1. Retomando.

Trata-se, aqui, de defender veementemente a unidade ontológica e existencial do ser humano. Não há dúvidas sobre a capacidade da alma de sobreviver a essa ruptura que é a morte, e que não é apenas a morte do corpo, mas a morte de um ser humano. A sobrevivência da alma não é a sobrevivência de uma pessoa, já que, como Tomás já nos explicou quando tratou da noção de pessoa, a alma sobrevivente não é uma pessoa, mas uma permanência, uma identidade que se marca pela abertura à relação, e que se caracteriza pela incompletude, à espera da ressurreição final, ainda que desde já possa ter alcançado a glória da visão beatífica. O fato é que a capacidade de sobrevivência da alma não pode nos levar a tratá-la como uma coisa, como um ente por direito próprio, para a qual a união com o corpo seria acidental e passageira. Não é isso.

Assim, vamos estudar, agora, a resposta sintetizadora de Tomás à hipótese de que a alma é criada por Deus de modo independente com relação ao corpo, e de modo prévio à geração do corpo, de modo tal que a reprodução humana é apenas uma condição para a encarnação de uma alma preexistente, e não o início da existência do ser humano como um todo. Vamos à resposta de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Os ensinamentos equivocados de Orígenes.

Tomás vai resgatar, logo no início de sua resposta, aquilo que Orígenes ensinava, ainda no século II ou III depois de Cristo, por forte influência neoplatônica. De fato, esse velho escritor cristão ensinava que todas as criaturas espirituais foram criadas juntas, no início da criação, e que entre os seres humanos e os anjos existe apenas uma diferença de mérito, mas há uma igualdade de essência. Assim, os anjos e demônios seriam as próprias almas dos seres humanos quando separadas dos corpos ou quando ainda não encarnadas neles. E nós, humanos que caminham sobre a terra em corpos, somos acidentalmente unidos aos corpos em certo estágio de nossa existência. Tomás não quer mais debater o erro dessa afirmação: já o fez quando debateu os anjos, já o fez também quando tratou das almas humanas. Em suma, a opinião de Orígenes a este respeito estava errada. Anjos são anjos, seres humanos são seres humanos, e ponto final.

Santo Agostinho também se equivocou…

A esse respeito, Santo Agostinho ensina no seu comentário ao livro do Gênesis, ensina que, na obra dos seis dias, Deus já inseriu na Criação a razão de todas as coisas que existiam ou viessem a existir. Assim, por exemplo, na existência da primeira bactéria já estava inscrita por Deus a capacidade de vir a dar origem a todos os seres vivos que vieram a existir depois dela, por reprodução ou evolução. Assim, cada coisa que Deus criou nos Seis Dias já trazia, segundo Agostinho, a capacidade de gerar todas as outras coisas que vieram a existir nos tempos futuros, naquilo que Agostinho chamava de “rationes seminales”. Essa teoria é muito interessante, inclusive pela importância que ela tem na compreensão cristã da Teoria da Evolução. Mas traz uma consequência grave com relação à questão do ser humano: uma vez que o ser humano tem uma origem, digamos, dúplice (a concepção sexual com a intervenção criadora direta de Deus quanto à dimensão espiritual), fica difícil explicar a simultaneidade dessas duas operações, na concepção humana. A teoria das rationes seminales somente explica aquelas coisas que surgem por geração natural, não incluindo as coisas espirituais, que não são geradas de algo preexistente, mas sempre por criação a partir do nada.

De fato, se os entes espirituais foram criados antes da obra de criação do universo material, restaria defender que as almas humanas teriam sido criadas simultaneamente com os anjos, no início da obra da criação, e somente depois veio a governar um corpo, que surge pela geração sexual; essa união entre a alma preexistente e o corpo gerado seria a concepção humana, na visão de Agostinho. Aqui, ele revela, de certo modo, sua influência platônica, quando admite a preexistência da alma ao corpo. É bom registrar que Agostinho sempre teve o cuidado de esclarecer que a posição que ele defende é apenas opinião sua, e que não há base nas Escrituras ou na Tradição para confirmar cabalmente a ideia de que a alma, criada no início com os anjos, se junte com o corpo, gerado depois como resultado das rationes seminales, de tal modo que essa opinião pode ser mantida, desde que não venha a ser aduzida outra razão, racional ou revelada, que demonstre que ela é equivocada. Agostinho demonstra, assim, sua humildade intelectual. Mesmo porque, como mostrará Santo Tomás, existem, de fato, fortes razões para acreditar que esta posição está equivocada, quanto à preexistência da alma.

