1. Voltando para finalizar.

A misericórdia de Deus nos abraçará na morte. Essa é a nossa sobrevivência. Será uma bênção, se estivermos reconciliados com ele, e na medida dessa reconciliação. Mas será uma dor, ao mesmo tempo, porque exporá e nos confrontará com todas as nossas feridas, todos os nossos desvios, todas as opções erradas que fizemos na vida. E isto ocorre naturalmente: não é algo sobrenatural. Preparemo-nos.

Não depende de crença ou religião. Todos nós nos depararemos naturalmente com essa sobrevivência após a morte, na qual não haverá mentira, nem engano. E o faremos com nossa própria identidade. Sem o corpo, sem os sentidos, sem nossa própria memória existencial, mas diretamente iluminados pelo amor infinito de Deus, que tornará evidente nossa própria personalidade. E sujeitos aos anjos. Santos ou não. Quer dizer, é melhor que sejam os santos. Também os que já morreram estarão lá, e poderão se relacionar conosco.

Vimos, nos textos anteriores, como a permanência da identidade se dá pela relação, e como essa relação, cultuada já em vida, é o que possibilita a memória após a morte. De certa forma, aqui, realiza-se aquele velho ditado: nós nos tornaremos aquilo que nós adoramos. Se adoramos, em vida, a Deus, assim como Ele se fez revelar, estaremos com ele, e nossa identidade estará nele. Mas se adoramos o mal, ou se adoramos a nós próprios, então nos tornaremos joguetes nas mãos do mal – ou, desprovidos dos meios de exercer qualquer poder sobre o mundo, pela radical ruptura com o corpo, nos tornaremos patéticas autoconsciências encravadas na duração infinita, objetos passivos da maldade alheia que, acreditávamos, poderíamos controlar. Não poderemos.

Resta-nos, pois, um intelecto fragmentado, isolado, que não tem mais a capacidade de agir. Mas que tem a possibilidade de ser agido, de ser objeto da ação dos outros, de sofrer a iniciativa alheia de buscar relações. Pura passividade pensante, então.

Tudo isto é muito sério. Mas tudo isto pressupõe que, após a morte, é a relação que nos devolve a capacidade de pensar em nós mesmos e, acima de tudo, estabelecer memória e identificar os outros (inclusive o próprio Deus que, embora ligado a tudo e capaz de amar a tudo, verá a todos, mas somente será visto por quem o ama também. Mas isto é assunto para outra parte da Suma). Por enquanto, interessa-nos o processo natural pelo qual toda alma passa na morte, e não, neste momento, a salvação sobrenatural que a graça nos oferece ainda em vida.

Examinemos, fortes nessa esperança, as respostas de Tomás sobre as objeções iniciais colocadas neste artigo.

2. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O que resta em nós depois da morte? O corpo não sobrevive, como é óbvio; com ele, morrem todas as capacidades sensoriais, como a visão, o tato, o olfato, etc., além dos sentidos internos, como o sentido comum, a memória, a estimativa ou capacidade de previsão e a imaginação, na qual os dados concretos resultantes da exploração do mundo são guardados. Tudo isso se perde, toda a nossa capacidade de nos inserir no mundo, no aqui e agora da história, no tempo e no espaço, e até a capacidade de lembrar das experiências concretas que tivemos e de estabelecer ativamente relações com qualquer outro ser. Até nossa capacidade de verbalizar, de falar, de manifestar nosso interior, fica eliminada. É impossível a um morto buscar ativamente qualquer relação com qualquer outro ente ou realidade externa a si mesmo.

Ora, uma vez que o corpo (e suas faculdades como os sentidos, memória, etc.) representa a única dimensão que nos possibilita a relação e o conhecimento do que é singular, concreto, individual, e o intelecto é responsável apenas pelo conhecimento das ideias, do abstrato, do universal e indistinto, então a morte nos retira toda a capacidade de sequer conhecer, de lembrar, de estabelecer relações com aquilo que é individual, concreto, singular, no mundo dos entes criados. Portanto, podemos dizer que a alma separada, que é a mente dos que já morreram, não lembra, não conhece, não é capaz de lembrar das coisas singulares, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, pelo caminho ordinário da aprendizagem, que é o caminho da alma em vida terrena, cabe ao intelecto o conhecimento daquilo que não é singular, que não é concreto, que é universal e abstrato, e portanto indistinto. Mas a marca de que este conhecimento, em nós humanos, sempre surge pelo exame empírico do mundo, resta inscrita em nossa mente; um sinal disso é o fato de que a nossa mente precisa sempre recorrer à memória sensorial para efetivamente conseguir lidar com ideias e conceitos abstratos: num sentido muito próprio, muito humano, podemos dizer que, mesmo intelectualmente, temos a consciência de que nosso conhecimento intelectual nasce e vive do contato com o singular, vale dizer, a mente humana sabe do singular, ao menos como referência indispensável para o seu próprio pensar.

