1. Introdução.
Há muitas “filosofias” contemporâneas que defendem que há uma “fagulha de Deus” dentro de nós, no sentido de que nós, humanos, seríamos deuses presos em corpos. Nossas almas seriam, assim, “pedaços” de Deus que se desgarraram ou que foram aprisionadas em corpos materiais. É contra esta ideia que Tomás vai debater agora; estabelecer claramente a criaturalidade do próprio ser humano como um todo, e em especial a criaturalidade dessa dimensão espiritual do ser humano que é a alma, e que sobrevive, como vimos nos últimos textos, à própria morte.
Há, sem dúvida, uma dimensão em nós capaz de receber o amor de Deus, que não é outra coisa senão Deus mesmo. Mas o amor de Deus, embora venha residir em nós, não está na nossa própria natureza: é graça. Não somos divinos, mas somos receptivos ao divino que nos eleva pela graça. Mas a graça não se coloca sobre o nada: ela precisa que haja uma natureza criatural, humana, espiritual, para elevar. É esta natureza que será o centro do nosso debate a partir de agora.
Não somos deuses, não somos partes de Deus. Somos criaturas. E como criaturas fomos criados.
Os debates serão centrados na criação, ou seja, no ser humano assim como saiu das mãos de Deus, antes do pecado e de suas consequências. Eles nos conduzem por uma visão daquilo que o ser humano é, numa dimensão muito profunda, que envolve aquilo a que, pela graça de Jesus, chegaremos a ser se alcançarmos a santidade.
Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida, aqui, é justamente aquela que defende que a nossa alma é da mesma substância de Deus; ela seria algo como uma “fagulha de Deus”, um pedaço desgarrado de Deus preso na matéria; no fundo nós seríamos idênticos a Deus no mais profundo do nosso ser. Naturalmente divinos, embora, talvez, ignorando isso. Nossa alma não seria criatural. Há três argumentos objetores que tentarão comprovar essa hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita justamente uma passagem da Bíblia, justamente aquele trecho do Gênesis que narra a criação do homem. Em Gn 2, 7, narra-se: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente”. Ora, prossegue o argumento, parece claro que Deus expirou, e o sopro de Deus, que é algo de Deus mesmo, foi inspirado pelo barro que, assim, se transformou em homem. Portanto, a vida do ser humano foi expirada por Deus e inserida nele, o que significa dizer que o princípio da vida do ser humano, que é a alma, é da própria substância de Deus, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
É certo que a alma não é uma substância em si mesma, mas ela é um elemento subsistente, indestrutível, do ser humano mortal. Isto porque a alma é uma forma espiritual, simples, subsistente, atual, vale dizer, não há, nela, partes que possam ser destruídas. Portanto, se ela não tem composições e é ato, então ela é idêntica a Deus, que é rigorosamente simples, isto é, sem composições, e puro ato, sem potencialidades. Logo, a alma humana é algo de substancialmente divino, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Se há alguma coisa que é rigorosamente igual em tudo a outra, elas não são duas coisas, mas uma só. Para que alguma coisa seja outra com relação a uma segunda coisa, é preciso que haja entre elas alguma diferença: duas maçãs, por exemplo, ocupam posições diferentes no espaço e têm variações de acidentes.
Ora, as almas humanas não têm composição, não têm partes. Deus não tem composição, não tem partes. Ambos são entes simples, atuais e espirituais. Não há como diferenciá-los, porque, para que fossem diferentes, seria preciso que alguma parte deles fosse diferente de alguma parte do outro, e nenhum dos dois tem partes. Logo, Deus e a alma humana são a mesma coisa, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra vem de Santo Agostinho, que, na obra em que estuda a origem das almas, diz que, nesse assunto da natureza e origem das almas, existem muitas opiniões perversas e contrárias à reta fé; dentre essas, ele enumera em primeiro lugar aquela que diz que a alma humana é Deus mesmo, que ele as faz de sua própria substância, ou seja, que nós somos, no fundo de nosso ser, pequenas fagulhas de Deus. Ora, conclui o argumento, as almas são criaturas, não “pedaços de Deus” ou “Deus mesmo em nós”.
5. Encerrando.
Como é difundida, hoje em dia, a ideia de que nossa alma seria divina, isto é, que somos todos, no fundo, deuses presos na matéria, e que a “iluminação” consistiria em tomar consciência deste fato, tomar consciência de que somos Deus, e que o mesmo que está fora, está dentro.
Disto decorrem ideias como a de que a alma é uma “coisa” em si mesma, independente do corpo e até mesmo oposta a ele, capaz de existir desde o princípio, reencarnar, manifestar-se mesmo fora do corpo e coisas assim. Reafirmar a criaturalidade, a unidade substancial de corpo e alma, a vida como dom, a divindade como outro, tudo isso é essencial à dignidade humana.
A isto se opõe, de modo também difundido, o materialismo, crasso ou sutil, que defende que nossa estrutura, aquilo que chamamos de “alma”, é apenas o resultado de uma organização progressiva da matéria, por meio da evolução ou do mero acaso. Nesse caso, matéria e evolução são como que os deuses que nos engendram. Mas são deuses impessoais, cruéis, que não sabem de nós, nunca saberão e nem podem saber.
Nos próximos textos, veremos a vigorosa e metódica defesa de Tomás da nossa criaturalidade, resultado da deliberada atuação, a partir do nada, do Deus trinitário revelado em Jesus, aspecto tão esquecido nos dias de hoje.
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