1. Voltando ao tema.
A autopercepção é a chave. Essa “consciência de si mesmo” que ultrapassa, inclusive, a questão da memória. A memória está no corpo, depositada como um tesouro de vivências. Mas esse tesouro se perde com a morte, porque o corpo é destruído. A identidade fica garantida, então, pelas relações: sou quem sou porque sou filho de quem sou, porque amo quem amei, porque fui aquela determinada pessoa, e principalmente porque sou amado por quem sou amado, em primeiro lugar por Deus mesmo.
A descoberta de que se é, de que se existe, e a descoberta de que se é amado, tudo isso é a chave da nossa sobrevivência, da nossa existência após a morte. E aquele papel que fazia o corpo, de reter nossas memórias e obter as informações com as quais nos relacionamos com o mundo, são agora exercidos por Deus (e há, aqui, espaço para pensar na questão da Igreja como corpo e na eucaristia como comunhão com o corpo de Deus), que nos provê de nossas próprias lembranças e com as iluminações necessárias para que possamos pensar. E nesta percepção da identidade, que é plenamente relacional, percebemos também aquilo que não sou eu, ou seja, o outro. É isto que estudaremos agora, na resposta sintetizadora de Tomás. Vamos a ela.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A percepção de si mesmo como fundamento do conhecimento, após a morte.
No livro 9 da obra Sobre a Trindade, Santo Agostinho nos ensina que a nossa mente é capaz de conhecer as coisas incorpóreas (e a própria mente é incorpórea) por meio da percepção de si mesma; conhecendo-se, sabe o que é uma mente, e assim pode entrar em relação com outras mentes, que sabe semelhantes a si mesma.
Isto que Agostinho disse com relação à nossa capacidade de perceber a espiritualidade de nossa própria mente e, a partir daí, ter noção de que há muito mais nas outras pessoas do que aquilo que se dá aos nossos sentidos, pode ser aplicado, com muito mais precisão, ao estado da alma separada, após a morte. De fato, a sobrevivência da alma pode ser percebida por ela mesma. Perceber-se como existente é o caminho para perceber a existência, e, portanto, para perceber as outras existências.
O modo de conhecer do ser humano em vida.
Já sabemos, porque já estudamos, qual o modo próprio de conhecer dos seres humanos em vida. Inteligimos quando nossa mente pode iluminar os dados sensíveis obtidos pelos sentidos e armazenados e organizados em nossa memória e nossa imaginação; por isso, o objeto próprio da nossa inteligência, em vida, é o mundo material. Isso não quer dizer que não possamos ter informações sobre o mundo das criaturas espirituais e de Deus; isto só quer dizer que não temos instrumentos para nos relacionarmos com essas realidades; não podemos, de fato, alcançar Deus ou mesmo conversar com anjos como conversamos com nossos amigos ou parentes. Conhecer, aqui, significa muito mais do que ter informações, portanto. Significa ter a possibilidade de estabelecer uma relação que inclui a inteligência, a nossa mente. Nossa percepção está limitada por nosso modo próprio de conhecer, portanto.
E como podemos chegar a nos perceber, a conhecer nossa própria mente, que, sem dúvida, ultrapassa a realidade concreta do mundo material, em suas capacidades e operações?
De fato, a nossa própria mente é a primeira realidade imaterial que podemos conhecer, ainda que limitadamente, em vida. A mente é concebida como uma página em branco, isto é, nenhum conhecimento intelectual existe nela, no momento mesmo da concepção. Assim, ela é inteiramente potencial. E tudo o que é potencial não pode, ainda, ser conhecido, porque ainda não se manifestou como ato, como capacidade efetiva de entrar em relação, de dar-se a conhecer, e portanto não pode ser conhecida. Assim que começa a aprender, a mente pode se perceber, e portanto ter consciência de si mesma. Em resumo, somente quando começamos a entrar em relação com o mundo é que podemos entrar em relação conosco mesmos, ou seja, a única realidade espiritual que podemos efetivamente conhecer naturalmente, em vida. E ainda assim de modo incompleto, como provam os psicanalistas e psicólogos.
Se, portanto, o modo de pensar próprio do ser humano vivo é recorrer à memória e à imaginação como fonte das informações que serão utilizadas pelo pensamento, após a morte não haverá possibilidade de recorrer a essas realidades corporais. O pensamento ocorre, então, depois da morte, pela abertura que damos às outras inteligências espirituais, que podem nos iluminar diretamente com as informações necessárias para que pensemos. Inclusive o próprio Deus, que é o primeiro a nos amar e a nos conhecer. Vale dizer, o pensamento, após a morte, ocorre pela abertura espiritual às realidades espirituais.
Penso, logo existo.
Mas nós próprios, após a morte, somos uma realidade puramente espiritual, ao menos até a ressurreição final. Então existirá a possibilidade – e mesmo a necessidade – de que sejamos capazes de perceber e de pensar em nós mesmos. Seremos inteligíveis a nós mesmos, após a morte, porque seremos uma inteligência efetivamente existente. E uma inteligência efetivamente existente existe, antes de mais nada, em seu próprio pensamento. A percepção de que existimos, de que somos capazes de pensar, será, então, a primeira e mais fundamental percepção da alma separada. Na morte, Descartes teria plena razão em dizer: penso, logo existo. Em vida essa afirmação não faz sentido; vivos, temos que dizer: existo, logo penso. Descartes aplicou a lógica da alma separada pela morte para descrever o ser humano vivo, e por isso sua filosofia conduz fatalmente ao dualismo. Porque, ao contrário dos anjos, que têm o poder espiritual para dominar a matéria, a alma humana separada não exerce nenhum poder sobre a matéria (salvo sobre a matéria que compõe seu próprio corpo, mas deste ela foi arrancada pela morte). Tudo isso é muito interessante, mas estamos nos demorando em digressão.
Percebendo-se como existente, a alma sobrevivente passa a ter um fundamento para pensar, que é a própria percepção de si mesmo como um “eu” que pensa. Ao estabelecer essa relação, ela pode também dar-se conta de que não existe por si mesma nem está sozinha na existência; pode, assim, perceber as outras existências e eventualmente entrar em relação com elas.
A relação com as outras almas separadas é proporcional a essa percepção de si mesma, porque elas têm a mesma natureza que ela encontra em si. Mas a relação com os anjos e demônios ultrapassa sua capacidade, porque a natureza deles ultrapassa a sua. Assim também a relação com Deus, para as almas que não estão na glória, é uma relação que ultrapassa a capacidade natural da alma sobrevivente. Será sempre, pois, uma relação em que a alma humana separada é objeto da atenção dos anjos, demônios e de Deus, mas nunca será naturalmente o sujeito dessas relações – salvo pela graça, que pode elevar aquilo em que naturalmente pode ser recebida. Isto é, o fato de que podemos estar nessas relações como parte passiva é uma abertura para que a graça possa nos aperfeiçoar e nos colocar nessas relações ativamente, como sujeitos. A implicação disso na salvação ou condenação eterna é linda!
3. Encerrando.
Mas estamos nos alongando. Esses assuntos são quase intermináveis para mim, de tão sedutores. No próximo texto, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que nos ajudarão a penetrar um pouco melhor essas realidades tão complexas.
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