1. Introdução.

A perda do corpo, como já vimos, implica a perda de qualquer capacidade de experimentar empiricamente o mundo, de se relacionar com as coisas materiais, de descobri-las, de conhecê-las, em suma. Significa também a perda de toda a memória concreta de fatos históricos, de tal modo que apenas em Deus e nos anjos fica registrada a história daquela alma. Isso é consentâneo com as descobertas científicas quanto à memória dos fatos concretos da nossa vida humana (que, mesmo em vida, perde-se por patologias ou pelo envelhecimento) e principalmente tem implicações enormes quanto ao juízo da alma: se apenas Deus lembra da minha história, então estarei completamente desnudo perante ele. Não haverá sequer a possibilidade de engendrar versões ou apresentar justificações e desculpas.

A morte, então, rompe completamente as relações da alma com o mundo material. Não tem mais nenhuma capacidade de se relacionar com ele. Não tem os meios. Mas continua sendo a alma de um ente material. Pertencente a este mundo, mas exilada dele.

A questão que se põe, agora, é a seguinte: é impossível, sem o corpo, experimentar a história, relacionar-se com o mundo material e seus habitantes. Trata-se da sobrevivência de uma inteligência desnuda, isolada, sem poderes ou capacidades para relacionar-se, sem instrumentos de investigação, de expressão, de relação. Como pode ser, então, que a alma separada, que não possui mais as capacidades sensoriais, de fato possa experimentar as coisas naturais deste mundo material, aprendê-las, conhecê-las e manter relações com elas?

Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

O debate, então, é sobre a maneira pela qual a nossa mente, separada do corpo pela morte, pode saber deste mundo material, de seus habitantes, de sua história, de suas coisas. A hipótese propõe que, mesmo sendo uma pura inteligência isolada e desprovida de quaisquer meios de relação com o mundo, a alma humana separada do corpo pela morte segue tendo a capacidade de conhecer e de se relacionar com o mundo material em sua concretude histórica. Não se trata, simplesmente, de ter informações sobre ele, de saber que ele existe, mas de efetivamente conhecê-lo, contemplá-lo diretamente, acompanhar seu dinamismo, relacionar-se, como intelecto, com ele. É neste sentido que a hipótese propõe que a alma separada conhece as coisas naturais. Há dois argumentos objetores iniciais que tentam confirmar esta hipótese, e outras duas que tentam negá-lo de modo absoluto. Vamos examiná-los.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor nos lembra que, debatendo os artigos anteriores desta mesma questão da Suma, já descobrimos que a alma separada é capaz de se perceber e de perceber os outros entes imateriais, as substâncias separadas com as quais vem a se relacionar após a morte. Ora, os entes espirituais puramente imateriais, como os anjos, são inteligências poderosíssimas que recebem de Deus o conhecimento sobre toda a criação, quando são criados. São, portanto, conhecedores de todas as coisas materiais. Se a alma separada é capaz de entrar em relação com eles, também é capaz de contemplar, neles, as razões de todas as coisas do mundo material, que os anjos conhecem naturalmente. Assim, conhecendo os anjos, as almas separadas conhecem naturalmente todas as coisas do mundo material e continuam em relação com elas, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor resgata aquele velho ditado da sabedoria popular que diz: “quem pode o mais, pode o menos”. Os anjos são os entes mais puramente inteligentes – e inteligíveis – que Deus criou. E, como vimos, as almas separadas das pessoas que já morreram têm a capacidade de percebê-los e entrar em relação com eles, conhecendo-os. Ora, se as almas separadas podem estabelecer essa relação de conhecimento com estes seres tão elevadamente inteligíveis, com maior razão podem estabelecer relação de conhecimento com as coisas do universo natural, que são muito menos ofuscantes em sua inteligibilidade, ou seja, são muito mais básicas em sua inteligibilidade do que os anjos, conclui o argumento.

4. Os argumentos sed contra.

O primeiro argumento sed contra.

Os próximos argumentos querem provar que a hipótese inicial é errônea; normalmente há apenas um argumento sed contra em cada questão da Suma. Eventualmente, como no presente caso, há mais de um. Aqui temos dois deles.

O primeiro argumento sed contra lembra o caso dos demônios. Eles são anjos, ou seja, têm a mesma natureza dos anjos, no sentido de que são puras inteligências espirituais com conhecimento de toda a criação infundido por Deus em sua criação mesma, e portanto são mentes muito mais poderosas do que a mente de qualquer ser humano que já morreu.

Ora, prossegue o argumento, nem mesmo os demônios têm conhecimento de todas as coisas naturais; Isidoro, ao contrário, nos ensinava que eles também precisam ir adquirindo conhecimento sobre os acontecimentos naturais ao longo de sua existência.

Ora, se nem os demônios têm conhecimento perfeito e completo das coisas naturais, tampouco a mente humana separada do corpo poderia tê-lo. Assim, as almas separadas não conhecem mais o mundo material, conclui o argumento.

O segundo argumento sed contra.

O segundo argumento sed contra propõe que, se a nossa mente, depois da morte, fosse capaz de penetrar nos conhecimentos do mundo natural e vir a enriquecer-se deles, conhecendo-os diretamente, então teria uma capacidade de conhecer muito mais aguda do que em vida, e portanto tornaria sem sentido o nosso esforço, em vida, para adquirir conhecimento e experiência do mundo. Logo, a mente separada é incapaz de aprender e de se relacionar naturalmente com o mundo, penetrando em seu mistério, conclui o argumento.

5. Encerrando.

Polêmico, portanto, este debate. Afinal, a morte nos desliga de qualquer relação com este mundo natural? Esquecemo-nos dele completamente? Ou continuamos mergulhados nele, acompanhando seus acontecimentos, adquirindo novos e mais profundos conhecimentos sobre ele? Não é difícil ver as profundas implicações teológicas das respostas de Tomás, que acompanharemos no próximo texto.