1. Voltando ao debate.

Não somos deuses. O universo não é Deus. E só isso nos pode dar razão para caminhar. Porque só há caminhada se houver um ponto de partida e um ponto de chegada; mas se tudo é Deus, e se Deus é tudo, não há razão para imaginar que há algum percurso possível: o ponto de partida e o ponto de chegada coincidem com o lugar onde estamos.

Nossa alma é criatural. Tem natureza de criatura. Não tem natureza divina. Deus é transcendente, é outro com relação ao universo. E mais, nossa alma não é, em si mesma, uma substância; ela é apenas um dos elementos que compõem a substância humana, junto com o corpo. Somos irremediavelmente corpo e alma, e por isso a sobrevivência da alma faz todo sentido com a ressurreição dos corpos (embora, a rigor, a sobrevivência da alma seja uma intuição acessível à razão e a ressurreição dos corpos seja uma verdade revelada). Este é um daqueles pontos em que a revelação nos desafia a levar a razão mais longe. Porque a revelação, quando é verdadeira, interpela e completa a razão, mas não a contradiz. É justamente este o caso.

Nós vimos, no texto anterior, os argumentos de Tomás quanto às tendências panteístas (panteísmo materialista ou espiritualista, este último chamado às vezes de teopanismo). Não faz sentido que Deus seja o próprio universo, porque, neste caso, não haveria mudança possível: tudo o que é, seria Deus, e seria bom simplesmente por ser assim, aí incluídos a devastação ambiental, a injustiça, os grandes desastres naturais e a crueldade humana. Tudo seria Deus, e seria justificado por ser Deus. Sabemos que Deus é outro, porque sabemos o quanto o mundo, a realidade, quer no plano dos acontecimentos naturais, quer no plano da vontade humana, está muito longe de ser perfeito, de ser justificável.

Claro que alguém poderia imaginar algum tipo de “evolução” em Deus, de tal modo que Deus pudesse ir “melhorando” ao longo da história. O problema é que, se tudo é Deus, o conceito de “melhorar” também se torna impossível: melhorar com relação a qual padrão?

Enfim, passaremos a examinar, agora, os argumentos objetores iniciais, que procuram provar que a alma humana é divina, e as respostas que Tomás dá a eles.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Gn 2, 7: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente”. Ora, prossegue o argumento, quem sopra emite algo de si para fora de si. E esse sopro de Deus é o princípio da vida no ser humano. Uma vez que sabemos que, em nós, o princípio da vida é a alma, então seria necessário concluir que a nossa alma é algo da própria substância de Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É preciso sempre ler a Bíblia com muito cuidado. Não se pode ler literalmente este trecho, imaginando que Deus veio fisicamente à Terra e soprou seu hálito nas narinas de um bonequinho de barro, como se Deus fosse um ser que respira e se locomove fisicamente pelo universo. Trata-se de uma linguagem figurada para descrever o modo pelo qual Deus criou a alma espiritual humana, como algo que brota dele, mas que não é ele. Mesmo no caso dos seres humanos, quando expiramos não expelimos uma parte de nós mesmos, mas apenas o ar que estava em nossos pulmões. Assim, o trecho bíblico citado não pode levar a conclusão de que nossa alma seja divina, mas justamente o contrário.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor quer usar uma argumentação filosófica para comprovar a identidade entre a alma humana e Deus mesmo.

Trata-se da ideia de matéria e forma, relacionadas à noção de ato e potência. Como sabemos, a matéria está para a forma como a potência está para o ato: a matéria é potencial, a forma é atual. A matéria é aquilo que pode se transformar, que pode vir a ser qualquer coisa, mas que, por si mesma, não é senão essa possibilidade de ser, ou seja, não é nada em si mesma. A forma, por outro lado, é pura estrutura, pura organização, pura informação sem matéria, sem potencialidades. Todo ser que está constituído de matéria e forma tem, em si, a composição misturada de ato e potência.

Mas a alma humana não tem composição de matéria e forma. Ela é pura forma, sem matéria; pura organização, pura informação, sem composição. Ela é simples, quer dizer, não se constitui como algo composto. Logo, ela é inteiramente ato, sem mistura de potência, diz o argumento.

Ora, sabemos que a noção de Deus é exatamente aquela que o descreve como um ser simples, sem composição, que se caracteriza por ser ato puro, sem qualquer mistura de potência.

