1. Introdução.

A sobrevivência após a morte não é a sobrevivência de uma pessoa, porque a pessoa humana é constituída pela plenitude da sua capacidade de relação, isto é, é corpo e alma. Mas é uma sobrevivência com identidade, com consciência, do mesmo ser que estava vivo anteriormente, ainda que fragmentado pela morte e sem o corpo.

Isto traz uma consequência imediata e necessária: embora desprovido da memória pessoal pela morte, a identidade prossegue, isto é, a pessoa é capaz de perceber-se, notar que é alguém, que é um “eu”; é, portanto, capaz também de perceber o que é “não-eu”, ou seja, toma consciência de si e toma consciência de que é interpelada por outros. É essa interpelação, a capacidade que os outros seres igualmente espirituais têm de entrar em relação com essa alma separada, que garante não somente a identidade da alma, como “alma que foi a pessoa tal”, como sua capacidade de pensar, pela iluminação, na alma separada, das ideias que já não tem em sua memória. Os santos, que já morreram, os anjos e o próprio Deus podem se relacionar com a alma de quem já morreu. E essa iluminação não tem a barreira seletiva da memória pessoal, e por isso pode ser incrivelmente dolorosa ou incrivelmente alegre, mas certamente terá a natureza de um “julgamento”, no sentido de que é uma exposição. E somente a amizade com Cristo, a morte em estado de graça, permite sobreviver a essa “segunda morte” que é estar entregue a entes espirituais perversos pela eternidade.

Mas isso é assunto para outro momento. Agora, interessa-nos saber como se dá esse processo de consciência da própria identidade e do estabelecimento de relação com os outros entes espirituais, ou seja, como é que a nossa alma separada vai perceber-se e perceber o outro, no mundo espiritual. Ou seja, como podemos conhecer intelectualmente os entes espirituais com os quais nos relacionamos na pós-morte. Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial nos faz pensar sobre a seguinte questão: se, em vida, não conseguimos conhecer as substâncias separadas diretamente, isto é, não conseguimos entrar em relação consciente com elas, discerni-las de modo claro e distinto, com mais razão após a morte, quando nossas aptidões de aprendizagem ficam prejudicadas, não conseguimos conhecer intelectualmente as substâncias separadas. Há três argumentos objetores que tentam comprovar essa hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

É claro que a alma é apenas um dos elementos do ser humano, seu elemento estrutural, imaterial. A completude da pessoa humana pressupõe a presença do corpo e da alma. Assim, é claro que o ser humano vivo é mais completo, mais íntegro, do que a alma sobrevivente à morte. Ora, mesmo quando vivos, e portanto dotados de corpo e alma, não conseguimos inteligir as substâncias separadas, entrar em relação clara e direta com elas, porque sua natureza supera a nossa capacidade intelectual de conhecimento e relação. Assim, se vivos não conseguimos, muito menos o conseguiremos depois de mortos, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

duas maneiras pelas quais nós conhecemos alguém ou alguma coisa, e entramos em relação com ela. A primeira maneira é quando a própria coisa está presente a nós. Vemos o elefante, sabemos que é um elefante, conhecemos o elefante; vemos que Sócrates está à nossa frente, sabemos que é Sócrates, entramos em relação com ele, conhecemo-lo. A outra maneira é a species ou ideia universal e abstrata da coisa, que está em nossa inteligência. Um biólogo, por exemplo, é capaz de conhecer e descrever vários tipos de animais apenas citando seus respectivos nomes científicos, porque os conhece intelectualmente.

Ora, as outras substâncias separadas, como os anjos ou as pessoas já falecidas, não podem se fazer presentes às almas separadas, porque elas precisariam penetrar nelas, precisariam se fazer presentes em seu interior espiritual, e só Deus é capaz de penetrar numa alma. Por outro lado, não há como abstrair ideias universais ou species de um anjo, porque o anjo não tem alguma composição com a matéria que o individualize; cada anjo é sua própria species, em sua simplicidade de composição, e, portanto, ele não pode estar presente numa alma humana como ideia abstraída. Logo, as almas separadas não podem conhecer as substâncias espirituais, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Em muitas religiões, e até mesmo no ensinamento de alguns filósofos, sempre houve a concepção de que a felicidade última e plena do ser humano, após a morte, consistiria em poder entrar em relação com os que já morreram e com os anjos, de modo pleno e livre, conhecendo-os. Ora, se a morte, por si mesma, desse esse poder ao ser humano, então simplesmente morrer já faria com que qualquer um alcançasse a felicidade eterna, com a consumação de sua capacidade de conhecer os que já morreram antes dele e os anjos. Mas isso seria inconcebível, e seria admitir que o estado de morte, por si mesmo, é melhor do que a vida, e que a salvação chega automaticamente, independentemente dos méritos de Jesus ou da visão beatífica de Deus, o que seria um absurdo. Logo, as almas separadas não podem conhecer as substâncias separadas, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Parece haver suficiente prova bíblica de que as almas separadas são capazes de entrar em relação com as outras e com os anjos. O argumento cita Lucas 16, 19 e seguintes que, embora seja uma parábola, só se torna compreensível quando admitimos que as almas separadas têm identidade, têm consciência e são capazes de conhecer e ser conhecidas. Assim, o argumento propõe que as almas separadas são capazes de conhecer as substâncias separadas, inclusive os anjos e os demônios.

5. Encerrando.

O mistério do que acontece depois da morte é algo de que podemos obter notícias, informações e revelações, mas que só descobriremos quando pudermos experimentar pessoalmente. É por isso que ele é objeto da virtude teologia da esperança. Em todo caso, Tomás lida com seu grande saber filosófico e teológico para nos fazer pensar de modo sistemático nessas realidades, e seu desafio é muito bom.

No próximo texto veremos o teor de sua resposta sintetizadora.