1. Introdução.
Há alguns anos, eu escrevi um livro chamado “Cartas a Probo”, no qual eu reuni alguns debates que tive sobre certas doutrinas, digamos, “espiritistas”, como a reencarnação e a mediunidade. Esses debates acabaram me conduzindo a um processo forte de reconversão à fé católica, e o livro teve algum sucesso de vendas. Ainda está disponível para compra, creio.
Estudar Tomás foi um dos frutos desta redescoberta da fé católica.
Daí a importância para mim deste artigo de Tomás. Aqui, Tomás esclarece o estado natural da alma separada do corpo: aquele do rompimento de vínculos, da exclusão total da possibilidade de qualquer relação com a nossa realidade material, histórica, e com as pessoas vivas. Mas estou me adiantando.
Na verdade, o debate aqui é justamente este. Será que os mortos são capazes de se relacionar com este mundo, acompanhar o que se passa aqui, saber diretamente de nós e das coisas depois de mortos, influir de alguma maneira aqui?
Há um exercício empírico interessante para fazer, aqui: basta sentar-se tranquilamente em algum lugar, fechar os olhos e tentar estabelecer alguma relação com alguma coisa em volta de você sem usar de maneira nenhuma o corpo e os sentidos. É impossível. Somos incapazes, apenas com as forças de nossa natureza, de estabelecer qualquer relação com alguém ou alguma coisa sem usar o corpo. A única coisa que resta, a única relação que podemos estabelecer sem usar o corpo é rezar; mas, mesmo assim, não somos naturalmente capazes de perceber a resposta de Deus às nossas orações sem a iluminação do Espírito Santo. O que não muda o resultado da experiência.
Assim, se morremos, cessa toda a possibilidade de relação com o mundo material. Ou será que não?
Acompanhemos, então, esse interessante debate.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial vai provocar o debate afirmando que talvez as almas separadas tenham a capacidade de continuar a ter relação direta com este mundo, acompanhando-o, sabendo dele e mesmo influindo, por ações ou omissões atuais, nas coisas e nas pessoas daqui. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Ninguém pode se preocupar com aquilo que ignora, diz o argumento.
Mais uma vez, no entanto, um argumento objetor vai usar uma leitura literal da chamada parábola do Lázaro e do rico epulão para tentar confirmar noções equivocadas sobre a vida após a morte. Aqui, o argumento é retirado dessa mesma parábola, em Lucas 16, 27-28. ali, diz o Rico: “Rogo-te então, pai, que mandes Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para lhes testemunhar que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos.”
Ora, este trecho, diz o argumento, mostra que não somente o Rico é capaz de se preocupar com o destino dos seus irmãos que ainda estão vivos, e sabe que eles estão se comportando mal, como fica demonstrado também que Abraão poderia enviar Lázaro para fazer um contato “mediúnico” com seus irmãos, orientando-os a evitar as penas do inferno. Logo, as almas dos mortos podem se relacionar atualmente conosco e acompanhar diretamente a nossa história, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento também é bíblico, e também tenta comprovar a possibilidade de contatos mediúnicos entre vivos e mortos. De fato, a menção, aqui, é ao episódio narrado no Primeiro Livro de Samuel, 28, 8-15, no qual o Rei Saul faz uma vidente invocar o espírito de Samuel, que já estava morto. Ora, isso não seria possível se não existisse relação, influência e conhecimento entre os mortos e o mundo dos vivos, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor diz que, conforme vimos em artigos anteriores, as almas separadas são capazes de manter relacionamento entre si, e de se reconhecer. Ora, portanto, elas são capazes de reconhecer outras almas humanas, das quais estão perto. Ora, no artigo anterior, vimos que não podemos dizer que essas almas estejam “longe” daqui, já que a noção de distância física não se aplica a elas. Assim, elas podem conhecer e se relacionar efetivamente também com os vivos e com as coisas do nosso mundo, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra também traz uma citação da Bíblia; mas, neste caso, é um trecho bíblico que vai na direção contrária ao aparente sentido dos trechos já citados. Aqui, trata-se do Livro de Jó 14, 21, no qual Jó se lamenta pelo fato de que o ser humano é um ser infeliz e que, depois de morto, nem sequer sabe a respeito dos que ama e que ficaram no mundo dos vivos. Diz Jó: “Estejam os seus filhos honrados, e ele não o sabe; sejam eles humilhados, mas ele não faz caso”. Portanto, as almas dos que já morreram não sabem do nosso mundo, não acompanham mais sua história nem tomam conhecimento do que ocorre aqui, conclui o argumento.
5. Encerrando.
No próximo texto, examinaremos a bela resposta de Tomás a um tema tão importante, tão rico quanto este do contato com os mortos.
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