1. De volta.
O mistério da alma humana não significa que ela é um objeto inadequado às especulações racionais. Significa apenas que ela não pode ser esgotada por nenhuma abordagem que vise desvendá-la: ela sempre estará além da nossa capacidade de compreendê-la. Na verdade, embora seja apenas um dos elementos que forma esse ser único e maravilhoso que é o ser humano, ela é, ao mesmo tempo, o elemento que subsiste, que resiste à morte. Mas não o faz sem ferir-se: a perda da união com o corpo é uma perda real, que nos deixa como que “capengas” em nosso existir. A sobrevivência da alma é uma sobrevivência individual, com identidade, mas não uma sobrevivência pessoal. A alma sobrevivente é a chave da relação que nos mantém na existência: a relação com Deus.
Sendo essa chave, a alma não é algo que se esgota na sua função de informar o corpo para gerar o ser humano vivo: sua criaturalidade é indiscutível, mas sua origem não pode ser limitada à geração material, como no caso dos outros entes materiais. Há uma intervenção particular e direta de Deus em cada ser humano que passa a existir, vimos isto no último texto. Que seriedade isto traz às relações sexuais humanas!
Veremos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor resgata a noção de “forma e matéria” no seu sentido filosófico, que não é estritamente unívoco, mas analógico. De fato, considera-se como “material” tudo aquilo que tem algum grau de indeterminação, e “formal” tudo aquilo que determina ou aperfeiçoa alguma realidade preexistente. De certo modo, as noções de “ato” e “potência” são análogas às noções de “matéria” e “forma”, porque “potência” é tudo aquilo que ainda não atingiu sua determinação completa e “ato” é tudo aquilo que já atingiu essa determinação plenamente. De certo modo, então, a matéria é sempre “potencial” e a forma, sempre “atual”. Por isso, poderíamos chamar de “material” toda realidade potencial, ainda que não seja matéria no sentido próprio, quer dizer, aquilo que ocupa lugar no tempo e espaço.
Ora, a alma tem capacidades estritamente potenciais; ela é gerada a partir de sua essência, então, antes de gerada, ela está em potência para existir. Mesmo depois de gerada, ela ignora todos os conhecimentos intelectuais. Está, portanto, em potência para o saber, e assim por diante. Por isso, podemos dizer que a alma possui, de certo modo, um substrato potencial, vale dizer, um substrato material. Assim, ela é produzida materialmente, e não simplesmente tirada do nada. Mas criar, para Deus, em sentido próprio, significa produzir a partir do nada. Portanto, a alma humana não surge por criação, mas por geração a partir da matéria preexistente, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não se pode esquecer, diz Tomás, que a noção de “matéria” se aplica à alma apenas de modo analógico, não de modo literal. Sabemos que a alma humana não é ato puro, no sentido de que não é algo que existe por si mesmo, como Deus existe. A alma é concebida por Deus em sua essência humana e recebe dele sua existência concreta, e por isso o existir, na alma, não coincide com o ser. Seu ser é o mesmo de todo ser humano, mas seu existir é individual, pessoal, atual, determinado. Pode-se dizer, então, que a essência humana é como se fosse a matéria na qual Deus insere a forma, que é a atualidade do existir. Assim, quando falamos em matéria e forma, com referência à alma, estamos falando, na verdade, em essência humana e existência atual, e portanto não falamos em matéria, aí, como aquela preexistência concreta da qual os entes materiais são gerados, mas de dois elementos formais, imateriais, que se combinam para dar atualidade à alma de um ser humano concreto.
É certo que há filósofos e teólogos, diz Tomás, que tratam a alma como feita de um tipo de “matéria espiritual”; no tempo de Tomás, acreditava-se que os corpos celestes, como a lua e o sol, seriam feitas de uma matéria diferente da matéria terrestre, e que essa matéria seria incorruptível. Assim, mesmo que a alma fosse feita de alguma matéria similar à matéria celeste, diz Tomás, ela não seria gerada da matéria terrestre anterior, como conclui o argumento. Mas hoje sabemos que não há uma “matéria celeste” diferente da “terrestre”, mas há uma homogeneidade da matéria em todo o universo, pelo que a objeção faz ainda menos sentido do que no tempo de Tomás.
