1. Retomando.
Certamente, nossa alma separada já não pode aprender, porque já não pode experimentar. Já não pode aprender aquilo que é próprio deste mundo material, da história, do universo; mas certamente terá muito o que descobrir daquele mundo espiritual em que ingressará. Não poderá mais fazer escolhas, optar, porque não deixará mais de ser aquilo que é. Em certo sentido, a morte representará, para a alma que sobrevive, a perda da ilusão do protagonismo na condução da própria existência, no sentido de que, desprovida do corpo e desnuda perante Deus, o protagonismo será retomado por aquele que nunca o perdeu, ou seja, Deus.
Mas o que significa “continuar a ser aquilo que se é”? Nós já vimos, nos últimos textos, como a nossa alma continua a ter, em si, todos os conhecimentos intelectuais que adquiriu na vida. Mas estes conhecimentos significariam muito pouco se não pudessem ser usados, se a alma não pudesse pensar por si, e pensar usando as próprias ideias que adquiriu em vida. De modo análogo àquele pelo qual um grande cientista continua a ser um cientista mesmo quando está dormindo, se não pudéssemos usar nossas próprias ideias, nosso próprio conhecimento adquirido para pensar, mesmo depois da morte, então a morte seria comparável a um grande sono, uma grande noite, e não ao prosseguir de uma vida espiritual que tem seu significado na relação com Deus.
Estudemos, então, as respostas de Tomás aos problemas apresentados neste artigo.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
O ato humano, ou seja, tudo aquilo que alguém faz, tem duas dimensões: o objeto, ou seja, aquilo que está sendo feito (poderíamos dizer também: qual espécie de ato está sendo feito), e o modo, ou seja, como está sendo feito.
O objeto do ato, ou espécie, é determinado por aquilo a que o ato se dirige. Quando eu olho para uma pedra, o ato que estou praticando é o de olhar uma pedra, porque ele é especificado pelo objeto, que é a pedra que eu olho. Não posso olhar para uma pedra e dizer, por exemplo, que estou observando pássaros. A species da pedra, que é a sua similitude, está, de certo modo, na pedra, e está, de certo modo, no olho que a observa. Isso determina a espécie de ato que estou realizando: observando pedras.
Mas esta não é a única dimensão do ato. A outra dimensão que o identifica é o modo, ou seja, a maneira como esse ato está sendo realizado. Posso olhar a pedra sem os meus óculos, e mal a verei, mas posso olhar com uma lupa, e nesse caso perceberei todos os detalhes.
Portanto, o objeto do nosso pensamento, após a morte, será o mesmo: a ciência que adquirimos durante a vida, isto é, os conhecimentos que adentraram nossa mente e ali ficaram. Mas o modo pelo qual pensaremos será diferente: não poderemos mais recorrer às memórias concretas, que se perderão com a morte, nem à imaginação, que é o tesouro das sensações que acumulamos durante a vida. Os nossos pensamentos, então, terão os mesmos objetos que tinham em vida, mas não funcionarão do mesmo modo.
Para nossa surpresa, porém, a resposta de Tomás termina aqui. Ele poderia ter ido um pouco mais além, de tal modo que pudéssemos saber que maneira será esta de pensar, própria da mente de quem já morreu. Mas não o fez. É de se presumir, pelo que ele falou nos artigos anteriores, que dependeremos da iluminação de Deus, ou mesmo da relação com os anjos, para suprir toda essa falta que o corpo fará. Somente na ressurreição dos mortos, quando teremos corpos espirituais, é que recuperaremos uma autonomia plena no pensar, no descobrir e no explorar, mas isso já num universo recapitulado, recriado em Deus, como narra o Apocalipse. Mas Tomás não nos detalhou aqui. O fato é que, após a morte, já não estaremos sujeitos ao engano das memórias pessoais, tão seletivas: pensaremos sob a luz da verdade. Se isto será alegre ou triste, dependerá da situação pessoal da própria alma frente a verdade.
3. As respostas específicas aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Agora, reexaminaremos os argumentos objetores, com as respostas de Tomás a eles. Isto sempre nos enriquece muito, e sempre complementa a resposta sintetizadora.
O primeiro argumento diz que Aristóteles ensinou que, uma vez destruído o corpo, a alma já não pode lembrar nem desejar. Mas lembrar, diz o argumento, é pensar naquilo que antes se conhecia. Assim, conclui o argumento, a alma separada não é capaz de pensar efetivamente, em ato, nas coisas que conhece apenas em hábito.
A resposta de Tomás.
Aristóteles está tratando daquela memória que se encontra no cérebro, e que diz respeito às imagens, às sensações e às situações concretas já vividas. A memória sensorial, histórica, singular. Ele não está falando daqueles dados que estão inscritos na própria alma, pelo conhecimento intelectual; esse conhecimento faz com que “a alma se torne, de certo modo, todas as coisas”, como diz o próprio Aristóteles na obra Sobre a Alma. Quando conhecemos intelectualmente, as coisas, por suas ideias universais e abstratas, vêm a ser assimiladas pela alma, como que aumentando-a. Assim, esse tipo de conhecimento não é apagado pela morte. É deste tipo de conhecimento que estamos falando aqui.
