1. Retomando.
Terminamos o texto anterior com uma pergunta: afinal, a morte nos desliga de qualquer relação com este mundo natural? Esquecemo-nos dele completamente? Ou continuamos mergulhados nele, acompanhando seus acontecimentos, adquirindo novos e mais profundos conhecimentos sobre ele?
Não há dúvida de que, mortos, rompemos todas as relações com nosso corpo; com isso, rompemos qualquer possibilidade de relação com o mundo material. É o corpo que nos insere na história, no tempo, no espaço. Sem corpo, não podemos nos relacionar com nada deste mundo material. Ao contrário dos anjos, cuja configuração espiritual determina que tenham poder sobre toda e qualquer matéria, a alma espiritual humana só tem poder sobre a matéria que compõe seu próprio corpo, e é exatamente este poder que é cessado pela morte. Termina a relação com o mundo material.
Mas isto significa que já não podemos saber nada sobre este mundo material? Neste ponto, é oportuno lembrar que não estamos falando, aqui, de “saber” no sentido de “ter informações”, mas no sentido de conhecer, acompanhar, experimentar. Posso saber que alguém tem uma mãe, pelo simples fato de olhar para ele, porque não há ser humano que não tenha uma mãe. Mas não conheço a mãe dele até ser apresentado a ela e estabelecer com ela algum tipo de relação de cordialidade ou amizade. É, portanto, neste sentido que falamos, aqui, de conhecer, para tratar do conhecimento que a alma separada pode ter do mundo material. Vamos examinar, finalmente, a resposta sintetizadora de Tomás, e em seguida suas respostas específicas aos argumentos iniciais.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Já sabemos que os sentidos e a memória, como a própria imaginação, são fundamentalmente capacidades corporais, que se perdem pela morte. A medicina contemporânea tem estudado muito a perda de memória por patologias como a síndrome de Alzheimer, e sabemos, hoje, que ela é, de fato, uma capacidade material, corporal. Isto sem negar o fato de que a alma, ao aprender, se alarga e retém em si as species que vem a conhecer, mas somente pode pensar efetivamente nelas quando recorre às imagens e à memória.
É curioso imaginar, portanto, que toda a nossa memória, toda a nossa história, tudo aquilo que permite efetivamente pensar, após a morte, vem da nossa ligação com Deus. É dele que vem nossas memórias, o resgate das nossas experiências, a possibilidade concreta de pensar.
Mas, com relação ao mundo material, essa ligação com Deus não nos permite experimentar o próprio mundo, estar inserido em sua história. Como aqueles cientistas que podem ter todas as informações sobre a maçã, mas nunca comeram de fato uma maçã, o tipo de conhecimento que teremos após a morte, em razão dessa iluminação por Deus, não é do mesmo tipo daquele que obtém quem come aquela maçã, mas aquele tipo de conhecimento que tem quem a estuda em livros e experimentos acadêmicos.
Como pode ser que o conhecimento concedido pela iluminação divina seja menos perfeito, para nós, do que aquele que tínhamos em vida?
Não estamos falando, aqui, da visão beatífica, ou seja, da união com Deus pela graça; estamos falando, aqui, daquela iluminação que toda alma recebe após a morte, pelo fato de estar espiritualmente aberta e desligada de seu corpo, como já vimos em textos anteriores. Este tipo de iluminação permite que a alma mantenha sua identidade e que contemple a si mesma, permite o chamado “juízo individual”, que pode ser muito dolorido ou mesmo condenatório, porque não é uma iluminação que permita o engano ou a justificação própria.
Para os anjos, a iluminação direta por Deus é a própria maneira natural de conhecer. Assim, apenas recebendo as próprias ideias de tudo, a partir do Criador, são capazes de conhecer efetivamente as coisas, entrando em relação com elas. Em nós, porém, esse tipo de conhecimento é abstrato, imperfeito, inefetivo para nos inserir de novo em contato concreto com o mundo do qual fomos retirados pela morte. Não representa a possibilidade de que estejamos presentes às coisas, ou que elas estejam presentes a nós, mas apenas a possibilidade de que possamos pensar nelas. Suficiente apenas para que continuemos como ente identificado, com capacidade de pensar, de refletir e de se alegrar ou sofrer, mas não para acompanhar a história do mundo material. Apenas os anjos, que são essencialmente espirituais e cuja inteligência não envolve a experimentação, mas o domínio sobre a matéria a partir do conhecimento intelectual, é que podem ter a plenitude do conhecimento e da relação com o mundo material, com a história, a partir das species recebidas de Deus por iluminação.
Munidos com estes princípios, examinemos as respostas de Tomás aos argumentos iniciais, tanto os objetores quanto os sed contra.
3. Os argumentos objetores e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que, depois de mortos, somos capazes de nos relacionar com os anjos (ou seria mais preciso dizer que eles são capazes de se relacionar conosco, e nós, de percebermos essa relação). Ora, diz o argumento, conhecer os anjos é ter acesso à inteligência deles, porque os anjos são justamente inteligências vivas, personificadas. Mas na inteligência dos anjos estão as razões de todas as coisas que existem no mundo criado, como já vimos na seção que os estudou (questões 50 a 64 desta Primeira Parte). Ora, se podemos ter acesso à inteligência dos anjos, e se nessa inteligência estão as razões de todas as coisas, inclusive em sua concretude histórica, então, mesmo mortos, podemos conhecer todas as coisas, por meio dos anjos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Somente Deus conhece todas as coisas por si mesmo, pelo seu próprio ser, pela sua substância mesma, de tal modo que conhecer Deus é conhecer diretamente todas as coisas. Os anjos conhecem todas as coisas por um conhecimento que é adicionado à sua substância por Deus, que neles imprime as ideias de todas as coisas criadas. Assim, conhecer os anjos não implica automaticamente ter acesso a todos os conhecimentos que eles têm, de tal modo que a capacidade que as almas separadas têm dos anjos não implica automaticamente que elas tenham, por esse caminho, o conhecimento de tudo aquilo que os anjos conhecem. Equivoca-se o argumento.