Assim, após a morte, quando a nossa mente dependerá da própria luz divina para acessar a sua própria história, a intuição de que a nossa capacidade de pensar decorre daquelas situações e coisas singulares, com as quais mantivemos relação em vida, manter-se-á como parte da nossa própria identidade humana sobrevivente. Portanto, a luz de Deus permitirá que nos lembremos da nossa história, das coisas que conhecêramos em vida, das situações e entes singulares com os quais nos relacionamos concretamente. Então nossa mente será, sim, capaz de pensar nas coisas singulares que fizeram parte da nossa própria experiência, ao longo de nossa história, mas já não será capaz de estabelecer novas relações com coisas que não conheceu pessoalmente.

O segundo argumento objetor.

O conhecimento das ideias, das species, ou seja, da própria estrutura abstrata das coisas, é algo indistinto, plúrimo, abstrato; o conhecimento dos singulares, por outro lado, é determinado, distinto, concreto. Por exemplo, se conheço a planta, o projeto, que vai gerar todas as casas de um grande conjunto habitacional, tenho um conhecimento abstrato, indistinto, de todas essas casas: sei como serão os quartos, a cozinha, os banheiros; mas somente visitando cada casa, depois de construída, é que saberei de modo determinado, concreto, como cada casa foi construída, que materiais foram usados, que cores foram colocadas, que decoração foi feita e que família mora ali.

Ora, prossegue o argumento, a iluminação que a alma recebe após a morte é uma iluminação a partir de ideias divinas, portanto ideias muito universais e abstratas, profundas e abrangentes, adequadas ao conhecimento de Deus e dos anjos, mas elevadas demais para a mente humana; elas não nos darão sequer os detalhes que distinguem claramente umas ideias de outras a ela próximas. Ora, se nem sequer teremos, nessa iluminação, a capacidade de distinguir adequadamente as ideias universais e abstratas com as quais lidaremos, tampouco teríamos capacidade para conhecer e lidar com entes singulares em sua concretude, após a morte. Assim, após a morte, nossa mente não conhece entes e situações concretas e singulares, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O conhecimento a respeito das coisas singulares, que levaremos após a morte, será apenas aquela capacidade de pensar nas coisas que, em terra, fizeram parte da nossa história, da nossa aprendizagem pessoal, e com as quais nos relacionamos em algum momento. Isto inclui, também, as pessoas que chegamos a conhecer aqui, e que reencontrarmos lá, ou mesmo aquelas que, ainda caminhando no mundo dos vivos, foram conhecidas e amadas por nós. Seremos capazes de pensar e reconhecer todas estas coisas, mesmo que, no caso daquelas que ainda estão na história, ainda estão aqui no universo material, já não tenhamos a capacidade de estabelecer relação com elas.

O terceiro argumento objetor.

Se a alma tivesse a capacidade de conhecer coisas singulares após a morte, é porque ela teria a capacidade de aprender sobre elas, entrar em contato com elas, examiná-las. Ora, isto significa que haveria alguma maneira, que não a corporal, de adquirir conhecimento sobre o mundo, em sua singularidade e concretude histórica, após a morte. Neste caso, nada impediria a alma dos mortos de continuar inserido na história e de aprender e se relacionar com todas as coisas do universo. Mas sabemos que os mortos já não aprendem, já não caminham no universo, já não podem entrar em relação com as coisas. Logo, eles não conhecem as coisas em sua singularidade, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A alma sobrevivente após a morte já não caminha neste universo, já não pode aprender, já não acompanha o desenrolar do tempo, a história. Por isso, já não pode conhecer novas coisas em sua concretude, porque perdeu os meios que o possibilitariam. Mas ela conhece os singulares com os quais já teve contato e fizeram parte de sua história, e portanto fazem parte, de certa maneira, de sua própria identidade. Mesmo quando já não possa entrar em contato com eles, como é o caso das coisas materiais e dos entes queridos que ainda caminham neste mundo, é capaz de pensar nessas coisas e de lembrar delas, embora não seja capaz de pensar em nenhum singular que não se enquadre nessa situação especial, diz Tomás.

3. Concluindo.

A resposta de Tomás envolve, pois, a relação, como parte da identidade, e a memória, como relação com Deus, que é capaz de nos identificar após a morte. Mas mostra, também, toda a realidade e todo o prejuízo pessoal envolvido na morte. Belíssima lição.