1. Retomando.

A reprodução humana é algo que supera nossa compreensão. O ser humano, embora não seja divino, é uma pequena joia da criação que Deus produz artesanalmente, participando, a cada vez, do surgimento dessa pequena maravilha. O significado disso é grande demais! Mas estamos mais uma vez nos antecipando a Tomás.

No texto anterior, vimos os argumentos que tentam comprovar que o ser humano é gerado apenas pelas próprias forças naturais, pela interação dos elementos reprodutivos, sem a necessidade de que Deus mesmo faça um ato de criação a cada novo ser humano que surge. O argumento sed contra nos lembrava, porém, que, uma vez que somos a imagem de Deus, há algo em nós que supera as forças da natureza.

Vejamos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta de Tomás.

Tomás dá uma resposta, ao mesmo tempo, simples e profunda, que é uma maravilha de síntese, e deve ser lida com muito cuidado para ser compreendida em toda a sua extensão.

A alma humana como forma.

De fato, a alma humana é a forma do ser humano. O que isto significa? Somos entes compostos de matéria e forma, uma unidade composta de elementos heterogêneos, mas, ainda assim, um ente material, como todos os outros entes que nos cercam. A alma é forma, o corpo é matéria.

Mas a alma humana tem uma peculiaridade que a torna absolutamente única dentre todas as formas que estruturam o universo material que nos cerca. A sua capacidade para aprender o abstrato, o universal, o reino das essências, dos pensamentos. Por exemplo, consideremos a geometria: a noção de triângulo é estritamente imaterial, ainda que se concretize em cada triângulo que existe materialmente por aí. Mas, mesmo que todos os triângulos do universo fossem destruídos, a noção de triângulo permaneceria existindo como uma realidade imaterial, em alguma mente. Ora, as mentes são, portanto, estruturas imateriais, e sabemos disso porque é nelas que existe o mundo imaterial, o mundo das formas e ideias universais fora da matéria. Assim são as mentes dos anjos, seres que existem de modo inteiramente imaterial, porque são capazes de subsistir como um pensamento que pensa em si mesmo. Como são estritamente espirituais (como o é a noção geométrica de triângulo), não podem ser destruídos, mesmo que todo o universo material seja destruído.

A nossa alma participa da capacidade de subsistir na matéria; essa capacidade é compartilhada por todas as formas do mundo material, como a forma das substâncias inanimadas (montanhas, planetas, estrelas) e a forma dos seres vivos, como as plantas e animais. Ocorre que todas essas formas de entes materiais só têm essas duas maneiras de subsistir: ou subsistem como indivíduos, como entes materiais, ou subsistem como ideias universais em alguma mente, mas não têm, nessa condição, individualidade. Se aquele gatinho morre, sua forma individual deixa de existir, mas a espécie dos feliz catus continua a existir na mente de Deus e na mente dos anjos, como uma forma universal. Apenas os anjos podem existir de modo puramente espiritual e individual, pessoal. Os seres materiais existem individualmente na matéria apenas, e, uma vez corrompida sua existência material, apenas sua forma universal persiste na mente divina e nas mentes angélicas, mas não sua existência individual. Isto se dá porque sua existência individual é um ato da matéria, ou seja, a matéria se expressa como concretizadora, como individualizadora, ao gerar esses entes materiais, recebendo-lhes a forma. A capacidade de individualizar as formas dos entes materiais é própria da matéria, de sua potência, de tal modo que, extinta essa existência material, a forma individualizada volta à sua condição abstrata e a matéria volta a ser potência que comporá outro ente. O gatinho morre, seu corpo virará adubo e sua alma, sua species, voltará à condição de universal: felis catus.

Mas com a alma humana ocorre algo diferente: sua individualidade pessoal não se extingue pela morte. A morte marca o fim de sua existência histórica, inserida na concretude do tempo e do espaço, mas não marca o fim de sua mente, que compartilha, com os anjos, a capacidade de lidar com o universal e com o abstrato (com o indestrutível, portanto). Há, na alma humana, portanto, capacidades que superam a matéria! Mas há uma regra de que nenhuma causa pode dar mais do que o que tem, ao seu efeito. Logo, se a alma humana pode aprender o abstrato, pode partilhar da capacidade intelectual, espiritual, pode, portanto, compartilhar do caráter indestrutível do que é intelectual, imaterial, ela tem capacidades que ultrapassam as potências da matéria e, portanto, não pode ter sido simplesmente gerada por um processo de geração material. Esse processo, como causa, seria insuficiente para explicar o efeito, isto é, seria insuficiente para explicar a dimensão intelectual (espiritual) da alma humana.

O modo de ser explica o surgimento de cada tipo de ente.

Ora, o modo de ser, diz Tomás, é sempre explicado pelo processo pelo qual ele vem a ser. De certo modo, prossegue ele, os acidentes não são, não existem num sentido próprio, porque eles sempre existem em outra coisa. Tomás dá como exemplo a brancura: a brancura não é um ente, mas uma qualidade de algum outro ente: temos uma tinta branca, um pássaro branco, mas não temos a brancura andando por aí. Assim, não é a brancura que existe propriamente, no universo, mas as coisas brancas. Assim, quando procuramos explicar a geração e a existência da brancura, devemos procurar essa explicação na existência de coisas brancas, e não na existência da própria brancura, já que a brancura não existe por si mesma.

Acontece algo análogo com aquelas coisas que, embora sejam substanciais, têm uma existência estritamente material: quando procuramos explicar sua existência, na verdade explicamos a existência que elas têm como formas na matéria, isto é, como entes que não subsistem senão na matéria, compondo, com ela e por ela, algum ente material. Destruída essa composição, o ente se perde para sempre. Por isso, a existência da matéria, sua capacidade de receber formas, é explicação suficiente para a geração e existência desses seres, como as coisas brancas são explicação suficiente para a existência da brancura.

Mas com a alma humana ocorre algo diferente: por um lado, ela existe no composto material que somos nós, e subsiste na matéria e pela matéria. Mas ela é indestrutível, embora o composto não o seja. Há, portanto, uma subsistência individual da alma que a mera existência material não pode explicar. Isso significa que a matéria não tem a capacidade de produzir a alma humana por geração, já que a alma humana não é destruída pela corrupção da matéria corporal.

Anjos não têm filhos.

Ocorre que as realidades puramente espirituais, como os anjos, não podem se reproduzir, justamente porque são espirituais, imateriais, e não podem se dividir para dar origem a outros seres a partir de si. Anjos não têm filhos. Simplesmente porque apenas a matéria permite a multiplicação dos entes, e a razão disso nós já estudamos quando acompanhamos o estudo dos anjos, mais atrás, aqui mesmo no nosso estudo da Suma. Mas não é difícil entender: não conseguimos multiplicar o conceito de triângulo; ele é apenas um, e será apenas um sempre. Mas os triângulos individuais, materiais, podem ser multiplicados sempre. Assim, anjos não podem se reproduzir, mas humanos podem.

Enfim, se a alma humana não pode ser gerada pela matéria, nem pode ser gerada por algum processo espiritual, resta admitir que, na reprodução humana, o próprio Deus a cria, participando da geração de cada novo ser humano que existe, existiu ou existirá na Terra. Belíssima conclusão, com consequências maravilhosas para a noção de dignidade da pessoa humana.

3. Encerrando.

Muito material para uma meditação profunda. Coisas de difícil compreensão, mas que fazem todo sentido, e merecem ser lidas e relidas, até serem compreendidas. São verdades esquecidas há muito tempo. Como que guardadas para serem redescobertas por nós, num tempo de tanta falta de clareza.

No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.