1. Para retomar nosso percurso.
Dizíamos, no texto anterior, que é muito difundida, hoje em dia, a ideia de que nossa alma seria divina, isto é, que somos todos, no fundo, deuses presos na matéria, e que a “iluminação” consistiria em tomar consciência deste fato, tomar consciência de que somos Deus, e que o mesmo que está fora, está dentro.
Assim, para os que acreditam nisso (e não são poucos), não é que Jesus mesmo não seja Deus; é que nós todos o somos também. Somos, no fundo, Deus mesmo, em nossa alma, mas esquecemos disso, porque a “matéria”, que é nosso corpo, e que não faz parte de nós (segundo esse pensamento), torna-nos incapazes de perceber esse fato. Assim, quem acredita nisso pensa que a criaturalidade humana é um engano, e que, na verdade, “despertar” é descobrir que somos deuses, ou melhor, Deus mesmo. Não há como negar que essa doutrina é sedutora: seu poder está narrado desde o Gênesis, e não parece ser outra a argumentação da Serpente a Adão e Eva.
Somos deuses? Somos Deus mesmo, centelhas divinas aprisionadas na matéria? Não, somos criaturas. É certo que a fé nos oferece uma certa “divinização” pela graça; a graça nos torna semelhantes a Deus, no sentido de que nos faz capazes de entrar em certa relação com ele, conhecê-lo em algum grau e até mesmo esperar vê-lo. Mas tudo isso é um dom; a graça não é natureza nossa, mas algo que a nossa natureza está preparada a receber. O pecado originar fez perder a graça, mas não destruiu a natureza (embora, obviamente, a feriu, porque arrancou dela aquilo para o qual ela foi preparada, e que a completa). Mas estamos, mais uma vez, perdendo-nos em digressões. Voltemos a Tomás, e examinemos sua resposta sintetizadora.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Deus é um, nós somos muitos.
A opinião de que nossa alma é de natureza divina é algo que não tem a menor probabilidade de ser verdadeiro, diz Tomás, logo no início de sua resposta. É uma crença sem fundamento, manifestamente falsa, portanto.
E Tomás nos oferecerá apenas um argumento irrespondível: Deus é ato puro, pura perfeição, pura unidade, espírito completo em si mesmo, igual a si mesmo, imutável, estável, indivisível, fonte de toda inteligibilidade, fonte mesmo de todo ser, sendo ele mesmo o ser sem fonte. A alma humana, por outro lado, é contingente, mutável, ignorante, necessitada do processo de aprendizagem para conhecer, incapaz de dar o ser a partir do nada, fragmentária, individual, separada, parcial, incapaz de existir por si mesma, e recebe de fora o ser, o conhecer, o aperfeiçoar-se. Não é nada de divina, portanto. E isso bastaria para concluir, irremediavelmente, que a alma humana não é divina, é outra com relação a Deus.
Mas muita gente boa não chegou a essa conclusão. Tomás vai examinar, agora, a origem dos erros e desvios que levaram a essa convicção errônea e persistente.
O panteísmo materialista.
Dois tipos de desvios, diz Tomás, levaram a esse erro, essa ideia da identidade entre nossa alma e a própria substância divina – o panteísmo materialista e o panteísmo espiritualista.
