1. De volta.
A perda da memória pessoal, da possibilidade de recorrer à imaginação formada pelos sentidos, bem como a perda dos próprios sentidos, com a morte, deixa a alma incompleta; já vimos isso. No entanto, ela está desperta e consciente de si, e, na impossibilidade de pensar a partir dos próprios sentidos, da própria memória e da própria imaginação, recebe de Deus o influxo das ideias com as quais é capaz de pensar. Isso, como já disse, tem uma consequência interessante no juízo da alma: não há máscaras possíveis quando a memória é a própria memória de Deus. Tudo estará desnudo perante Deus.
Há uma outra consequência necessária de que as coisas sejam assim: a separação do corpo implica a impossibilidade total de prosseguir na história, de estar situado em tempo e lugar no universo, de estar em contato com o universo material. Uma vez que se é estritamente espiritual, somente o contato espiritual prossegue. Mas esse contato é o modo natural dos anjos; em nós, é um modo indireto, secundário, mediado, de prosseguir na existência. É claro que a relação com Deus pela Igreja nos concede a inserção num corpo, o corpo de Cristo, e isso tem consequências maravilhosas na situação de quem morre. Mas neste momento não estamos tratando da graça da salvação, senão apenas da situação natural da alma que morre.
Como vimos, o traço essencial da identidade está na relação. É apenas pela relação que as Pessoas divinas se distinguem. É apenas pela relação que nós continuamos tendo identidade após a morte. Nossa relação com Deus, nossa relação com os Santos Anjos (e com aqueles que não são santos), mas também nossa relação com a vida que tivemos, o corpo que nos completava, as pessoas com quem vivemos, os lugares em que andamos e as coisas que chegamos a conhecer. Isso é também parte de nossa identidade. Isso tem consequências quanto ao nosso conhecimento do mundo, após a morte.
Isto não implica que seremos espectros que assombram as pessoas e coisas com quem já tivemos relações. Significa apenas que elas continuarão a ser importantes para nós, após a morte, e seremos capazes de reconhecê-las e saber delas. O conhecimento pessoal que obtivemos na terra ficará conosco na eternidade; mas, mesmo que as coisas e pessoas importantes para nós estejam de certo modo presentes à nossa mente, isto não significa que estejamos presentes a elas. Esta possibilidade de reconhecer, de estar marcado pelas coisas e pessoas que conhecemos em vida, não implica nenhuma capacidade de relação direta com elas.
É o que veremos no presente texto, em que estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás acerca desse belo tema.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Morte, memória, identidade e relações.
Para começar a compreender esta situação, Tomás já inicia afirmando que a morte não nos dá superpoderes nem nos torna oniscientes de nenhuma maneira. A morte não interrompe nem nossa existência, nem nossa identidade, nem nossa inteligência. Mas nos retira da história, do tempo e da relação com o universo material. Mas não podemos imaginar que, depois de mortos, receberemos subitamente o conhecimento natural sobre todo o universo, suas peculiaridades, mistérios e segredos. Ao contrário, depois de mortos perdemos a capacidade de explorá-lo, de aprender. Mas o que sabemos, sabemos. As coisas que vivemos e experimentamos continuam fazendo parte de nossa identidade, porque são parte de nossas relações.
Ocorre que, como sabemos, nossa memória corporal se extingue com a morte. Mas isso não apaga nossa memória intelectual, como veremos, aliás, no próximo artigo. Por enquanto, basta reter que as coisas e pessoas com quem nos relacionamos, em vida, deixam em nós marcas espirituais, marcas de alegria ou dor, de crescimento e discernimento, que não são simplesmente memória corporal, mas marca de identidade. Estão, de certo modo, inscritas em nosso espírito. Com relação a elas, teremos também um conhecimento especial.
Os modos pelos quais se pode inteligir o mundo.
De fato, diz Tomás, há duas maneiras pelas quais podemos dizer que inteligimos as coisas:
1) Aquela maneira ordinária na nossa vida humana, que é a exploração sensível do mundo, pelos nossos sentidos corporais, com a abstração das informações e a assimilação das ideias universais e abstratas em nosso intelecto. Assim, o ser humano conhece as coisas em sua singularidade, mas não o faz apenas pela mente: todo o ser humano está envolvido nesse conhecimento; a mente, com o conhecimento intelectual, e a memória e a imaginação, com a singularidade e concretude das coisas reais. Os anjos não conhecem por esse meio, porque os anjos simplesmente já sabem tudo aquilo que podemos assimilar pelo caminho da exploração.
