1. Introdução.

Somos criaturas, e disso não há dúvida. Mas o fato de que sejamos criaturas – e o são todas as coisas que podemos ver e com as quais convivemos – não significa que Deus as produza individual e diretamente. De fato, as criaturas são capazes de se reproduzir, o que não retira delas a condição de criaturas. Mas sua geração está sujeita inteiramente às causas naturais, neste caso. E, de fato, quando as causas naturais (ou causas segundas) são suficientes para responder pelos efeitos, isto basta: a geração de uma planta, de um animalzinho, ou mesmo as reações químicas que geram novas substâncias inanimadas, tudo isto está colocado dentro do campo dos efeitos naturais, e portanto essas criaturas surgem por geração, isto é, como resultado da interação das próprias criaturas que a geram, sem a intervenção direta de Deus.

Não podemos, com isso, imaginar que a criação, da parte de Deus, é um ato pontual, como se ele fosse um relojoeiro que cria uma máquina e a põe em funcionamento; se o relojoeiro desaparecesse, ainda assim a máquina que criou continuaria funcionando. Quando se enxerga a criação desse jeito, como a construção de uma máquina, fica difícil, senão impossível, imaginar a relação de Deus com sua criação. É por isso que alguns chegaram a propor que, se Deus é um relojoeiro perfeito, ele não precisaria intervir em sua máquina; o milagre seria a correção pontual de uma imperfeição e, nesse caso, seria um testemunho de que Deus supostamente seria imperfeito, e portanto já não seria Deus. Esse raciocínio não se sustenta, porque Deus não é um relojoeiro nem o universo é uma máquina. Na verdade, a criação é como uma grande música, que precisa do músico para prosseguir soando. Assim, o universo se relaciona umbilicalmente com Deus que o criou e sustenta. E não o contradiz o fato de que Deus se reserva algumas atribuições como especialíssimas, ou seja, como resultado de uma intervenção direta e pessoal dele, num gesto de amor e de envolvimento com sua criação. Está nessa categoria a graça que ele concede aos que ama, de modo a conduzi-los a ele.

Por outro lado, os anjos, que são seres puramente espirituais, não estão sujeitos à geração e à destruição, nem podem se reproduzir. Cada anjo saiu completo e perfeito das mãos de Deus, e existirá para sempre.

A questão que se põe, agora, diz respeito a essa dimensão da pessoa humana que é capaz de sobreviver à morte, e que também é indestrutível. Não há dúvida de que o ser humano se reproduz por geração. Mas em que medida essa geração poderia produzir um novo ser humano, em sua espiritualidade indestrutível? Se a matéria carrega em si o traço do tempo e do espaço, é certo que nada do que é material pode ser eterno; ora, tudo o que é gerado por reprodução é material. Como fica, então, o ser humano, este ente que um filósofo chamou, certa vez, de “centauro metafísico”, composto por um corpo material e uma alma espiritual numa unidade substancial? Como um ser humano poderia produzir, em outro, uma alma espiritual? Será que cada ser humano, para ser gerado, depende de alguma intervenção direta de Deus, assim como os anjos para serem criados?

