1. Retomando.

As almas dos mortos não têm nenhuma capacidade natural de provocar fenômenos em nosso mundo; sobreviver é, de fato, uma capacidade natural dessas almas. Mas continuar a se relacionar aqui não é. Assim, dos muitos fenômenos que são atribuídos a manifestação de almas de mortos, é certo que sua causa não deve, em nenhuma hipótese, ser atribuída a alguma capacidade natural de manifestação, por parte dessas almas.

De fato, sabe-se hoje que, em sua imensa maioria, esses fenômenos decorrem de eventos psicológicos ou psiquiátricos, nem todos conscientes (muitos são fraudulentos mesmo), dos quais a ciência ainda não desvendou todos os mecanismos. Vale dizer, têm sua causa no mundo dos vivos, mesmo. Outros podem ser imputados a causas eletromagnéticas ou similares. Restam pouquíssimas que podem ser imputadas à capacidade de anjos e demônios. Por fim, ainda que alguns fenômenos possam de fato ser atribuídos a almas separadas (Nossa Senhora não conta, porque ela foi assunta ao céu e, portanto, experimentou antecipadamente a ressurreição e tem corpo, mas ainda assim são raríssimas as ocasiões em que a igreja identificou sobrenaturalidade em manifestações de Nossa Senhora), certamente não são fenômenos naturais, mas ocasiões em que houve uma permissão extraordinária de Deus para que esses fenômenos ocorressem. O que é tratado neste artigo, como Tomás dirá em sua resposta, é a capacidade natural, ordinária, das almas separadas, não os fenômenos extraordinários imputáveis a anjos ou demônios em nome dos mortos, nem as ocasiões extraordinárias em que Deus permite, por meios sobrenaturais, que esse contato exista. O fato é que não há relação entre os mortos e o mundo dos vivos, salvo as situações extraordinárias citadas.

Mas estamos nos alongando mais uma vez. Vamos à resposta de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

O estado natural da alma após a morte.

Não há possibilidade, diz Tomás, de que as almas, após a morte, possam manter qualquer tipo de relacionamento com o nosso universo material. Elas já não têm o único meio que possibilita ao ser humano a relação com este mundo: o corpo. Assim, já não tem como acompanhar o que acontece aqui, nem intervir de nenhum modo. São mentes, espíritos viventes sem capacidade de relação.

Seguem, no entanto, como criaturas, individualizadas, identificadas, e por isso carregam em si, como vimos nos textos anteriores, os conhecimentos intelectuais que adquiriram aqui. Tudo aquilo que assimilaram do nosso mundo, as coisas que conheceram e ficaram inscritas na alma, estas coisas permanecem após a morte. Assim, a alma sabe, mesmo após a morte, de tudo o que conheceu, mas já não pode entrar em contato nem acompanhar, mesmo aquilo que mais amou em vida. As relações que manteve aqui marcarão sua identidade por toda a eternidade, mas, sem o corpo, já não pode interagir.

Os debates entre os grandes mestres.

Esse modo de existir, como simples espírito, como mente separada de qualquer materialidade, é talvez muito difícil de imaginar para nós (poderíamos dizer que é realmente inimaginável). Privada de qualquer capacidade de relação para com este mundo material, qualquer inserção no espaço e no tempo é incompatível com esse novo modo de existir da alma sobrevivente, após a morte.

De fato, diz Tomás, é tão difícil pensar ou falar desse modo de existir que mesmo mentes tão brilhantes quanto São Gregório ou Santo Agostinho tiveram certas discordâncias a esse respeito. Todos concordam que, pelo seu próprio modo de existir após a morte, a alma já não tem capacidade de acompanhar a história, de agir neste mundo, de ter qualquer inserção de tempo ou espaço ou qualquer relação com o mundo material. Nessa sua nova existência espiritual, são capazes apenas de relações espirituais, o que envolve reconhecer as almas dos que igualmente já morreram, sofrer a ação dos anjos e demônios e, principalmente, ser recebido por Deus, que é amor infinito (embora, neste ponto, haja uma diferença entre os bem-aventurados e os demais, que trataremos a seguir). É natural para a alma separada, portanto, a relação com o mundo espiritual, que não é mais o mundo do tempo e do espaço, mas do puro pensamento. São Gregório Magno ensinou que os mortos já não podem saber sobre a vida humana daqueles que ainda não morreram; eles existem numa sobrevivência espiritual, que é de um gênero diferente da vida no corpo, e portanto também difere em capacidade de relacionamento. Santo Agostinho pensa do mesmo jeito, e disse, na sua obra sobre o Cuidado aos Mortos, que as almas dos mortos não podem manter contato com os vivos.