Em suma, a alma é um elemento subsistente em nós, é criatural e sobrevive ao corpo; mas é puramente espiritual e, embora tenha em si a composição entre essência e existência (o que marca sua criaturalidade), não é gerada a partir de nenhuma matéria anterior. Por isso, o argumento não se sustenta.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento ainda quer debater a questão da matéria e da forma, para comprovar que a alma é gerada por causas naturais, causas segundas, e não diretamente criada por Deus. Mas, se no primeiro argumento, o debate era sobre uma composição entre ato e potência que existiria na própria alma, o que determinaria que a alma fosse, independentemente do corpo, material em algum sentido (o que, como vimos da resposta de Tomás, ela não é), este argumento parte da noção de que o ser humano é um ente material, e que a geração material do corpo seria suficiente para implicar a geração da alma, que nada mais é do que a forma do corpo.
A geração do ser humano consiste em tornar atual um indivíduo da espécie humana que é apenas potencial. Os seres humanos são seres com matéria e forma; o corpo é a dimensão material, e a alma, a dimensão formal. Mas a matéria preexistente nos genitores não poderia se tornar um novo ser humano se não fosse capaz de se atualizar, formando um novo corpo. É a essa atualização da matéria, constituindo um novo corpo organizado e vivo, que se dirige a alma. Portanto, a alma nada mais é do que uma atualização da matéria preexistente, e portanto ela é gerada da potencialidade da própria matéria, na ocasião da concepção. Desnecessário, portanto, imaginar que Deus precisasse criar do nada cada nova alma humana, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Quando dizemos que algum “ato” surgiu a partir da “potência”, o que queremos dizer é que aquilo que era apenas uma “promessa de ser”, uma possibilidade de vir a existir ou a aperfeiçoar-se, agora existe, agora está determinado, agora é uma perfeição. Mas essa perfeição, essa existência, não pode ultrapassar aquilo que se prenuncia na capacidade da potência; por exemplo, uma semente de milho não tem potência para ser um pé de feijão. Se víssemos uma semente de milho virar um pé de feijão, teríamos a certeza de que alguma causa externa (como um cientista pesquisando manipulação genética) interferiu no processo de geração, alterando seu percurso para introduzir causas capazes de gerar um efeito que ultrapassa as potências daquela semente original.
Ora, tudo o que é simplesmente gerado a partir das potencialidades da matéria tem as características estritas das coisas materiais; dentre essas características está a decadência e a destruição eventual pelo passar do tempo, isto é, tudo o que é material irá se corromper um dia. Mas a alma humana tem uma característica muito especial: ela é espiritual, quer dizer, capaz de aprender, de assimilar ideias abstratas e universais que são, em si mesmas, indestrutíveis porque são imateriais. Logo, a alma humana compartilha daquela capacidade própria das coisas espirituais: ser indestrutível. E essa característica não pode decorrer apenas das potências da matéria, como o pé de feijão não pode nascer espontaneamente da semente de milho. Por isso, a alma não pode ser gerada apenas da potência da matéria, como ocorre com todas as outras formas de coisas materiais. No caso da alma humana, precisamos descobrir outra causa capaz de produzir nela as características que ela tem. E a única causa possível, aqui, é a causa primeira, ou seja, o próprio Deus, por criação.
O terceiro argumento objetor.
A alma é um dos elementos que compõe essa unidade existencial que é o ser humano; o outro elemento é o corpo, que é o elemento material. Ora, todos os entes naturais são igualmente compostos de matéria e forma. Se, então, propusermos que a alma humana surge, a cada vez, por criação, e não simplesmente como parte do processo natural de geração, então teríamos que admitir que todas as formas das coisas materiais teriam que ser criadas também, e então o processo natural de geração já não seria um processo natural, mas sempre um processo dependente de intervenção direta e criadora de Deus. Isso seria inadmissível. Assim, conclui o argumento, a alma humana não é criada, mas resulta do processo natural de geração biológica mesmo.
A resposta de Tomás.
Nas respostas acima, já vimos repetidas vezes que a alma não é uma forma similar às outras formas das coisas materiais, porque todas as outras formas perdem a sua existência individual pela destruição do respectivo ente material; a alma humana, porém, é indestrutível em sua identidade individual, sobrevivendo à morte. Ou seja, a simples geração biológica não pode explicar sua permanência.
3. Conclusão.
Há um mistério em nós. O mistério da permanência, da eternidade, da indestrutibilidade de nossa identidade. Neste ponto, ultrapassamos o mundo material. Mas, por outro lado, somos capazes de reprodução, e neste ponto ultrapassamos as capacidades do mundo espiritual. Anjos não se reproduzem, simples animais não sobrevivem individualmente à morte. Isto, portanto, que nos caracteriza, só pode vir por criação. Veremos mais sobre isto no próximo artigo.
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