”, de tal forma que uma abordagem puramente científica não vai levar diretamente a ele, mas ao jogo natural de forças que ele criou, mas que, de certa moda, o escondem.

Mas estamos indo longe na digressão: De fato, interessa-nos agora perceber que o problema, quanto ao debate aqui, consiste em saber se o corpo humano é resultado apenas do jogo de forças naturais (como os anjos, na idade média, ou a seleção natural e o acaso, hoje), ou se há, em nós, uma intencionalidade criativa direta de Deus. Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial é que o corpo humano não é criatural, isto é, ele é resultado de forças naturais, como os anjos ou o movimento cósmico (a seleção natural, as forças físicas, o acaso, diríamos hoje), e não de uma realização intencional direta da inteligência e do poder divinos. Ou seja, propõe-se que o corpo humano não é resultado da criação direta por Deus, diz esta hipótese. Há quatro argumentos que tentam prová-la, seguidos de um argumento contrário a ela. Vamos examiná-los.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que, no Livro III da obra sobre a Trindade, diz que Deus dispõe dos entes corpóreos por meio dos anjos. Hoje, diríamos, o universo funciona movido pelas suas forças fundamentais, não pela intervenção direta de Deus em cada evento que ocorre pelo dinamismo das forças naturais, como a gravidade, o eletromagnetismo ou mesmo a seleção natural. Mas o corpo humano é um ente material, lembra o argumento. Assim, ele também é resultado da atuação dos anjos (forças naturais), e não da criação direta e imediata por Deus, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor também quer ressaltar a chamada “causalidade segunda”, ou causalidade criada, que é real e eficiente em nosso universo. De fato, diz o argumento, se as causas naturais são suficientes para explicar a ocorrência de determinado ente ou fenômeno, não precisamos apelar para explicação sobrenatural ou para a intervenção criadora direta de Deus.

Antes de prosseguir, uma pequena lembrança: a ciência do século XIII, que Tomás conheceu, defendia a existência de geração espontânea de seres vivos; era a maneira que eles encontravam, uma vez que desconheciam o mundo microscópico, para explicar o surgimento, por exemplo, de vermes e larvas no lixo em putrefação. Esses seres, segundo a ciência de então, surgiriam da própria corrupção da matéria orgânica, combinada com o calor ou a influência do sol ou outros astros; outros cientistas, nesta época, acreditavam que havia influência direta dos astros ou do clima na formação dos animais e na própria reprodução humana, tão importantes quanto o próprio gameta. Aliás, a ciência ensina, nesta época, que existe apenas o gameta masculino, responsável pela concepção, e a mulher é um receptor passivo dessa geração exclusivamente masculina.

Ora, diz o argumento, se a concepção é algo assim tão dependente de gametas, astros, climas e mesmo eventualmente da putrefação da matéria, então ela é um fenômeno estritamente natural, explicável por causas segundas apenas; e não se necessita propor que o ser humano surge como criação direta das mãos de Deus, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor lembra que a matéria é o fundamento do qual todos os seres materiais são formados. Ora, se é assim, a matéria só pode gerar novos seres quando ela passa por um processo de transformação, deixando de ser alguma coisa e se tornando alguma outra coisa: é fácil perceber isto no cotidiano.

Ora, toda transformação envolve o universo inteiro, porque tudo está interligado: é fácil perceber, por exemplo, que a semente precisa de água, luz e solo para desenvolver-se, bem como do calor do sol. De fato, a filosofia clássica chegava a defender que é o poder dos astros que faz mover a via terrestre, observando, por exemplo, a influência das estações no ciclo de reprodução de animais e vegetais.

Portanto, a produção do corpo humano deve envolver também os astros, a terra e todas as forças materiais, ou, como diríamos hoje, as condições ambientais, e portanto não pode ser descrita simplesmente como um “gesto criador de Deus” que o tira do nada, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor traz de volta a doutrina das razões seminais ou razões causais de Santo Agostinho. De fato, segundo este santo, na sua obra sobre o Gênesis, Deus inseriu, desde o começo, a razão de todas as coisas que viriam e virão à existência até o final dos tempos; de tal modo que, digamos, um peixinho que nasce nos dias de hoje já estava, de certo modo, criado virtualmente desde o primeiro dia da criação, embora o jogo de causas naturais tenha feito com que ele só tenha vindo a existir hoje.

Ora, o ser humano já estava, portanto, virtualmente criado desde o primeiro momento da Criação, vale dizer, as causas virtuais de sua existência já estavam colocadas por Deus desde o primeiro momento. Se é assim, Deus não precisou intervir mais tarde para fazer surgir, por criação, o primeiro corpo humano, porque tudo aquilo que já está colocado como razão seminal surge, depois, por geração, de acordo com as próprias forças da natureza. O peixinho que existe hoje em dia, por exemplo, estava criado em suas razões seminais desde o primeiro momento da criação, mas foi gerado apenas hoje, tantos milênios depois, pela reprodução biológica dos genitores e pelas condições ambientais favoráveis. É como se Deus já tivesse inscrito, desde o primeiro momento, todo o caminho que a evolução natural seguiria nos tempos posteriores.

Do mesmo modo, o surgimento físico do primeiro corpo humano decorre dessas condições naturais, ou seja, a produção pelas forças biológicas e ambientais, (por exemplo, mediante evolução plenamente explicável cientificamente), e não diretamente por uma intervenção criadora de Deus, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra é sempre responsável por trazer alguma autoridade, algum argumento forte, que impede de aceitar a hipótese controvertida inicial. De fato, a razão aduzida, aqui, é simplesmente o dado revelado, que é de uma clareza inegável, em Gn 2, 7, e é confirmado no Livro do Eclesiástico (Sirácida), 17, 1: “Deus criou o homem da terra”.

5. Encerrando.

Veremos, no entanto, na resposta sintetizadora de Tomás, que essa solução simplista, de leitura literal do dado bíblico, nunca é adotada por Tomás; ele sempre respeita do dado revelado, mas sob uma interpretação razoável, que não despreza o dado natural, nem tenta forçar a realidade para dentro da leitura bíblica literal, simplesmente porque Tomás sabe que a realidade criada também é, de certo modo, revelação divina, e como tal deve ser respeitada e harmonizada com a leitura bíblica. Mas estamos nos adiantando. Faremos esse debate no próximo texto.