1. De volta.

Sobreviver à morte significa sobreviver, de algum modo, à ruptura de todos os vínculos naturais, de todas as relações humanas. É fácil perceber isto; basta imaginar o seguinte: há algum modo de se relacionar com as outras criaturas que não passe pelo nosso corpo? Como poderíamos nos relacionar, não somente com os seres humanos, mas também com as criaturas, com as coisas, com a cultura, com o mundo material, em usar o corpo, os sentidos, a nossa materialidade mesma?

Alguém pode dizer que a forma de nos relacionarmos com Deus não é material, mas de certa forma também é – ao menos de nossa parte. A oração, mesmo silenciosa, sempre envolve ao menos as imagens mentais, que estão na memória, a linguagem que sempre depende de alguma articulação de memória; a escuta da palavra, a meditação, a vida sacramental, a participação na missa, tudo isso nos envolve corporalmente. É certo que Deus não se limita por matéria ou corpo para se relacionar conosco ou nos amar. Mas qualquer adesão, qualquer participação nossa na vida divina, mesmo que motivada pela graça, envolve algum tipo de atitude corporal de nossa parte.

Mortos, perdemos o corpo. Isto significa perder qualquer tipo de possibilidade ativa de relação, mas não perdemos a identidade, nem a abertura passiva para ser objeto de uma relação de iniciativa daqueles entes que existem sem a matéria, como o próprio Deus e os anjos – além, é claro, dos demônios. Em suma, continuamos a existir, continuamos a ter consciência de nós mesmos e da nossa identidade humana e pessoal, mas, impossibilitados de qualquer atividade de nossa parte, somos apenas objeto de relação, nunca sujeitos. E isto é uma condição que não se modificará mais, salvo, é claro, na ressurreição da carne; mas a ressurreição não é o objeto aqui. Ela também não modifica mais as coisas que já foram objeto de escolha anterior, mas apenas eterniza aquilo que já está definido.

Tudo isso demonstra a dramática necessidade de estabelecer, desde já, aquelas relações que nos acolherão depois de mortos: aquilo que a Tradição chama de “comunhão dos santos” será a porta para o nosso acolhimento na morte. Porque apenas poderemos receber, lá, as relações que criamos aqui, e precisamos ter criado relações com os santos ainda aqui, ainda em vida. Para que possam completar o que vai faltar em nós pela destruição do corpo. Não é à toa que a centralidade da vida sacramental é a presença real do corpo e do sangue de Jesus na Eucaristia: será este o corpo que suprirá a ausência do nosso corpo natural, na morte.

Mas estamos, mais uma vez, nos adiantando. Vamos aos argumentos objetores iniciais e às respectivas respostas de Tomás.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento cita Aristóteles, que, na obra Sobre a Alma, nos explica que a degradação das nossas estruturas internas leva à degradação de nosso inteligir. Esta é uma experiência fácil de perceber, quando nos deparamos com a demência senil, ou mesmo com acidentes que levar a perdas encefálicas. Quem intelige é sempre a pessoa humana, nunca apenas a sua alma, embora a própria intelecção seja imaterial. Disso, o argumento conclui que a degradação completa do corpo leva à degradação completa da alma, que já não poderia mais pensar, quando privada do corpo.

A resposta de Tomás.

Tomás diz que é preciso ler com muita atenção as palavras de Aristóteles sobre a relação entre o corpo e alma no processo de intelecção. Não há, é claro, nem o processo de aprendizagem intelectual, nem o processo de pensar por meio do recurso às imagens da memória, no ser humano vivo. Mas Aristóteles não estava debatendo questões teológicas, nem discutindo a sobrevida após a morte. Falava do processo natural de intelecção, e quanto a isso não há dúvida sobre o papel do corpo. Não se pode deixar de considerar, também, a diferença de natureza entre a intelecção e a mera percepção sensível: para esta última, atrelada à sensibilidade corporal, não há nenhuma operação que não seja estritamente ligada ao corpo. Mas o pensamento não tem essa característica, e ultrapassa os limites da matéria para adentrar as realidades imateriais, abstratas, universais. Portanto, a capacidade da mente, mesmo em vida, está estreitamente relacionada ao corpo, mas não se limita a ele; é por isso que a citação de Aristóteles não pode ser entendida como prova de que não há possibilidade de pensar após a morte. Não era disso que ele estava falando.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor vai na mesma linha: nada pode ser apreendido por nós, nada pode ser inteligido, nada pode ser sequer resgatado por nosso pensamento, sem envolver os sentidos, a memória e a imaginação. Isto é comprovado pelo fato de que qualquer impedimento, qualquer degradação ou patologia nessas faculdades perturba o inteligir. Ora, a morte elimina essas faculdades. Logo, deve eliminar o inteligir, e não podemos mais pensar após a morte, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás simplesmente nos remete ao que ele já respondeu quanto à primeira objeção: estas ponderações são válidas para a aprendizagem, que ocorre em vida, e para o modo de inteligir e pensar que ocorrem em vida. Após a morte, a mente humana continua a funcionar, com sua identidade, e já não pode recorrer às faculdades corporais. Resta-lhe, portanto, a relação com os entes espirituais, que podem viabilizar o funcionamento das faculdades intelectuais humanas, na falta do corpo.