O conhecimento daqueles que morreram em santidade.

Há algum debate, diz Tomás, quanto às almas separadas daqueles que são bem-aventurados, isto é, que morreram em amizade com Deus, alcançando a santidade (que implica a visão beatífica, isto é, a união com Deus e a possibilidade de participar ativamente de Seu conhecimento maravilhoso).

Quanto a esses, portanto, parecem discordar São Gregório Magno e Santo Agostinho.

Realmente, São Gregório Magno ensina que, com relação às almas santas e seu estado de união com Deus pela visão beatífica, esta visão permite que elas possam ver tudo à luz de Deus. Assim, elas não podem ignorar nada, inclusive não podem ignorar, diz Gregório, aquilo que ocorre em nosso mundo, porque Deus não o ignora e elas podem participar ativamente do conhecimento de Deus.

Santo Agostinho, porém, na mesma obra sobre o cuidado aos mortos, defende expressamente que os mortos, mesmo quando são santos, não sabem o que fazem os vivos e os filhos dos vivos; de fato, essa reflexão de Agostinho fundamenta-se a Isaías 63, 16 (“Abraão não nos conhece”). Ora, a meditação de Santo Agostinho é muito interessante: ele lembra de sua mãe, Santa Mônica, e de quanto ela o amava. Ora, se sua falecida mãe, que morrera em estado de graça, não o visitava, nem o consolava em suas dores e angústias, como costumava fazer quando estava viva, isto não pode se dar por causa de alguma “piora” que ela tenha sofrido na morte, tornando-se cruel ou indiferente a ele. Ele está certo de que, se ela pudesse, viria visitá-lo e acompanhá-lo. Se não o faz, é porque não é algo compatível com o estado dela após a morte. Assim, os mortos, mesmo bem-aventurados, já não podem acompanhar a nossa história ou manter relações diretas conosco. E Agostinho também confirma esta conclusão com a passagem de 2 Reis 22, 20, em que Deus diz ao Rei Josias (que era um rei conhecido por sua santidade): “” vou reunir-te a teus pais e serás sepultado em paz no teu sepulcro, para que os teus olhos não vejam as calamidades que vou mandar sobre essa terra”. Portanto, há prova bíblica de que mesmo os bem-aventurados não acompanham a nossa história, conclui Agostinho.

Mas Agostinho não apresenta essas conclusões como algo de que ele tem plena certeza, e ele mesmo adverte aos seus leitores: “aquilo que eu digo sobre esse assunto, cabe ao leitor receber como quiser”. São Gregório, por outro lado, fala com muita autoridade, quando, na sua obra citada, conclui dizendo: “não se deve acreditar nisso”, ou seja, não se deve acreditar que os santos não tenham conhecimento sobre o que se passa aqui; embora esse conhecimento seja “em Deus”, ou seja, não por uma relação física com nosso mundo, mas pela participação na visão beatífica.

E é essa também a conclusão de Tomás. De fato, diz Tomás, na visão beatífica os santos podem ver todas as coisas em Deus e por Deus. Neste sentido, eles são semelhantes aos anjos; mas, enquanto os anjos possuem a capacidade para interferir diretamente na matéria, os santos não o possuem. Por outro lado, a visão beatífica, isto é, a capacidade de estar integrado em Deus e conhecer, conhecendo-o, todas as coisas, implica a felicidade perfeita e a completude existencial. Neste sentido, os santos não podem mais se entristecer, nem têm nenhuma razão para sentir-se atraídos pelos acontecimentos ordinários da história, senão na medida que exige a infinita justiça divina (ouvindo nossas orações e intercedendo por nós, por exemplo). Não há razão para que uma alma santa fique vagando aqui pela Terra ou participando de atividades de invocação e manifestação, portanto.

3. Encerrando.

Maravilha de resposta, riquíssima. É de se ressaltar o quão pouco conhecemos a realidade da vida após a morte, e o quão facilmente somos enredados por falsas doutrinas nesse particular.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.