É o que veremos neste artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

A experiência da reprodução é fundamental e empírica: a reprodução, na espécie humana, decorre do encontro dos gametas masculinos e femininos que dão origem ao novo ser. Assim, parece bem claro que a geração de um novo ser humano não demanda nenhuma intervenção direta de Deus, nenhum ato criador especial que engendrasse essa nova alma, mas se resolve apenas pelo jogo dos elementos naturais. Há três argumentos objetores no sentido dessa hipótese inicial. Vamos a eles.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Aquilo que é material tem sua origem explicada simplesmente a partir da própria matéria. Ora, diz o argumento, a noção de “matéria” é analógica, isto é, não é unívoca. De fato, todas as realidades que estão sujeitas a aperfeiçoamento posterior, a um caminho de aprimoramento, de complementação, podem ser chamadas de “materiais” nesse sentido. Ora, diferentemente dos anjos, que já são criados com todo o conhecimento intelectual que precisam, e portanto não passam por nenhum processo de aprendizagem, a alma humana é aperfeiçoável, porque, quando surge, é completamente ignorante, e somente com o tempo e esforço é que adquire os conhecimentos e virtudes morais que a aperfeiçoarão. Portanto, podemos dizer que a alma humana tem um aspecto “material”, isto é, essa sua capacidade de aprender novos conhecimentos intelectuais ali onde reinava a ignorância. Portanto, se mesmo o elemento espiritual do ser humano, que é a alma, tem uma característica “material”, então não é preciso imaginar a necessidade de uma intervenção direta de Deus para criá-la caso a caso, porque o processo de geração material é capaz de explicar inteiramente seu surgimento, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor também discute a partir das noções filosóficas de ato e potência, relacionando-as com as noções de matéria e forma. Sabemos que a matéria está em potência para se transformar em qualquer ente material. É a forma que lhe dá estrutura e existência como este ou aquele ente; Portanto, a forma está, de algum modo, inscrita na matéria, e atualiza as potências desta última, fazendo-a vir a ser qualquer ente material, seja uma coisa inanimada como uma pedra que se forma com uma erupção vulcânica, seja um ser vivo como uma planta ou animal, resultantes da reprodução assexuada ou sexuada.

Ora, o ser humano é um ente material, e aquilo que faz com que ele seja humano, ou seja, que atualiza a matéria do seu corpo para que seja um corpo humano, é a sua alma. A alma nada mais é, portanto, senão o ato da potência material do corpo, como aliás a definem os filósofos. Portanto, se ela é o ato da potência material corporal, ela pode ser explicada apenas pela interação dos elementos materiais que interagem na geração de um novo ser humano, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O que é a alma, senão justamente o elemento formal de um ser material que é o ser humano? Ora, ainda usando as noções de forma e matéria, podemos identificar no ser humano, como forma, a alma, e como matéria, o corpo.

Mas todas as criaturas materiais são compostas de matéria e forma, não apenas o ser humano. Assim, se defendêssemos que a alma humana é criada diretamente por Deus, cada vez que um novo ser humano é gerado, teríamos que admitir que todas as formas de todas as coisas, inanimadas ou vivas, são criadas diretamente por Deus, cada vez que uma destas coisas é gerada, o que seria absurdo. Logo, as almas humanas não são diretamente criadas por Deus quando da geração de um novo ser humano, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai buscar seu argumento diretamente na autoridade das Escrituras. De fato no Livro do Gênesis, no primeiro relato da criação (1, 27a): “Deus criou o homem à sua imagem”. Ora, a imagem de Deus é algo que está além da capacidade produtiva da matéria. É uma característica puramente espiritual, porque Deus é espírito, e é pelo espírito que somos sua imagem. Assim, é necessário que cada alma humana exista por criação, conclui o argumento.

5. Encerrando.

No Livro do Gênesis (4, 1), ao conhecer Adão e conceber Caim, Eva diz: “gerei um homem com a ajuda do Senhor”. Isso parece indicar que, no milagre da geração humana, há sempre mais coisas envolvidas do que simplesmente uma reprodução sexuada, o encontro de gametas, a multiplicação de novas células. A intervenção de Deus em cada ato de geração é um carinho especial de Deus para conosco; isto nos dá, a um só tempo, uma grande distinção e uma grade responsabilidade: somos as obras prediletas de Deus; embora os anjos também sejam criados, em sua espiritualidade, por Deus, apenas nós, dentre todas as criaturas, somos capazes de multiplicar a existência, engendrando novos seres humanos num ato maravilhoso que envolve os genitores e Deus. Isto deveria ser capaz de dar uma nova visão ao ato sexual: quando aberto à vida (como ensina a Igreja), ele sempre envolve Deus mesmo. Que belo!