1. Introdução.

Após a morte, como vimos, perdemos todas as capacidades corporais, inclusive a memória concreta de tempo e lugar, e imaginação e a capacidade de interagir com aquilo que está inserido no tempo e no espaço. Restam-nos, então, os conhecimentos intelectuais, que ficam em nós como hábitos, e a nossa identidade, garantida pelas nossas relações e, em especial, pela nossa relação com Deus.

Antes de prosseguir, é bom lembrar um pouco a noção de ciência, a noção de conhecimento intelectual no pensamento de Tomás, porque talvez ela não seja mais tão familiar, hoje. Para nós, a palavra virtude adquiriu um caráter moral muito forte, de tal modo que nos parece estranho falar da ciência adquirida, dos conhecimentos científicos que estão na nossa mente, como “virtudes intelectuais”. Mas eles o são.

Para Tomás, na linha de Aristóteles, nós podemos adquirir, ao longo da vida, virtudes morais, que aperfeiçoam nossa conduta, nossas inclinações, de tal modo a nos tornar pessoas melhores, capazes de fazer o bem com perfeição e alegria. Mas os conhecimentos intelectuais que adquirimos, quer por nosso próprio contato com o mundo, quer por recebermos algum tipo de instrução e educação, formam “virtudes intelectuais” em nós. Isso faz sentido: o conhecimento é um hábito, um hábito bom que deve ficam em nossos intelectos e em nossos corações, não em livros, computadores ou bancos de dados. Não adianta, por exemplo, construir uma bela universidade, com uma linda biblioteca, com acesso pleno à rede mundial de computadores e aos melhores bancos de dados se não houver, ali, pessoas que assimilaram em suas próprias mentes toda essa informação e são capazes de utilizá-la e transmiti-la. Muito mais do que os recursos de acúmulo de informações e pesquisa, são as mentes que fazem e transmitem a ciência. O dinheiro pode montar a melhor universidade do mundo, mas somente os seres humanos que se dedicam a estudar, pesquisar, aprender e transmitir podem realmente fazer, dessas universidades, verdadeiros centros de conhecimento.

Neste sentido, é fácil perceber a razão pela qual o conhecimento propriamente intelectual é um hábito, em nós. Ele é mais do que uma mera potência, porque a potência, no caso do intelecto, é a ignorância. Mas ele é menos do que o ato: nem sempre, por exemplo, o professor de matemática está fazendo contas. Às vezes ele está dormindo, às vezes está almoçando ou se divertindo a jogar bola com os amigos. Nesses momentos, a matemática que ele conhece não está em ato, porque não está sendo efetivamente usada. Mas nem por isso a sua mente volta a estar em mera potência: um matemático que não está fazendo contas, que está almoçando ou dormindo, continua sendo um conhecedor da matemática, mesmo quando não está fazendo uso dela. Esta situação, em que a ciência está presente na mente, mas não em uso, corresponde justamente à definição de hábito. O hábito é aquele tesouro que permanece na alma, retirando-a da mera condição de potência, mas sem necessariamente se constituir, a cada momento, em ato. Ora, os bons hábitos da alma podem ser chamados de virtudes, mesmo que não sejam, a rigor, hábitos morais. É o caso dos hábitos intelectuais.

No artigo anterior, vimos que esse hábito, esse tesouro de conhecimentos intelectuais que a mente alcança em vida, passa a se incorporar nela, e permanece nela mesmo após a morte. O conhecimento faz com que a alma cresça, de certo modo, e se incorpora a ela indelevelmente, mesmo após a morte (sem que isso seja, como vimos também, uma vantagem para a alma do ponto de vista da santidade: o que nos torna santos não é o conhecimento intelectual que acumulamos, mas o amor que conseguimos viver; há santos com pouca ciência, como há pessoas muito cheias de conhecimentos e que não sabem amar).

Mas o hábito é como um ponto médio entre a potência e o ato. Um professor de matemática que dorme continua tendo o hábito da matemática, mas não realiza seu ato enquanto dorme. Portanto, após estabelecer, no artigo anterior, que os hábitos de conhecimento intelectual permanecem após a morte, o debate, agora, é a respeito dos atos pelos quais os conhecimentos intelectuais são efetivamente usados por nós. Será que, depois de mortos, continuaremos capazes de realizar os atos relativos aos conhecimentos intelectuais que estão habitualmente em nós? Será que o matemático, mesmo depois da morte, será capaz de pensar matematicamente, de realizar seus cálculos, ou o linguista será capaz de usar suas categorias gramaticais, ou o biólogo será capaz de pensar nos seres vivos? Ou a morte nos colocaria num estado semelhante ao sono, no qual os hábitos intelectuais persistem mas não podem ser usados? É este o debate, aqui.

Já sabemos que o pensamento humano não é um ato puramente intelectual, como é o os anjos. Para pensar, nós sempre temos que recorrer à nossa memória concreta, à lembrança dos estímulos sensoriais que correspondem ao que está sendo pensado, de tal modo que mesmo o assunto mais abstrato depende desse modo humano de pensar, para ser próprio de nossa mente. O matemático que discorre, por exemplo, sobre dimensões adicionais, como a quarta ou a quinta dimensões, que são calculáveis mas não imagináveis, precisa, mesmo assim, recorrer à analogia com as dimensões conhecidas e perceptíveis para formar uma linguagem válida sobre esses conceitos, para raciocinar sobre eles e manipulá-los. Como seria possível fazer isto numa situação em que nossa imaginação e nossos conhecimentos sensíveis já não estão acessíveis? Isto seria assunto para um tratado filosófico, e certamente apenas um artigo da Suma não seria capaz de esgotar esse debate. Mas certamente é capaz de nos provocar e nos estimular muito a pensar. Inclusive porque, mesmo pensando sobre a possível situação da alma após a morte, somos capazes de discernir melhor como ela se comporta em vida.

