1. De volta para encerrar.
A unidade ontológica do ser humano é um princípio que precisa ser defendido a cada momento. O ser humano não é um “amontoado” de duas coisas; ele não é a união acidental de uma alma que é um ente completo em si mesmo, por um lado, e um corpo material que é como que um “veículo” ou “receptáculo” para a alma, por outro. Nós não somos anjos que pilotam um boneco de carne. Somos animais que têm uma estrutura capaz de operações espirituais. O corpo é um elemento da nossa unidade, como a alma também o é, e a nossa identidade é incompleta sem um dos dois elementos. A morte não é a restituição da liberdade a uma alma presa num corpo, que fosse completa em si mesma sem o corpo. A morte é a fragmentação de um ser humano, que tem a característica de sobreviver apenas como uma estrutura vazia, espiritual e com identidade, mas incompleta como ente. Somente a ressurreição final vai nos devolver a unidade de corpo e alma, concedendo-nos de novo um corpo para que possamos gozar as glórias de Deus, se estivermos com ele, ou sofrer sua ausência, se optamos por desprezá-lo.
Vamos acompanhar, agora, o esforço de Tomás para proclamar essa verdade, a verdade na nossa composição nesse ente unitário de corpo e alma que somos nós.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra daquela velha leitura do primeiro relato da criação (Gn 1,1 a 2,4) que divide as obras, ali, em obras de criação (nas quais Deus tira tudo do nada), obras de distinção (nas quais ele separa as coisas umas das outras) e obras de ornato (nas quais ele preenche o universo com sua vida e dinamismo). O argumento prossegue, dizendo que a alma é produzida por Deus como criação, mas o corpo pode ser classificado como ornato, como expressão de vida e dinamismo da alma. Assim, a alma teria sido criada no início da atividade divina, no momento propriamente da criação, e o corpo teria sido produzido somente depois, no momento da ornamentação do universo, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Se a própria alma humana já fosse, por si mesma, um ente, uma natureza completa, à qual o corpo fosse acrescentado depois como um complemento, o raciocínio do argumento seria válido. Mas não é assim; a alma não é um ente, uma substância independente, mas apenas o elemento estrutural, imaterial, do ser humano, que se completa, com o corpo, para formar esse ente que é o indivíduo humano, animal racional. Está, portanto, para o corpo, como a forma para a matéria em qualquer outro ente material. Por isso, não faz sentido propor que a alma não surja junto com o próprio corpo que ela estrutura e dá atualidade.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor assume exatamente aquela posição de que nossa alma, na verdade, é algo similar aos anjos: um ser em si mesmo, completo, subsistente, espiritual, que pode se juntar a um corpo eventualmente, mas que isso não é de sua essência. Assim, nossa alma teria sido criada por Deus junto com a criação dos anjos, antes mesmo da criação do mundo material que é relatada no Livro do Gênesis. Mais tarde, o corpo do primeiro homem foi criado, junto com os outros animais, e, a partir daí, os corpos humanos foram sendo gerados por reprodução, para receber as almas preexistentes. Logo, a alma foi criada antes do corpo, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás nos remete à resposta da primeira objeção: o ser humano é um animal, isto é, um ser essencialmente de matéria e forma; quer dizer, a alma existe para o corpo e o corpo para a alma, como dois elementos que se reúnem numa única substância, o ser humano. Portanto, se a alma fosse um ser subsistente em si mesmo, com uma relação acidental e temporária com um corpo, ela seria, de fato, mais um anjo do que uma espécie de animal. Mas não é assim: somos animais, e portanto nossa alma não é um tipo de anjo, mas um tipo de forma para um corpo biológico, conclui Tomás. Por isso, nossa substância, matéria e forma, é concebida de uma só vez, com o corpo recebendo a existência por geração e a alma por criação, na concepção humana.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que existe um velho princípio filosófico que afirma que o fim de alguma coisa sempre guarda relação com seu princípio. Ora, aquilo que inicia na matéria, finda na matéria, por destruição. Mas aquilo que não é material é indestrutível, e portanto não finda com a destruição da matéria. Ora, se não finda com a matéria, diz o argumento, é porque não inicia com ela. Logo, pelo princípio filosófico citado, do paralelismo entre o início e o fim, devemos afirmar que, se a alma sobrevive ao corpo após a morte, ela também deve anteceder ao corpo, na criação, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A alma, de fato, sobrevive à morte, e o corpo não sobrevive. Ora, a morte é justamente a separação dos elementos que compõem algum ser. Portanto, se a alma preexistisse o corpo, a morte não seria real, mas apenas acidental; seria, para a alma, recobrar a existência simples que ela teria antes de ficar atrelada a um corpo. Mas não é isso: a morte é, de fato, a corrupção final, a destruição efetiva de uma substância individual que é o ser humano, e a sobrevivência da alma é a sobrevivência precária de apenas um dos elementos que, no ser humano, constitui o todo que morreu. É uma existência, portanto, capenga, deficiente, que faz sentido apenas como estado transitório até o juízo final; não faz sentido que Deus tivesse criado a alma como um elemento solto, incompleto, capenga, deficitário, destinado a se tornar completo apenas num momento posterior, quando se encontrasse com o respectivo corpo. Seria imaginar que Deus pudesse fazer uma obra malfeita, incompleta, deficiente, sair de suas mãos imaculadas e perfeitas, o que seria contraditório com a perfeição de Deus. Tudo o que Deus criou diretamente, mesmo que marcado pelo limite criatural, sempre se caracteriza pela atualidade, pela perfeição, pela inteireza no ser. Logo, a alma não pode ter sido criada antes do respectivo corpo, conclui Tomás.
3. Concluindo.
Encerramos, assim, esta bela questão que trata da participação direta de Deus na concepção de cada ser humano, pela criação da sua alma no momento mesmo em que seu corpo surge, fruto da concepção.
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