2) A outra maneira de conhecer o mundo é pela iluminação direta, pela qual Deus mesmo infunde no intelecto as ideias das coisas, ou seja, as species de tudo o que existe. Esta é a maneira ordinária pela qual os anjos (santos ou não) conhecem naturalmente o universo. Neste modo de conhecer, o conhecimento das coisas singulares, em sua individualidade existencial concreta, se dá por um caminho inverso, das ideias ao indivíduo, que é um caminho inteiramente espiritual, não corporal. Os anjos se relacionam com o mundo assim, por dedução, por especificação, de um modo puramente intelectual, não experimental, mas com uma riqueza e profundidade de conhecimentos que chegam ao poder sobre aquilo que é existente individualmente. Mas esta não é a maneira humana de conhecer intelectualmente.
Não há dúvida de que Deus conhece espiritualmente todo o mundo criado: ele o criou. E não há dúvida de que, depois de mortos, havendo perdido o corpo, mas existindo no modo puramente espiritual, nós precisamos da iluminação de Deus para conseguir pensar.
Mas esta iluminação não é o nosso modo natural de conhecer, como é dos anjos. Portanto, esse aporte de memória que Deus nos concede após a morte, de modo a nos permitir pensar mesmo na ausência do corpo, não implica que nos tornemos oniscientes com Deus. De fato, não supre a ausência do nosso corpo como meio de relação com a realidade criada. Portanto, mesmo quando recebemos o influxo da iluminação divina em nossa alma, depois de mortos, isso não nos permite, como permite aos anjos, conhecer todas as coisas em sia singularidade existencial, vale dizer, não nos insere de novo na concretude da vida plena, da história, do tempo, da relação de presença com o mundo. Apenas nos dá aquela base de informações necessárias para que possamos nos situar, pensar, ter consciência de nós mesmos e de todas as outras coisas. Somos informados delas, de modo indistinto, abstrato, confuso, mas não podemos experimentá-las pessoalmente. Somente os anjos têm a capacidade de entrar em relação com o universo material a partir da iluminação divina, porque eles são essencialmente espirituais, o que nós não somos. Anjos não têm corpos, e portanto não precisam da corporeidade para ter poder sobre o mundo. Nós não somos assim. Portanto, mesmo o influxo da iluminação divina em nós, após a morte, não pode nos devolver essa capacidade; somente a visão beatífica e a ressurreição da carne o farão.
O modo especificamente humano de conhecer os singulares.
Mas há algo a acrescentar, ainda: há conhecimentos que já trazemos em nossas almas, em razão das coisas que fizemos, dos lugares que visitamos, das pessoas que conhecemos, das relações que estabelecemos (inclusive com Deus) e que marcaram nossa alma com o conhecimento concreto, específico, existencial, dessas realidades. Assim, com relação a estas coisas, a iluminação divina é capaz de nos fazer lembrar, de nos recordar, de avivar em nós o conhecimento concreto desses singulares. Estas coisas já não estarão presentes a nós fisicamente (porque a dimensão física do ser humano é destruída pela morte), mas permanecerão em nossa alma como conhecimento distinto, existencial, concreto, daquilo que fomos e somos. Com relação, portanto, a tudo aquilo que entramos em contato na vida terrena, as pessoas que amamos, os lugares e coisas que conhecemos, e mesmo a relação que estabelecemos com o próprio Deus e tudo o que ele nos deixou aqui (a vida sacramental, a Revelação, a comunhão dos santos), manteremos, em nossa alma, uma lembrança muito concreta e singular, a partir da iluminação divina: uma lembrança sem enganos, sem mistificações, mas real e formadora da nossa própria identidade. Um conhecimento inscrito na alma, mesmo quando as coisas não estiverem presentes a nós em sua concretude existencial. Mas que nos permitirá, por exemplo, reconhecer as pessoas amadas que já morreram.
Portanto, o influxo da iluminação divina, de certo modo, nos devolve a capacidade de pensar e a capacidade de lembrar; mas não de continuar a explorar. Como diz sabiamente São Tomás, a iluminação divina será recebida por nós em conformidade com o que nós somos, como receptores, e não nos transformará em deuses, mas apenas nos devolverá a nossa identidade humana.
Estas considerações todas multiplicam o tamanho da injustiça que é morrer cedo, morrer como criança ou mesmo como embrião, ainda não nascido. Todas as relações, todas as experiências que aquela pessoa poderia ter vivido, perdem-se irremediavelmente. Mas como Deus é a própria Justiça, certamente terá maravilhosas compensações a estes pequenos seres roubados de si mesmos. Mas estamos fazendo digressões. Encerremos por enquanto.
3. Encerrando.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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