Enfim, essa introdução ficou muito longa. Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida admite que o conhecimento intelectual adquirido em vida permanece, de fato, na alma após a morte, como hábito, mas a alma já não teria condição de transformar esse hábito em ato, isto é, já não seria capaz de articular esse conhecimento, usá-lo efetivamente, transformá-lo em pensamento efetivo. Ou seja, a ciência adquirida em vida fica em nós como hábito, mas não se transforma em ato, propõe a hipótese. São três os argumentos no sentido desta primeira hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Aristóteles que, no Livro 1 da obra Sobre a Alma, expressamente diz que, destruído o corpo, a alma já não é capaz de lembrar ou de intencionar. Ora, prossegue o argumento, lembrar consiste justamente em pensar no que se sabia. Portanto, se a alma separada não consegue lembrar, ela também não é capaz de pensar naquilo que conhecia antes de morrer, ou seja, não é capaz de transformar em ato os conhecimentos intelectuais que estão nela em forma de hábito, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O nosso conhecimento intelectual se caracteriza pela assimilação, em nosso intelecto, das estruturas formais daquelas coisas que experimentamos, ou seja, de suas ideias abstratas e universais; assimilamos as essências das coisas em sua imaterialidade; o nome técnico para esses objetos do intelecto é species. Quando um biólogo estuda os cães, por exemplo, não são os próprios cães que estão em sua mente, por sua ciência; mas tampouco há, ali, simples conceitos ou definições arbitrárias dos cães, ou palavras que atribuímos a eles, nem meras imagens dos cães. Existe, na ciência, a assimilação, pela mente, da species, ou seja, da mesma estrutura que está nos cães e os organiza como seres existentes e inteligíveis.

Ora, a presença da species, como já vimos, não é suficiente para que pensemos naquilo que é objeto de conhecimento. No pensamento de pessoas vivas, precisamos recorrer à imaginação, à memória das experiências concretas que tivemos com os cães para conseguir pensar neles. Estes dados da imaginação, na memória, que resultam da nossa experiência com o mundo, são chamados de phantasmata, ou fantasmas.

A morte, na verdade, é um prejuízo, uma ferida que destrói a unidade do ser humano e o prejudica existencialmente. Assim, não podemos acreditar que, após a morte, nossa capacidade de pensar seja maior do que aquela que teríamos em vida. Se não conseguimos efetivamente pensar, em vida, apenas com as species, mas precisamos dos fantasmas da imaginação para pensar, no estado da morte tampouco conseguiremos pensar, porque já não haverá a memória, nem a imaginação, para nos fornecer fantasmas. Assim, não poderemos transformar em ato, em efetivo pensamento, aquilo que carregamos como conhecimento intelectual habitual, após a morte, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

No Segundo Livro da Ética a Nicômaco, ensinando sobre a aquisição e o exercício das virtudes, Aristóteles nos esclarece que os hábitos produzem atos similares àqueles pelos quais eles foram adquiridos. Se, por exemplo, adquirimos o hábito da justiça por meio da prática continuada de atos justos, então o hábito da justiça causará, em nós, a prática de atos justos, similares àqueles pelos quais essa virtude foi adquirida.

Ora, o conhecimento é adquirido por maio de atos que envolvem as capacidades corporais, como os sentidos, a memória e a imaginação, que resultam na formação daquelas imagens organizadas, em nós, que os filósofos chamam de fantasmas ou phantasmata. Portanto, para pensar no conhecimento adquirido, também precisamos nos voltar para esses fantasmas, recorrendo ao conhecimento sensorial, de modo similar ao processo pelo qual adquirimos o conhecimento.

Mas a alma separada já não pode aprender, porque já não dispõe das capacidades corporais, como os sentidos, a memória e a imaginação. Então, pelo princípio da similitude entre os atos pelos quais se adquirem os hábitos e aqueles pelos quais os atos se exercitam, uma vez que não pode mais adquirir conhecimentos, porque não tem corpo, a alma separada também não pode usar os conhecimentos adquiridos, porque não tem corpo. Então a alma separada não pode pensar, mesmo naquelas coisas de que tem o conhecimento habitual, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai usar, mais uma vez, a parábola do Lázaro e do Rico Epulão (Lc 16, 19-31) para tentar estabelecer princípios bíblicos a respeito da vida após a morte. Neste ponto, é bom lembrar que esta passagem da Bíblia não é uma descrição factual, mas uma parábola, e portanto não deve ser tomada como a descrição histórica de um fato revelado, mas apenas como uma ilustração para algum ensino catequético de Jesus. No entanto, ela pode revelar, de fato, a maneira pela qual o próprio Jesus e seus discípulos entendiam a vida após a morte.

De fato, nesta parábola, o Rico Epulão é retratado como alguém que está no abismo, mas é capaz de dialogar com Abraão. E mais, ele recebe diretamente de Abraão a ordem de pensar, de exercitar a mente para lembrar da sua situação em vida: “Lembra–te que recebeste bens em tua vida”, diz o versículo 25 deste capítulo, demonstrando que, naquele contexto, o Rico Epulão seria capaz de utilizar-se da capacidade de pensar nas coisas que conheceu em vida. Assim, o argumento conclui que essa capacidade existe na mente das almas dos que já morreram.

5. Encerrando.

No próximo texto, examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás e as respostas que ele dá aos argumentos objetores iniciais.