1. Introdução.
A morte nos retira do tempo e do espaço. E este é um conceito muito difícil de compreender para a nossa mente humana, eminentemente temporal e espacial. Se, como já mencionamos em outros textos, é muito difícil para nós pensar em noções altamente abstratas e intelectuais como ade dimensões espaciais acima da terceira, ou mesmo no modo de existir dos anjos, igualmente não é fácil conceber que nossa mente possa ser cortada da história, da situação local e temporal, e continuar existindo em outra dimensão, a dimensão espiritual. Ali, como já vimos no começo da Suma, existe a sucessão de eventos mas não o tempo no sentido de movimento da matéria – já que não há matéria.
Existe, então, e sempre existiu, a tendência a imaginar que as almas separadas são levadas para outro “lugar”, algum tipo de “céu” distante daqui no sentido geográfico mesmo. Ou seja, as almas dos que já morreram existem em nosso universo mesmo, só que fisicamente longe de nós, num “lugar” que podemos chamar de “céu” ou “inferno”. Neste sentido, uma leitura rasteira de obras como a “Divina Comédia” de Dante não ajuda: há, ali, a ideia de que “céu” e “inferno” também são lugares físicos no interior do nosso universo. Não são.
No presente artigo, debateremos justamente esta noção, a de que a alma separada está em algum lugar, embora distante, e por isso não entra em contato conosco. É um tema interessantíssimo, porque nos permitirá evitar esse erro de imaginar o céu e o inferno como “lugares” no sentido geográfico, e não como condições espirituais. Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, aqui, é a de que a morte leva a nossa alma a algum lugar muito longe daqui, embora seja, também, um “lugar” no sentido geográfico, físico, mesmo. E exatamente por ser um lugar geograficamente muito distante, inacessível por meios normais, é que a alma separada não pode saber o que se passa aqui, nem entrar em contato com as coisas e as pessoas deste mundo. Em suma, a alma separada não entra em contato com as coisas deste mundo e conosco simplesmente porque está longe de nós, no sentido físico. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
No livro que escreveu sobre o cuidado devido aos mortos, Santo Agostinho registra que as almas de quem já morreu não podem saber das coisas que se passam neste nosso mundo. Mas podem saber daquilo que se passa lá onde estão, entre elas próprias. Ora, elas estão perto umas das outras, mas longe de nós. Logo, é por causa da distância física que existe entre nós e as almas separadas que elas não sabem do que se passa aqui entre nós, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Santo Agostinho também escreveu um livro sobre o conhecimento dos demônios, no qual ele afirma que “os demônios, por se moverem de modo extremamente rápido, são capazes de nos revelar coisas que nos são desconhecidas”. Ora, a velocidade tem relação com a distância entre as coisas. Se o fato de que os demônios são capazes de se mover muito rapidamente leva-os a conhecer coisas aqui e ali, significa que eles só podem conhecer aquilo que está perto deles, ou seja, aquilo que eles podem estabelecer uma relação de contato. Assim, se os demônios, que são superiores às almas separadas, precisam se deslocar fisicamente para conhecer outras coisas que estão longe deles, é porque eles não podem conhecer o que está longe sem se aproximar. Se as almas separadas são inferiores em natureza aos demônios, e os demônios não podem conhecer o que está longe, então a razão pela qual as almas separadas não podem continuar a se relacionar com este mundo é porque elas estão em algum lugar fisicamente distante daqui, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Há duas maneiras pelas quais dizemos que as coisas estão longe uma da outra: ou elas estão em pontos geográficos muito distantes, e portanto estão fisicamente distantes, ou estão em momentos históricos diferentes, ou seja, estão cronologicamente distantes, como, por exemplo, Sócrates está distante, no tempo, de nós. Ora, a alma separada não consegue saber do futuro, isto é, não conhece aquilo que está temporalmente distante dela. Assim, a razão pela qual ela não consegue saber das coisas deste mundo é que elas estão geograficamente distantes de nós, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra quer mostrar que há alguma razão de autoridade para não aceitar a hipótese controvertida inicial. Mais uma vez, como em vários artigos nesta questão, ela vai buscar a parábola de Lázaro e o Rico Epulão (Lucas 16, 19-31). A parábola contada por Jesus registra que, estando no abismo da morte, o Rico, levantando os olhos, viu Abraão de longe”. Ora, se a ama do rico, após a morte, consegue ver Abraão, mesmo de longe, então não é a distância física que impede a alma separada de tomar conhecimento das coisas, conclui o argumento.
5. A resposta sintetizadora de Tomás.
Houve quem dissesse, diz Tomás, que a alma separada é capaz de examinar todas as coisas que existem em nosso universo, captar nelas as informações sensíveis, como por exemplo a cor, o peso, a figura, o cheiro e, a partir daí, abstrair os conhecimentos intelectuais que se relacionam com elas. Em resumo, as almas separadas não somente permaneceriam em nosso mundo local, como seriam capazes de continuar a se relacionar normalmente com ele, aprender sobre ele e acompanhar a caminhada das coisas na história. Para isto, é claro que ela teria que entrar em contato físico com as coisas que deseja explorar, examinando-as para conhecê-las. Neste caso, a única explicação para o fato de que elas não estão aqui e agora é que elas estão em algum lugar distante, isolado, que as impede fisicamente de entrar em contato conosco.
Mas essa explicação não faz sentido. De fato, com a morte, o corpo é destruído, e a nossa sobrevivência é puramente espiritual. Assim, a alma separada simplesmente não possui instrumentos para entrar em contato com o nosso mundo: não tem os órgãos dos sentidos, não tem a dimensão física que lhe permitisse qualquer relação com as coisas materiais. Falta-lhe, pois, simplesmente, os meios para explorar e se relacionar com o mundo.
Assim, resta à alma separada a sua relação com Deus, que não decorre de nenhuma qualidade física, mas do amor que Deus tem por todas as criaturas, em especial pelas criaturas espirituais como nós. Assim, a alma só é capaz de conhecer as coisas materiais, deste mundo, por intermédio da iluminação que o próprio Deus lhe fornece, e que não tem nenhuma relação com estar perto ou longe: não se trata, pois, de estar “perto” ou “longe”, mas de um modo diferente de existir e de se relacionar.
6. Encerrando.
No próximo texto, complementaremos nosso debate examinando as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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