1. Introdução.
Muitas culturas e religiões creem que o ser humano, tal como o conhecemos no cotidiano – e portanto nós mesmos – não é uma unidade ontológica, isto é, o ser humano não é um ente com matéria e forma, mas essencialmente uma inteligência imaterial personificada que eventualmente, para castigo ou evolução, habita um corpo material descartável e substituível, e que, portanto, em nada compõe a identidade substancial do ser humano. Às vezes eu tenho a impressão de que, para essas linhas de pensamento, é mais fácil acreditar em anjos do que em gente. Porque, no fundo, não haveria distinção entre os anjos e os humanos; anjos seriam apenas as próprias almas humanas existindo na pureza da sua essência, isto é, imaterialmente. A alma humana não seria, para eles, um elemento incompleto de um ser essencialmente material, mas uma substância que se relaciona acidentalmente com a matéria.
Assim, a criação da alma seria independente da geração do corpo. A alma preexistiria ao corpo, ocuparia eventualmente o corpo e sobreviveria a ele, sempre com a mesma identidade substancial. A morte seria apenas uma ocorrência ocasional, que devolveria à alma seu estado original. Nossa condição de seres de corpo e alma não seria a verdadeira condição humana.
Isto, além de irracional, não faz parte da fé católica. O ser humano é um ente essencialmente material, tanto quanto é essencialmente espiritual, e a morte é, de fato, uma perda, que nos fere e nos deixa incompleto. Tanto é assim que a ressurreição final será a ressurreição dos corpos, quando teremos nossa condição material de volta, em corpos gloriosos como o de Jesus ressuscitado.
Existem, portanto, muitas questões profundas brotando daqui: se a alma preexiste ao corpo, a dignidade humana estaria toda na alma, e não no corpo. O aborto seria apenas um impedimento temporário para que aquela alma surgisse, e não lhe tiraria a oportunidade de nascer depois em outro corpo sem perder sua identidade. A própria encarnação de Jesus estaria diminuída, porque, no fundo, todos nós encarnamos, quando somos concebidos. Cada concepção seria um tipo de encarnação. Não podemos esquecer, também, que, se essa teoria fosse verdadeira, a própria atividade sexual seria dissociada da geração completa de um novo ser humano; o ser humano preexistiria à geração sexual, como alminha separada, e a atividade sexual seria apenas uma oportunidade para que essa alminha preexistente se unisse a um corpo – o que separa radicalmente o sexo da participação divina e obscurece o sentido sacramental do matrimônio. Nota-se, pois, a importância de esclarecer estas questões, principalmente no nosso tempo, em que todas estas questões se tornaram muito mais agudas, talvez, do que no próprio tempo de Tomás.
Mas tudo isto será debatido ao longo deste artigo. Vamos acompanhá-lo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, aqui, é justamente esta da independência entre a criação da alma e a geração do corpo; a alma seria criada antes do corpo, de um modo relativamente independente, e apenas depois seria “colocada” no corpo, compondo o ser humano enquanto vivo na Terra. É, portanto, uma proposta muito parecida com o pensamento de Platão, e demonstra a força das concepções “espiritualistas” desse grande filósofo; que, aliás, está talvez ainda mais presente no nosso século XXI, com suas tendências “espiritualistas” e “reencarnacionistas”, do que no tempo de Tomás. Daí a importância de debater este artigo.
Há três argumentos objetores para defender esta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor propõe que o primeiro relato bíblico da criação (Gn 1, 1 a 2, 4) segue uma ordem muito bem definida: primeiro, Deus cria tudo, depois ele separa as coisas, distinguindo-as, e, por fim, ornamenta o universo, dotando-o de dinamismo e beleza, com a vida e a inteligência. Ora, prossegue o argumento, a alma é produzida por Deus por criação, enquanto o corpo é a expressão do dinamismo, da vida e da inteligência, e portanto é uma obra de ornamentação. Assim, como as obras de criação, conforme a Bíblia, sempre são anteriores às de ornamentação, conclui-se que Deus criou as almas humanas antes de criar os corpos, diz o argumento.
O segundo argumento objetor.
As almas humanas, diz o argumento, assemelham-se muito mais aos anjos do que aos animais. Ora, como se sabe a partir dos melhores teólogos e das melhores leituras da Escritura, os anjos foram criados antes mesmo do mundo material, ou simultaneamente com o início da criação deste. No entanto, pelo relato bíblico, o ser humano só foi criado no sexto dia, portanto depois dos animais irracionais. Assim, é muito razoável imaginar que a alma humana, que é similar aos anjos, tenha sido criada junto com os anjos, ante dos animais, e que apenas os corpos sejam formados depois, pela geração, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O fim é sempre paralelo ao início, e proporcional a ele, como se sabe. De certa forma, o modo de consumação, de conclusão de alguma coisa, reflete o modo pelo qual ela surgiu.
Ora, a alma sobrevive à destruição do corpo, e continua a existir depois da morte. Assim, pelo paralelismo já citado, é muito razoável defender que ela também precede o corpo, e existe antes mesmo da concepção física do ser humano na reprodução, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento que é contrário à hipótese inicial lembra que a relação entre o corpo humano e a alma humana é a relação entre ato e potência. Vale dizer, é a alma que atualiza o corpo, que faz com que a matéria, com sua capacidade potencial, seja um ser humano atual. Ora, o ato não existe fora da respectiva potência, e se relaciona inseparavelmente com ela. Assim, é no surgimento do corpo pela geração, na concepção humana, que a alma é criada simultaneamente por Deus, pois a concepção humana é um ato único, inseparável e real, conclui o argumento sed contra.
5. Encerrando.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás nesse debate tão relevante.
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