1. De volta mais uma vez.
Como vimos nos textos anteriores, a sobrevivência da alma humana, fragmentária como é, é percebida como um “dar-se conta de si mesma”, ter noção de que existe, e que existe como entidade individual, pensante e relacional. E é nessa relacionalidade, em primeiro lugar com Deus, mas também com as outras substâncias separadas (anjos, demônios, outras almas separadas, até mesmo com as almas dos vivos e com o próprio corpo, conforme as memórias preservadas em Deus) que se preserva a identidade dessa alma. E é nesse “dar-se conta” (dizíamos, no último texto, que há algo de cartesiano aí, uma vez que, por pensar, a alma se descobre existindo) que está o fundamento para que a alma seja capaz de perceber também tudo o que não é ela, ou seja, os outros seres que entram em relação com ela. Assim, essa alma existe como um ente que é capaz de se pensar, de se perceber inteiramente, na sua sobrevivência incorpórea, porque sua existência separada é inteiramente espiritual. Ela existe em sua própria mente, como os anjos existem porque são capazes de pensar. Em vida, nós existimos em nossos corpos, e por isso não precisamos (nem podemos) conhecer inteiramente nossa própria estrutura, para existir. Apenas nos conhecemos por reflexão, na medida que nossas relações com o mundo vão se depositando como conhecimento intelectual. Na morte, conhecemo-nos por autopercepção, porque nossa existência é espiritual, e portanto envolve a capacidade de se pensar. Mortos não poderiam ser bons pacientes psicanalíticos, porque mortos já não têm subconsciente e inconsciente. O que eles são é inteiramente claro para eles mesmos, embora sua capacidade mesma de pensar decorra da sua relação com Deus e com as outras substâncias separadas. Neste sentido, e apenas neste sentido, a autopercepção torna-se melhor após a morte: nosso próprio mistério espiritual torna-se evidente para nós, quando já não temos a base animal, corporal, que nos fazia existir ainda que não fôssemos capazes de nos conhecer inteiramente. Ausente essa base, conhecer-nos é a própria consequência de continuar existindo. Não, portanto, que a situação da alma separada, depois da morte, seja melhor do que em vida. Não é. Continua sendo a estrutura espiritual de um ente material cuja materialidade já não existe (vale dizer, um ser estruturalmente incompleto). Mas no plano da transparência, do autoconhecimento, para o bem ou para o mal, este é um estado realmente mais completo.
Postas estas considerações iniciais, vamos examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento é simples: se acreditamos, de fato, que a alma humana é apenas um dos elementos que formam o próprio ser humano em sua totalidade existencial, temos que admitir que a morte é uma fratura, que causa um rompimento nesses elementos constitutivos. Assim, mesmo que a mente sobreviva, como alma espiritual que é, essa sobrevivência não pode determinar que alguma operação, após a morte, seja superior à operação em vida, porque a condição após a morte é inferior à condição humana em vida. Ora, em vida, como já vimos em textos anteriores, o ser humano não é capaz de reconhecer, inteligir ou entrar em relação de conhecimento com os entes espirituais separados, como os anjos. Assim, não faz sentido que a morte, mesmo sendo prejudicial à sua integridade humana, venha a lhe conceder uma capacidade que não existe em vida. Portanto, a alma separada, após a morte, não pode conhecer os entes espirituais que existem de modo separado da matéria, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não há dúvida, diz Tomás, que a alma, após a morte, está num estado de imperfeição, de incompletude, que só se resolverá completamente quando houver a ressurreição da carne. Mas o seu modo de existir determina que ela desenvolva um outro modo de conhecer, de entrar em relação com os entes espirituais, que é diferente daquele que ela tinha quando viva. De certo modo, existindo como ente espiritual separado, que tem consciência de si mesmo, a alma pode tomar consciência das demais realidades espirituais que não são ela mesma, como os outros espíritos humanos e os anjos, e até mesmo o próprio Deus, de um modo muito mais agudo do que em vida, sem que isto implique que a morte traz algum “aprimoramento” existencial ao ser humano. Traz apenas um modo diferente de funcionar, uma vez que está sem o corpo e toda a sua carga de sensibilidade e memória e passa a funcionar apenas como uma inteligência separada.