O segundo argumento objetor.
Há um velho ditado que diz que “quem pode o mais, pode o menos”. Assim, por exemplo, um general que comanda todo um exército também comanda cada um dos respectivos soldados.
Ora, se a alma separada pode conhecer os anjos, que são, dentre as criaturas, os entes mais densos de ser e inteligibilidade, e portanto o objeto de conhecimento mais complexo com o qual nosso intelecto pode se deparar, com muito mais razão a nossa alma pode inteligir os entes do mundo material, que são muito menos elevados, densos, complexos, em termos de inteligibilidade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
O conhecimento que a nossa alma tem dos anjos, após a morte, não é um conhecimento perfeito, como já vimos em textos anteriores. Os anjos nos excedem, quanto à nossa capacidade de conhecer. De fato, como já dissemos também, eles podem tomar a iniciativa de entrar em contato e em relação conosco, e nós podemos reconhecê-los e responder.
Assim, se nem a nossa relação com os anjos é perfeita, muito menos ainda será o conhecimento que podemos ter, por meio deles, a respeito do mundo material e das suas transformações.
4. Os argumentos sed contra e suas respostas.
O primeiro argumento sed contra.
Nem mesmo os demônios, diz o argumento, que são seres espirituais poderosos, e que recebem de Deus mesmo, como conhecimento infundido, sua capacidade de entrar em relação intelectual com o mundo, são capazes de ter um conhecimento perfeito do mundo material; na verdade, o próprio Isidoro ensina que eles também aprendem sobre o mundo por meio de sua experiência ao longo do tempo. Ora, as almas separadas, com todas as suas limitações, são muito menos poderosas intelectualmente do que os demônios. Logo, não têm nenhum conhecimento, mesmo indistinto e abstrato, sobre o mundo.
A resposta de Tomás.
Quando Isidoro trata dos demônios, ele não está falando da dimensão do conhecimento intelectual relacionado à posse de todas as species na mente dos demônios. Os seres angelicais, como os santos anjos e os demônios, não precisam de aprendizagem. Eles têm, em si, o conhecimento intelectual de toda a criação, de todas as formas universais e de todo o jogo de causalidades que ocorre no mundo; e, neste sentido, são capazes inclusive de antecipar, de estimar o futuro a partir do conhecimento das causas. Mas há dois limites para o conhecimento dos anjos e demônios: (1) a intimidade do pensamento das almas (o coração humano) e (2) o futuro contingente, como as decisões que tomaremos e o resultado da história. De fato, os segredos dos corações só e conhecido pelos sujeitos, por aqueles a quem eles quiserem revelar e por Deus. Quanto ao futuro contingente, pertence apenas a Deus e àqueles a quem ele quiser revelar, embora possa, de fato, ser, em algum grau, antecipado por aqueles que têm ciência do jogo de causalidades que envolve a realidade.
Assim, não é do conhecimento do futuro contingente, nem do conhecimento dos corações, que estamos tratando aqui; trata-se do conhecimento natural da realidade do universo em sua historicidade e materialidade. Estes, os vivos e os anjos possuem, mas as almas separadas têm apenas o conhecimento indistinto, confuso, que a iluminação de Deus os concede; estão fora do jogo de causalidades históricas.
O segundo argumento sed contra.
Se a morte trouxesse, como resultado, uma penetração maior no conhecimento do mundo, concedendo-nos o conhecimento das coisas e do jogo de causalidades do universo, revelando os mistérios da criação, fazendo penetrar mais profundamente nos segredos da história e do futuro, ninguém mais se esforçaria para obter conhecimentos em vida, porque todo o conhecimento seria recebido automaticamente na morte. A morte não seria um dano, mas um lucro, e a condição do ser humano incompleto e separado do mundo pela morte seria mais desejável do que sua inteireza existencial na vida. Tudo isso seria inadmissível, diz o argumento. Logo, a alma separada não pode mais conhecer naturalmente a realidade material, conclui.
A resposta de Tomás.
Aquilo que conseguimos aprender aqui enquanto vivos, as experiências que temos, a ciência que alcançamos por nosso próprio esforço, tudo isso se deposita em nossa alma como um conhecimento próprio, adequado, real, distinto. Mas o conhecimento que temos pela iluminação divina após a morte é um conhecimento indistinto, confuso, como que não incorporado a nós, algo que podemos ter notícia mas que não vivemos, não experimentamos, e ao qual não nos integramos. Assim, são dois modos diferentes de conhecer, e o conhecimento natural após a morte, por iluminação, não é mais perfeito nem mais desejável do que o conhecimento que adquirimos aqui. Para usar uma comparação muito ruim, mas que seria compreendida por nós, hoje: seria como imaginar que as redes sociais e suas informações superficiais e descomprometidas pudessem substituir a experiência da vida real. São níveis diferentes de conhecimento.
5. Concluindo.
Muito bom poder compreender um pouquinho a gravidade da morte, e seu poder de nos romper deste mundo. E o significado da ressurreição dos corpos para a completude da nossa condição humana.
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