Assim, uma vez que a descrição da alma coincide inteiramente com a descrição de Deus, conclui-se que a alma é da mesma substância que Deus, diz o argumento.

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que a alma é uma realidade formal, imaterial, e portanto é sem composição com a matéria. De fato, ela é a estrutura da matéria que compõe o corpo, e, portanto, ela mesma é imaterial, e é o ato do corpo, isto é, é aquele elemento em nós que nos faz humanos, que nos dá a estrutura de humanidade, que nos identifica como espécie. No entanto, ela não é inteiramente desprovida de composição, como Deus. Há, nela, uma essência simples que, para existir, precisa receber a existência das mãos de Deus, como veremos no próximo artigo. Tem, portanto, pelo menos a composição entre essência e existência. Somente Deus, por ser Deus, tem a existência por essência, quer dizer, apenas por ser Deus mesmo, ele existe. Nós somos criaturas, e recebemos a existência das mãos de Deus. Assim, não há identidade entre a alma, que é criada, e Deus, que não o é.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor parte exatamente dessa questão da identidade entre a alma e Deus, que já foi indiretamente abordado na resposta acima. O argumento nos lembra que as diferenças entre os entes se caracterizam por aqueles aspectos em que eles não têm identidade entre si. Ora, apenas os seres que têm partes é que podem diferir, já que, ao serem comparados, podemos perceber aquelas partes que são iguais e aquelas partes que são distintas, caracterizando-os como seres diferentes.

Mas Deus não tem partes, é perfeitamente simples. Ocorre que a alma humana também não tem partes, porque não tem composição com a matéria, de tal modo que não tem elementos que pudessem ser separados e comparados. Ora, se nem Deus, nem a alma, possuem elementos distintos que pudessem estabelecer diferenças entre eles, então precisamos concluir que a alma e Deus não são coisas diferentes, mas idênticas: a alma humana, portanto, seria idêntica a Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, diz Tomás, para que possamos falar em diferença, no sentido próprio, é preciso que existam duas ou mais coisas que possam ser comparadas entre si, de tal modo que tenham elementos em comum e elementos distintos. Assim, somente entes que sejam de alguma maneira compostos podem ser comparados, de tal modo que possamos dizer que são diferentes entre si. Mas a composição não precisa ser aquela entre matéria e forma: os anjos, por exemplo, são puramente espirituais, e nisso coincidem entre si, Mas são diferentes entre si porque sua essência, que consiste em sua inteligência e sua vontade, difere da essência de outro anjo em poder e profundidade, e seu ato de existir, que os anjos recebem de Deus como um dom, é diverso também. Assim, eles não são, a rigor, diferentes no mesmo sentido que os seres materiais são diferentes pela individualização da matéria, uma vez que não têm matéria; mas são diversos entre si pela essência e pela existência. No caso dos seres materiais, podemos dizer, por exemplo, que entre os seres humanos e os asnos não há diferença quanto à animalidade (ambos são animais, e nisso se equiparam), mas há diferença no sentido de que os humanos são racionais, mas não o são os asnos. A animalidade nos torna comparáveis, e a racionalidade nos torna diferentes.

Entre a alma humana e Deus não existe algo que possa ser comparado de modo unívoco; não há comparação possível, portanto. Deus é subsistente, isto é, nele não há composição de nenhum modo. Seu ser é idêntico ao seu existir, ao seu saber, ao seu querer, e assim por diante. Na alma humana, que é criatura, não há identidade entre ser e existir, como não há identidade entre ser e saber ou entre ser e querer. Portanto, a alma humana é fragmentada, vale dizer, embora seja simples com relação à composição entre forma e matéria (já que ela é a forma da matéria corporal, e portanto , em si mesma, imaterial), ela é composta por várias outras dimensões; neste sentido, não há identidade entre ela e Deus de nenhum modo. Não há nem sequer a possibilidade de comparação.

3. Concluindo.

Há um grande pensador alemão, Josef Pieper, que destaca o fato de que a perda da noção de criaturalidade é um dos grandes males humanos da nossa época. De fato, não pode haver maior soberba do que aquela da criatura que se considera Deus. Neste sentido, o artigo que acabamos de estudar é, acima de tudo, uma lição fundamental de humildade.