O primeiro erro, portanto, tem a ver com enxergar a matéria como único princípio: alguns filósofos e pensadores antigos (e alguns novos, diríamos hoje a Tomás) não conseguiram perceber a existência de alguma realidade que não fosse material. Convencidos de que há apenas a matéria, e que toda aparente ordem ou estrutura que dá inteligibilidade ao mundo nada mais é senão a arrumação acidental da matéria, esses pensadores não conseguem perceber distinção essencial entre as coisas. Se a matéria é o único princípio que explica tudo, que estrutura tudo, que permeia tudo, que fundamenta tudo, não há outra conclusão possível senão a de admitir que, sendo princípio de explicação e fundamento de existência, a matéria deve ser divina. Assim, a diferença entre as coisas é apenas acidental: Deus seria, portanto, esse fundo material que permeia, constitui e fundamenta todo o universo. A própria capacidade de perceber isso nada mais é do que uma característica da matéria, quando organizada de determinado modo; isto é, aquilo que chamamos de “alma”, que estrutura nosso corpo e nos dá capacidade de refletir, seria apenas uma determinada organização acidental da matéria, que não nos torna algo mais do que simples matéria circunstancialmente organizada. Se é assim, e se é a matéria o próprio fundamento do ser, então temos uma identidade essencial com Deus; ele é o todo material, nós somos fragmentos dele, organizados de modo especial com a capacidade de refletir. Este primeiro erro, portanto, é o do panteísmo materialista. Os próprios maniqueus, que defendiam uma visão dualista da realidade, não conseguem fugir deste erro, diz Tomás. Eles apenas acreditam que há dois modos de matéria, um modo obscuro da matéria, que é a matéria pesada, densa, incapaz de transparência, e que seria algo como um polo negativo da existência; por outro lado, haveria uma matéria transparente, luminosa, capaz de claridade e reflexão, que seria o polo positivo do universo, mas que seria, no fundo, material também, completamente imanente, e também parte das forças materiais que explicam o universo. Essa matéria luminosa seria divina, e se manifestaria em nós como alma espiritual, como complementar ao corpo, que seria a matéria opaca em nós. Ora, se estas são as únicas realidades que explicam o cosmos, e se o divino no cosmos seria essa matéria luminosa que se manifesta em nós como alma, então nossa alma seria simplesmente divina, pensam estes. Fazem parte, portanto, embora de uma maneira mais sofisticada, do panteísmo materialista.
O panteísmo espiritualista.
O desenvolvimento dessa reflexão levou alguns a concluírem que há, de fato, dois elementos que explicam a realidade, um elemento concreto, individualizante e desprovido de inteligibilidade própria que seria a matéria, ao lado de um outro elemento imaterial, pura organização, pura inteligibilidade, pura estruturação, que organiza a matéria dando-lhe ordem, funcionalidade, sentido, e que seria estritamente formal, embora estritamente estruturante, isto é, inconcebível senão como organizador da própria matéria. Portanto, esse elemento imaterial, formal, seria algo como a “alma do universo”, sua estruturação fundamental, a forma total do universo total. Ora, se o ser humano nada mais é senão uma parte desse universo, sua alma individual não seria mais do que uma manifestação particular dessa alma total do universo, ou seja, uma individuação de Deus.
Opiniões manifestamente equivocadas.
Assim, diz Tomás, toda alteridade de Deus, toda diferença entre criador e criatura, fica afastada por esses dois erros, que chamamos, acima, de panteísmo materialista e panteísmo espiritualista. Mas isso rebaixaria Deus ao próprio universo, equiparando as duas realidades (teopanismo) e legitimando a ideia de que tudo o que ocorre, tudo o que o universo é, no fundo, equivale ao que ele deve ser, ou seja, se o universo é Deus, se os seres humanos são individualizações de Deus, então tudo o que acontece, tudo o que nos parece imperfeito, incompleto, injusto ou mesmo inaceitável, todo movimento, toda mudança, todo caminhar, é, na verdade, uma ilusão: tudo é também divino, por mais absurdo ou inaceitável que possa parecer; tudo o que acontece é expressão de Deus, e somente uma ilusão em nós é que nos faz não aceitar a realidade assim como está dada, com toda sua carga de incompletude, de imperfeição, de injustiça, de irracionalidade. Tudo isso é divino também, segundo os que pensam assim, e nenhuma melhora, nenhuma redenção, nenhuma perfeição é possível além daquilo que já é. Só nos restaria aceitar as coisas como são e desistir de mudar o que já é Deus plenamente. Tudo isso, segundo o que pensa Tomás, é simplesmente absurdo. Inaceitável. Equivocado. Insustentável. Não somos deuses, nossa alma não é divina, o universo é criatura, Deus é inteiramente outro.
3. Encerrando.
Não somos deuses. O universo não é Deus. E só isso nos pode dar razão para caminhar.
No próximo texto revisitaremos os argumentos objetores iniciais, submetendo-as às respostas de Tomás. Que muito nos enriquecerão.
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