1. Voltando.

Ainda há quem pense que o céu e o inferno são locais físicos, e que a morte é só uma mudança de local. Há quem acredite que as almas separadas têm a capacidade de entrar naturalmente em contato conosco, e que são até mais espertas e penetrantes do que nós. Há quem acredite que nosso estado natural é o estado da alma separada, e que o corpo é uma espécie de “prisão” para onde fomos desterrados. Há muito platonismo nisso, há muita influência oriental, mas na verdade trata-se de crenças que não encontram seu acolhimento em Tomás. A morte é real, e nos fragmenta, ensina Tomás. O ser humano é composto de corpo e alma, numa unidade existencial. Com a morte, perdemos a dimensão física, rompemos todas as relações com este mundo e sobrevivemos como simples capacidade de pensar. Isso é difícil de imaginar, justamente porque nossa forma de pensar depende tanto da concretude da nossa imaginação. É por isso que Tomás insiste tanto, nos artigos desta questão, em pontos que parecem repetitivos e até um tanto incompreensíveis para nós.

Examinaremos, agora, as respostas dele aos argumentos objetores iniciais, neste artigo.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento cita Santo Agostinho, que na obra sobre o cuidado devido aos mortos, registra que as almas de quem já morreu não podem saber das coisas que se passam neste nosso mundo. Mas podem saber daquilo que se passa lá onde estão, entre elas próprias. Logo, é por causa da distância física que existe entre nós e as almas separadas que elas não sabem do que se passa aqui entre nós, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás simplesmente nos diz que não se pode ler, aí, que Santo Agostinho diz que é por causa da distância, ou por estarem em algum outro “lugar”, que as almas dos mortos não podem se relacionar mais com as coisas de nosso mundo. Ele simplesmente diz que elas não podem saber o que se passa aqui, mas isso ocorre por causa de um impedimento diferente daquele relacionado à distância física, como veremos no próximo artigo.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor busca sustento numa outra obra de Santo Agostinho, na qual ele trata do conhecimento dos demônios. Ali, ele afirma que o modo muito rápido que os demônios têm de se movimentar faz com que eles sejam capazes de revelar coisas que nos são desconhecidas”. Ora, prossegue o argumento, não adiantaria nada que eles fossem muito rápidos se isto não estivesse relacionado ao fato de que eles têm que estar perto das coisas que desejam conhecer; assim, como se movimentam muito rápido, são capazes de conhecer coisas que estão além da mera capacidade humana de se mover. Ora, a alma humana, mesmo separada, é inferior, em capacidade, aos demônios. Logo, é por estarem num lugar distante, incapazes de se deslocar até aqui, que elas não são mais capazes de conhecer as coisas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Santo Agostinho parece ter sido influenciado, nesse trecho, por aquelas correntes que defendiam que os demônios seriam seres com algum tipo de corpo sutil, mas material, que os comporiam. Assim, eles seriam, como nós, seres materiais, embora mais poderosos, mas dependeriam também de algum tipo de exame sensorial das coisas, de tocá-las e investigá-las, para conhecê-las. Por isso, precisariam estar fisicamente perto das coisas com as quais desejassem se relacionar. Não dá para saber, no entanto, se Agostinho concorda com essa ideia ou se apenas a menciona, aqui e em outra obra (Cidade de Deus). O fato é que os demônios, que são anjos, não têm nenhuma dimensão material. São seres puramente espirituais, e por isso a noção de “longe” e “perto” não se aplica a eles, conclui Tomás. Como não se aplica às almas separadas.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor quer fazer uma analogia entre a distância física e a distância temporal. Do mesmo modo que as almas separadas não conhecem o futuro, porque estão longe dele cronologicamente, elas tampouco conheceriam as coisas daqui, por estarem longe delas fisicamente, propõe o argumento.

A resposta de Tomás.

As coisas futuras ainda não existem efetivamente, ou seja, são apenas potenciais, não atuais. Portanto, não podem ser conhecidas em si mesmas, simplesmente porque ninguém pode efetivamente conhecer aquilo que ainda não existe. O que não tem existência não tem o ser em ato, e portanto não tem inteligibilidade. É por isso que nenhuma criatura, seja ela anjo, alma separada ou ser humano vivo, pode conhecer o futuro; não é uma deficiência na capacidade de conhecer, mas uma impossibilidade de ser conhecido. Não se pode conhecer o que não existe ainda.

Mas com a distância física a situação é muito diferente: trata-se, aqui, de duas coisas que existem em ato, mas estão em pontos geográficos afastados. A limitação de conhecimento decorre da dificuldade de contato, não da inteligibilidade do objeto, como no caso da distância temporal. Portanto, a analogia não funciona, nem consegue provar que as almas separadas estão longe ou perto daqui, conclui Tomás.

3. Concluindo.

Precisamos parar de pensar na sobrevivência das almas humanas com a utilização da noção de “lugar”. Não se trata de perguntar onde elas estão, como se elas estivessem localizadas em algum ponto físico do nosso universo, mas distantes de nós. A existência da alma separada, como ente puramente espiritual, não envolve lugar, no sentido físico mesmo. É muito difícil para nós imaginar isso.