O segundo argumento objetor.
Como podemos entrar em relação com as coisas ou com os outros, conhecendo-as no sentido mais próprio do termo? De duas maneiras: (1) quando a outra coisa ou pessoa está presente a nós de alguma maneira, ou (2) quando a ideia abstrata e universal (species) daquele ente está presente em nossa inteligência.
Ora, para que conhecêssemos, no primeiro sentido, algum outro ente espiritual, depois da nossa morte, ele teria que se fazer presente à nossa alma mesmo, entrar na nossa mente. Mas ninguém pode violar a mente de outra pessoa e entrar ali, salvo o próprio Deus.
Para que conhecêssemos algum ente espiritual no sentido (2), seria necessário que fosse possível examiná-lo e extrair, das suas condições concretas e materiais, a sua ideia universal. Mas os anjos não são materiais, então não podem ser conhecidos pelo processo de exame e abstração; neste sentido, são mais simples do que nós, no sentido de que não são concretos ou materiais, nem compostos de elementos individualizantes que pudessem sofrer algum processo de abstração. Simplesmente não se pode conhecer um anjo por abstração.
Assim, conclui o argumento, as almas separadas não podem, de modo nenhum, conhecer os outros entes espirituais.
A resposta de Tomás.
As almas separadas, ou seja, a estrutura espiritual dos seres humanos, que sobrevivem à morte, podem de algum modo conhecer os anjos, por semelhanças que Deus mesmo imprime nelas; de fato, a autopercepção que a alma separada tem de si mesmo é uma percepção criatural, isto é, é a percepção de que a alma é uma criatura espiritual criada por Deus. De certa forma, essa percepção envolve dois dons divinos: a criação do ser humano como criatura inteligente, na concepção, e a própria inteligência humana que percebe essa natureza, na descoberta de que se existe, e que se existe como criatura inteligente. Esses dois dons, que se reúnem na alma sobrevivente pela própria capacidade de autopercepção, permitem que ela possa discernir nos outros entes, como os anjos, seres que também são criaturas e também são inteligentes. Neste sentido, Deus capacita as almas separadas para conhecer, em algum grau, os anjos, após a morte. Mas esse conhecimento é limitado, imperfeito, misterioso, porque o anjo, em sua estrutura e capacidade, supera muito a capacidade humana de conhecimento; o conhecimento do anjo pela inteligência humana é, metaforicamente, como a tentativa de colocar um rio dentro de um copo.
O terceiro argumento objetor.
Em algumas filosofias e religiões, os sábios defendem que a plenitude, a perfeição humana decorre da possibilidade de encontrar e conhecer os entes espirituais, como os anjos e as pessoas que já morreram. Ora, se houvesse alguma capacidade natural de realizar isto, automaticamente, após a morte, isto significaria que o ser humano seria capaz de implementar naturalmente sua própria perfeição apenas pela morte, o que seria absurdo. Logo, a alma humana separada não pode, de modo algum, conhecer intelectualmente as substâncias separadas, após a morte, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Há, de fato, filosofias e religiões que pregam isso, e, como em todos os casos, devemos respeitá-las na convivência humana. Mas, com todo o respeito, quem ensina que a felicidade, a plenitude ou a perfeição humana consiste em poder conhecer livremente as substâncias separadas está simplesmente errado. A felicidade, plenitude ou perfeição humana consiste somente na própria visão de Deus, como já debatemos em textos anteriores aqui nesta primeira parte da Suma; e isto só é possível ao ser humano por meio da graça que Deus concede aos que ele quer.
Mas há, de fato, alguma possibilidade de felicidade, de completude, no conhecimento, após a morte, de outros entes espirituais separados, como amigos ou parentes que já morreram, ou mesmo os santos anjos. Mas este conhecimento, do ponto de vista da capacidade natural da alma separada, é sempre limitado e imperfeito, como já foi dito.
3. Para concluir.
Maravilhosa explicação sobre aquilo que palavras humanas podem apenas balbuciar, mas não compreender ou saber plenamente, como diz São Paulo em 1 Coríntios 2, 9.
No próximo texto, veremos o modo pelo qual conseguimos conhecer as outras coisas naturais, depois da morte.
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