O terceiro Argumento Objetor.

O terceiro argumento propõe que toda intelecção, todo pensamento, precisa de ideias, de informações estruturadas como ideias universais e abstratas (o que, tecnicamente, a filosofia tradicional chamava de “species”) para acontecer. Ora, essas ideias ou species não estão inscritas de modo inato em nossa mente, mas precisam ser adquiridas (e mantidas) com a ajuda dos órgãos dos sentidos externos e internos, pela memória e pela imaginação.

Como essa capacidade seria mantida após a morte, pergunta-se o argumento?

Não seria sensato imaginar que essas ideias são inatas, pelos motivos já ditos.

Não seria sensato imaginar que as ideias ou species que fomos aprendendo durante a vida determinariam nossa capacidade de continuar pensando após a morte, porque nesse caso aqueles que foram abortados ou que morreram recém-nascidos não teriam essa capacidade, e simplesmente não teriam nenhuma identidade a ser mantida após a morte, o que seria um absurdo.

Por fim, não seria uma boa resposta dizer que Deus mesmo iria colocar miraculosamente as ideias na mente dos que já morreram, porque isto implicaria que o próprio pensamento, após a morte, seria um milagre, o que nega a naturalidade da vida após a morte – a alma sobrevive naturalmente, e, portanto, deve ter alguma forma natural de pensar.

Assim, conclui o argumento, não há nenhuma possibilidade natural de que a mente continue ativa, após a morte.

A resposta de Tomás.

Não há ideias ou species inatas em nossa mente, concorda Tomás. Portanto, não é assim que podemos pensar depois da morte. Os anjos são criados já com todas as ideias de que precisarão, para sempre. Nós, humanos, temos em nós as ideias que conseguimos aprender, por nossos próprios esforços de exploração, pela vida afora. Essas ideias permanecem em nós após a morte, mas, de certo modo, de maneira limitada, porque já não temos memória ou imaginação com os quais relacionar o conteúdo de nossa própria aprendizagem. Têm sua importância, mas não explicam inteiramente que possamos pensar após a morte, justamente por essas limitações.

Tampouco podemos aprender, após a morte, uma vez que toda aprendizagem, em nós, depende essencialmente da nossa capacidade corporal de explorar o mundo. Dessa capacidade somos privados pela morte, porque já não temos corpo. Não se aprende mais nada, depois de mortos, por esforço próprio.

Assim, na morte, nossa alma se abre a receber a iluminação necessária para pensar a partir da relação que tem com Deus e com as outras substâncias separadas, das quais receberemos justamente aquele apoio necessário para que o pensamento aconteça. Essa iluminação não é apenas algo miraculoso ou sobrenatural, como acontece com a iluminação da graça, que Deus concede àqueles que morrem em sua amizade. Há, também, a iluminação natural, como aquela que os próprios anjos trocam entre si, e que permitirá que nossa mente, que é a mais frágil das inteligências criadas, prossiga em sua capacidade de pensar. Isto dá ideia da importância que é morrer em amizade com Deus e em comunhão com os santos.

3. Conclusões.

Esta questão é intrigante. Inquietante. Limitada pelo fato de que debate temas dos quais não temos nenhuma experiência própria (e a rigor não teremos, porque, quando experimentarmos esta realidade, estaremos mortos). Assim, unindo a confiança na razão (na filosofia e sua possibilidade de explorar a realidade) com a confiança na Revelação, Tomás nos conduz por um caminho muito interessante, que expande nossos próprios limites. Serão oito artigos, nesta questão, sobre a nossa mente após a morte. Tempo de aprender muito!