1. Introdução.

Que as almas humanas são criadas e não geradas já o sabemos; foi firmemente estabelecido nos artigos anteriores. Ela é subsistente, imperecível, imortal, e portanto é algo que supera os atributos da matéria. Mas havia, no tempo de Tomás, a ideia, mais ou menos difundida, de que as almas humanas surgiam por intermédio dos anjos; seríamos, pois, filhos de nossos pais humanos pelo corpo, mas produto dos anjos, pela alma. Tomás não vai perder muito tempo neste debate: já sabemos que só Deus pode criar, e que as substâncias espirituais não se reproduzem. Mas o debate continua interessante: algumas correntes religiosas, mesmo hoje no século XXI, ainda têm dificuldade de distinguir entre a alma humana e os anjos, e defendem que os seres humanos são anjos presos na matéria. Assim, nossa alma surge como um “anjinho” bem simples, ignorante e mau, e vai reencarnando na matéria, para evoluir, até chegar a um estágio elevadíssimo de pureza em que pode subsistir quase que de modo inteiramente espiritual: são os santos anjos e arcanjos, que nada mais seriam do que pessoas humanas já muito elevadas, purificadas, que não precisam mais da prisão na matéria para evoluir. Não vamos discutir nada disso agora, mas não deixa de ser interessante deixar bem claro que não somos anjos, não somos filhos de anjos nem produto de anjos, mas seres biológicos cuja reprodução envolve a própria participação divina. Vamos ao artigo.

2. a hipótese controvertida.

Pela hipótese controvertida inicial, nossa alma humana não resulta, de fato, da simples geração sexual, mas resulta de uma produção espiritual pelos anjos. Assim, Deus teria dado aos anjos o poder de gerar a nossa alma, cada vez que um ser humano fosse gerado. Há três argumentos iniciais para tentar comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor vai partir de uma visão muito difundida no tempo de Tomás, que era a visão hierárquica do universo presente na obra do Pseudo-Dionísio Areopagita, de fundo neoplatônico, e ainda presente em nosso tempo, de certo modo, na crença que muitos têm em astrologia e horóscopos. Essa visão defendia que o universo material funcionava de um modo hierárquico, de tal modo que os corpos celestes davam origem e controlavam os corpos terrestres, e, aqui na Terra, os entes superiores controlavam os inferiores. Ora, diz o argumento, o mundo espiritual é superior ao mundo material. Logo, essa lógica deve funcionar também no mundo espiritual: logo, devem ser os anjos, mais elevados que nós, que dão origem às almas humanas, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Ainda na visão hierárquica do Pseudo-Dionísio, o segundo argumento traz a ideia de que o princípio e o fim das coisas deve coincidir; de fato, diz o argumento, Deus criador é a origem do universo, logo Deus redentor é o seu fim.

Isso funcionaria também nas esferas espiritual e material, diz o argumento. Aquilo que é princípio deve ser fim: como o sol é princípio de organização do nosso sistema solar e um dia conduzirá o sistema solar a um fim, destruindo-o, também na esfera espiritual os anjos, que são o princípio da inteligência espiritual, devem produzir as almas humanas, e um dia serão nosso fim, porque nos encontraremos com eles e seremos recebidos por eles no Paraíso, diz o argumento. Logo, os anjos são o princípio das almas humanas, e as geram, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

A perfeição tem seu ápice, sua culminação, sua maturação plena, no ato de reproduzir-se, de ser fecundo, de gerar algo semelhante a si, diz Aristóteles no Livro IV da Metafísica. Ora, se os anjos são os seres mais perfeitos da criação, também eles devem ter esse tipo de aptidão, ou seja (diz o argumento) devem ser capazes de gerar seres semelhantes a si, como marca de sua maturidade e plenitude. Mas os únicos seres espirituais que surgem por geração são os seres humanos, e a alma humana não pode ser produzida pela matéria. Logo, na reprodução humana, são os anjos que geram as almas humanas, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra faz uma citação bíblica; mais uma vez, traz o Livro do Gênesis, 2, 7: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente”. Ora, é muito claro que é o próprio Deus que infunde no homem o princípio espiritual da vida que é a alma, conclui o argumento.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás registra que há muitos que se apegam a um certo culto aos anjos (hoje em dia, no século XXI, também é assim, diríamos a Tomás). Assim, estes defendem que Deus deu aos anjos a capacidade de gerar, no ser humano, as almas espirituais que os animam.

Mas esta opinião não é razoável, além de contrariar frontalmente a fé cristã, assim como está revelada nas Escrituras e na Tradição e é ensinada pela Igreja desde os primeiros Padres.

De fato, no artigo anterior, já ficou provado que a alma não pode ser simplesmente gerada a partir da matéria, porque ela sobrevive à destruição do elemento material que é o corpo. Também não pode ser gerada a partir de alguma realidade espiritual anterior, porque as realidades espirituais, sendo imateriais, não possuem a capacidade de multiplicação que é própria da matéria. A alma não é criada a partir da matéria, nem a partir de alguma realidade ou substrato preexistente.

Resta, então, acreditar que as almas são criadas por Deus a partir do nada, coroando, assim, a atividade fecunda da reprodução humana. A reprodução humana é algo, portanto, que envolve o próprio Deus com os genitores, e resulta nessa criatura digna, maravilhosa e misteriosa que é o ser humano. Sua dignidade, a dignidade da pessoa humana, eleva-se ao infinito quando descobrimos que o próprio Deus está pessoalmente envolvido com a geração de cada ser humano, desde o primeiro momento de sua concepção. (Isso dá uma gravidade imensa à sexualidade e torna ainda mais repugnante o aborto, concluiríamos, em digressão).

6. Respondendo aos argumentos objetores iniciais.

Tomás nem vai se dar ao trabalho de responder aos argumentos objetores iniciais. Já vimos que os dois primeiros argumentos partem de uma ideia rigidamente hierárquica da criação, em que os seres superiores produzem os inferiores (sentiríamos tentados a dizer que há uma certa razão nessa ideia, a partir da teoria do Big Bang, que envolve o surgimento progressivo de todas as realidades criadas a partir de um instante inicial de liberação de energia). Mas não existe essa hierarquia para fins de criação da alma humana, nem há outro fim para o ser humano senão Deus mesmo.

Além disso, se tivéssemos que responder ao terceiro argumento, diríamos que os anjos já são criados com toda a perfeição que lhes caracteriza, pelo que não faz sentido imaginar que eles precisam da reprodução para atingir algum tipo de maturidade. Os anjos se relacionam pela iluminação recíproca, e, acrescentaríamos, certamente o combate entre Satanás e Miguel demonstra que o tipo de filiação que existe no reino dos anjos é de uma natureza bem diferente da que existe entre os seres humanos. É mais análoga àquela que existe entre a Igreja e os batizados.