O segundo argumento objetor.
A morte é algo que traz um prejuízo ao ser humano: rompe sua unidade integral, e a sobrevivência é apenas parcial, da estrutura imaterial. Por outro lado, o ser humano completo, integral, precisa das ideias e das experiências para pensar; as ideias abstratas e universais não são suficientes para viabilizar o pensamento, sem o recurso à memória concreta e à imaginação.
Ora, no ser humano fragmentado, ferido pelo estado de incompletude resultante da morte, não há mais memória ou imaginação. Assim, não se pode admitir que as ideias assimiladas (species) das coisas que foram conhecidas intelectualmente sejam mais eficientes para possibilitar o pensamento do que no ser humano vivo. De fato, se, no ser humano vivo, as species não são suficientes para possibilitar, por si mesmas, o pensamento, então tampouco na morte elas o serão. Assim, na morte, a alma sobrevivente simplesmente não consegue transformar em ato o seu conhecimento intelectual habitual, porque não dispõe mais de memória concreta nem de imaginação, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Como já foi dito, as ideias que estão presentes, em hábito, na alma, em viva, são as mesmas que estão presentes, em hábito, na alma separada. Assim, o objeto ou espécie de pensamento é o mesmo, tanto em vida como separada. Mas o modo de pensar é diferente. Na morte, não poderemos recorrer ao nosso próprio depósito de experiências existenciais, consistente na memória concreta e na imaginação, para pensar. Mas isto não significa que seremos incapazes de pensar, mas apenas que pensaremos de outro modo.
O terceiro argumento objetor.
Como vimos, na Ética a Nicômaco Aristóteles nos ensina que os hábitos são adquiridos pela prática constante de atos que nos levam à perfeição da virtude. Os atos pelos quais se adquirem as virtudes são paralelos, similares portanto, àqueles atos que são realizados em razão da própria virtude adquirida. Assim, por exemplo, quando pratico atos justos, consciente e repetidamente, estou me habituando a ser justo; logo, adquiro a virtude da justiça, o que me levará a praticar atos justos de maneira alegre, fácil, repetida e perfeita.
Ora, o modo de adquirir o hábito da ciência, isto é, de adquirir os conhecimentos intelectuais, é o exame das coisas materiais pelos sentidos, que leva à formação de imagens na memória, de tal modo que o nosso intelecto agente pode extrair delas, por abstração, as ideias universais e abstratas (species) e assimilá-las em nossa mente.
Ora, se o ato que resulta do hábito tem que ser similar àquele pelo qual o hábito é adquirido, então o uso do conhecimento intelectual pela mente, na forma de pensamento efetivo, deve seguir o mesmo caminho da aprendizagem: o intelecto usa as imagens da memória, relativas aos sentidos, para conseguir pensar a respeito dos conhecimentos intelectuais que adquiriu. Mas, depois de mortos, já não temos sentidos, nem memória, nem imaginação. Assim, não podemos mais pensar nos conhecimentos intelectuais que adquirimos como hábitos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Lá na resposta sintetizadora, nós vimos que os atos humanos têm duas dimensões: o seu objeto ou espécie, que é a própria ideia da coisa conhecida, e o modo pelo qual se realiza. Assim, de fato, a aquisição do conhecimento tem o mesmo objeto que a utilização do conhecimento adquirido: se eu aprendo sobre animais, pensarei depois sobre animais, e não sobre, digamos, pedras. Neste sentido, a regra de que o ato do exercício do hábito é análogo ao ato de sua aquisição é perfeitamente adequado e aplicável.
Mas quanto ao modo não é assim. Porque, quando estamos vivos, de fato nós usamos o conhecimento intelectual pelo mesmo modo com o que o adquirimos: valendo-nos das informações sensoriais organizadas e armazenadas na memória concreta, que é a imaginação. Mas, depois de mortos, não temos mais a capacidade de aprender, porque não temos mais os órgãos corporais dos sentidos ou da memória. Assim, tampouco há qualquer paralelismo entre aprender e pensar, depois da morte: há, aqui, uma maneira nova, completamente diferente, de pensar, que se relaciona com os conhecimentos armazenados em vida e a nossa relação com Deus e com os anjos (santos ou não). Portanto, o argumento falha, ao desconsiderar essa mudança de modo de pensar na alma separada.
4. Conclusão.
Longo e belo artigo. Mas Tomás nos deixou em suspense: poderia ter tratado mais, aqui, sobre o modo específico de pensar, de tornar ato o nosso hábito de conhecimento após a morte. Esse conhecimento ficou diluído em outras partes de sua obra.
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