As almas dos que já morreram podem continuar a se relacionar, a participar e a saber das coisas que se passam em nosso mundo? Primeira parte, questão 89, artigo 8, parte 3 de 3.

1. De volta.

A morte não destrói completamente o ser humano; o elemento espiritual sobrevive. Mas sem dúvida o fragmenta: uma vez destruído o corpo, o ser humano, na forma de uma mente sobrevivente, está inteiramente desligado da possibilidade de qualquer relação real, de qualquer relação com o universo material, porque não tem mais os meios para tanto. Assim, mesmo que ele continue com informações intelectuais sobre aquilo que conheceu em vida, ele já não pode experimentá-las. Não há comunicação possível, de modo natural, entre mortos e vivos. É claro que, para os que compartilham de algum modo o caminho da santidade, há a comunhão dos santos e a visão beatífica; mas, mesmo nesses casos, o conhecimento que a alma separada tem sobre o mundo dos vivos é sempre indireto e mediado. Qualquer contato direto entre vivos e mortos é excepcional e rigorosamente miraculoso. Ou vem de outra fonte: os anjos (e os demônios) têm o poder de influir sobre a matéria, e estes últimos têm, ademais, a mentira como característica intrínseca.

Vimos tudo isto nos textos anteriores. Neste último texto que será também o último texto destas questões sobre antropologia geral (questões 75 a 89) veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais. Vamos a eles.

2. Os argumentos objetores e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor diz que nós não podemos nos importar, nos preocupar, com aquilo com que não podemos nos relacionar. Aquilo que ignoramos não pode nos incomodar, como diz o velho ditado: o que os olhos não veem, o coração não sente. Nãos e trata, aqui, de “conhecer” num sentido abstrato, teorético, mas de ter contato, experimentar, ter relação direta mesmo.

Mas, segundo as Escrituras, os mortos se preocupam com os vivos, cuidam deles, demonstram se importar com sua sorte, diz o argumento. Para comprovar essa afirmação, o argumento cita Lucas 16, 27-28, no trecho em que o Rico Epulão pede a Abraão: “tenho cinco irmãos, [manda Lázaro até eles] para lhes testemunhar que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos”.

Ora, isto prova que os mortos se ocupam dos vivos, acompanham e sabem de sua sorte, podem inclusive entrar em contato com eles, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O fato de que os mortos podem se preocupar com os vivos, podem se importar com sua sorte, não prova que eles conheçam e acompanhem sua história, seu estado atual, sua sorte real, ou mesmo que possam entrar em contato e se relacionar efetivamente com eles. Também nós, os vivos, normalmente nos preocupamos com a sorte dos mortos, com seu estado final, mesmo sem podermos saber nada sobe eles. Quantas mães se preocupam por filhos que vagam pelo mundo em lugares ermos ou desconhecidos, rezando sem parar por eles? Portanto, o pressuposto do argumento é falso: o fato de se preocupar, de se importar, não implica capacidade de acompanhar, de se relacionar diretamente, enfim, de manter contato.

Além do mais, há diversas maneiras pelas quais as almas separadas poderiam receber notícias indiretas a respeito do mundo, da história, e mesmo da sorte de seus entes queridos que ainda caminham no mundo dos vivos: Tomás lembra que as almas separadas, sendo espirituais, podem conviver entre si, isto é, uma alma pode comunicar-se com a outra. Assim, alguém morto há mais tempo pode conseguir informações sobre os seus pelo contato com outra alma, falecida há menos tempo. Ou com os anjos. Ou mesmo com os demônios. Ou ainda por alguma revelação especial de Deus! Em todas estas hipóteses, não há nenhum contato ordinário entre vivos e mortos, diz Tomás, concluindo sua resposta.

O segundo argumento objetor.

É frequente, diz o argumento, que os mortos apareçam aos vivos em sonhos, ou mesmo acordados. Há inclusive um testemunho bíblico, no relato da aparição de Samuel ao Rei Saul em 1 Samuel 28. Ora, essas manifestações não seriam possíveis se não houvesse relações naturais, conhecimento histórico e contato entre o mundo dos vivos e as almas separadas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não há nenhuma capacidade natural, nenhuma faculdade, nenhum meio que permita aos mortos a comunicação com os vivos, a relação direta com eles, a partir de suas próprias forças.

Quanto a aparecer em sonhos, diz Tomás, isso não prova nada; nós também podemos sonhar com pessoas vivas, e esses sonhos podem parecer muito reais, e aquela pessoa com quem sonhamos nem sabe que sonhamos com ela: não foi ela que apareceu em nosso sonho, portanto.

Quanto a fenômenos de manifestação de mortos, ordinariamente são produzidos por seres de natureza angelical, como anjos ou demônios, que têm o poder natural de intervir no mundo material. Seria a explicação mais plausível, inclusive, para a mediunidade descrita no Primeiro Livro de Samuel.

Ainda que se considere que a explicação dada no Livro do Eclesiástico 46, 23, de que foi o próprio Samuel que apareceu ao Rei Saul, esta aparição deve ser considerada como um evento miraculoso, permitido por Deus mesmo. De fato, diz Tomás, Deus pode excepcionalmente permitir que os mortos apareçam miraculosamente aos vivos, por uma autorização extraordinária; mas isso só comprova que não há nenhuma relação natural entre mortos e vivos.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor resgata a afirmação de que as almas separadas são capazes de se relacionar com as outras almas separadas, isto é, podem conhecer uma a outra e saber o que se passa entre elas. Logo, as almas separadas são capazes de se relacionar com outras almas espirituais. Ora, nós, os vivos, também somos constituídos por uma alma espiritual. Logo, a única justificativa para que as almas separadas não entrassem em relação com os vivos é se elas estivessem em algum lugar distante, no qual elas não pudessem ter contato conosco. Mas isso foi negado no artigo anterior: elas não estão localizadas em algum lugar distante de nós. Logo, elas podem entrar em contato conosco, acompanhar nossa história e saber dos acontecimentos deste nosso mundo, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás responde de modo muito breve, quase impaciente, que não é por causa de distância que as almas separadas não podem saber o que se passa no nosso mundo, mas porque lhes falta a dimensão corporal, que as permitiria justamente se relacionar com este mundo.

3. Concluindo.

Assim, terminamos esta parte da Suma que trata da antropologia geral e passaremos, a partir do próximo texto, a estudar a própria criação do ser humano, assim como saiu das mãos de Deus; isto é, aquilo que era próprio do ser humano antes da queda. Isto é muito interessante, porque nos permitirá enxergar, a um só tempo, o projeto original de Deus para nós e, por outro lado, contemplar as consequências do pecado no ser humano.