O ensinamento de Tomás.

De fato, diz Tomás, para admitir que a alma pudesse preexistir ao corpo, seria preciso acreditar que o ser humano fosse uma substância puramente espiritual, completo na sua espiritualidade, e não um ente com forma e matéria. A alma já teria, em sua espiritualidade inicial, uma natureza completa, e a união com o corpo seria acidental e temporária; ela estaria no corpo não como um elemento que compõe um ser unitário em corpo e alma, mas como um ente completo espiritual que governa uma máquina corporal externa à sua própria completude existencial. Algo como um “piloto numa nave”, um motorista num automóvel. A alma deixaria de ser a própria estrutura do corpo, sua forma, para ser um comandante, um governante externo que o conduz externamente, sem formar com ele uma unidade ontológica verdadeira.

Ora, Deus criador é perfeito, e não faz remendos nem improvisos. Ele não teria, pois, razão para criar a alma humana como um ser já íntegro em sua perfeição ontológica e depois vir a “prendê-lo” num corpo externo a ele. Cada ser humano é perfeito, é substancial e íntegro em sua unidade ontológica, que não é uma simples “unidade existencial” entre corpo e alma. O ser humano não é, pois, uma alma que eventualmente ocupa corpos, mas um ser essencialmente de corpo e alma, e essa é a sua identidade, a sua completude, a sua perfeição. Então, se alguém propusesse que Deus criou a alma antes do corpo, estaria, na verdade, propondo que Deus criou um elemento incompleto e parcial de um ser que somente viria a existir, em sua completude, muito depois, quando o corpo fosse concebido pelos respectivos pais. Essa hesitação, essa criação da incompletude, seria incompatível com a ideia de um criador perfeito como Deus.

Assim, a alma pessoal é criada no instante mesmo da concepção, quando já inicia a existência de um novo ser humano. E isso dá um sentido maravilhoso ao matrimônio e ao ato sexual. Explica a maravilha da ressurreição da carne e determina que o amor infinito de Deus pela sua criatura garante a plenitude da sua identidade pela eternidade, em sua inteireza de corpo e alma. É o amor de Deus por nós, permanente e imutável, que garante a nossa própria identidade eterna, mesmo quando a morte nos deixa incompletos, até que o juízo final venha a nos devolver a nossa dimensão corpórea, já como corpo glorioso (para os que se salvarem) ou corpo tenebroso para os que escolherem passar a eternidade longe de Deus.

A espécie preexiste, o indivíduo não.

Como conciliar, então, essa certeza da firmeza do amor de Deus pelo ser humano completo, integral, de corpo e alma, com a posição de Agostinho, de que as realidades espirituais são criadas antes mesmo das materiais? Tomás diz que essa posição só faz sentido se imaginarmos que Deus concebe os seres humanos como espécie, como ideia ou forma universal, antes mesmo de iniciar a criação material; neste caso, a criação da ideia ou espécie humana se dá no princípio, mas não a criação de cada alma individual, concreta, de cada pessoa humana, o que se daria somente na concepção. E muitos Santos Padres e doutores da Igreja ensinaram assim, de fato. E faz muito sentido com a noção de dignidade comum da humanidade, por um lado, e com a noção de dignidade pessoal desde a concepção, por outro.

3. Encerrando.

As implicações desses ensinamentos de Tomás sobre o modo certo de conceber o ser humano são imensas. De fato, ver o ser humano assim leva nova luz a realidades inaceitáveis como o aborto ou a eutanásia, incompatíveis com a dignidade pessoal dessa criatura maravilhosa da qual Deus participa concretamente da criação. Também fica clara a falta de razão da ideia de reencarnação: ela é incompatível com a noção de inteireza ontológica do ser humano em corpo e alma, e principalmente com a ideia de identidade eterna do ser humano integral: é o amor de Deus, presente eternamente em nós, que garante a identidade indelével do ser humano, mesmo face aos diferentes momentos existenciais que experimentamos. Deus nos ama integralmente, imutavelmente, em nosso corpo e alma, desde o primeiro momento de nossa concepção até a eternidade. E isso nos revela a gravidade da morte e a beleza da fé na ressurreição dos corpos.