1. Retomando.
Que a alma sobrevive à morte, disso souberam não somente muitas religiões, mas até muitos filósofos, com argumentos acessíveis à razão. Já debatemos muito sobre isto em textos anteriores, então não é o caso de voltar. Mas é o caso de perguntar-se: como será o estado dessa sobrevivência incompleta, fracionada, de uma estrutura espiritual que deveria informar um corpo mas já não o faz?
Quando começamos a estudar a inteligência humana, vimos uma característica interessante: de todas as inteligências (divina, angelical, humana) apenas a humana precisa passar por um processo de aprendizagem para se atualizar. No estado da concepção, ela é como uma folha em branco, e depende completamente dos sentidos externos e internos, da memória e suas imagens (o que, no tempo de Tomás, se chamava simplesmente de “imaginação”; hoje, tendemos a relacionar a imaginação ao não existente, ao fantástico, ao produzido por nós, mas os antigos usavam esta palavra para denominar a capacidade da memória de reter e organizar os dados dos sentidos, formando imagens das coisas examinadas). Ou seja, o processo de aprendizagem, no ser humano, depende inteiramente do corpo. E mais, a própria utilização dos pensamentos, do conhecimento intelectual, depende de recorrer sempre à memória, para acessar os dados materiais que fundamentam o conhecimento intelectual. O corpo e a alma formam uma unidade indivisível que determina a autonomia do ser humano no processo de aprendizagem. Porque o corpo é o único modo que a nossa mente tem para estabelecer relações, e aprender é justamente estabelecer relações. É certo que os anjos não dependem de nenhuma intermediação material para estabelecer relações, nem, é claro, Deus precisa disso. Mas, na Sua sabedoria, ele estabeleceu o regime sacramental para que pudéssemos aceitar a relação com ele, no modo humano.
Ocorre que a morte é exatamente a separação do corpo. Ou seja, ela determina o fim da possibilidade de que possamos estabelecer relações, por iniciativa própria, que resultem em conhecimento intelectual. Mas nossa mente, nossa alma sobrevivente, continua apta a aprender, e continua necessitada de alguma fonte de imagens para fazê-lo. Eis aí uma marca da ruptura que a morte provoca, e da dor pelas das mortes precoces: um bebê que morre, um embrião que é abortado, são seres humanos com almas intelectuais num estado como que inteiramente potencial, na sua morte, e que são privados da possibilidade de adquirir conhecimentos e estabelecer relações com o mundo de maneira autônoma. Literalmente, perdem os sentidos, que são a porta corporal da alma.
Mas estamos nos adiantando. Vamos examinar a resposta sintetizadora de Tomás quanto a esta questão.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A visão platônica (e de muitos espiritismos) sobre a natureza da alma.
Tomás vai iniciar sua resposta dizendo que não há dúvida sobre a necessidade de que nós sempre utilizemos nossos sentidos, nossa imaginação e nossa memória para inteligir. É sempre necessário retornar às imagens (phantasmata) que os sentidos depositam em nossa memória, para possibilitar o conhecimento propriamente intelectual, ou seja, todo o nosso processo de intelecção, embora essencialmente imaterial, está profundamente relacionado ao corpo e depende dele. Não há como iniciar o processo de intelecção sem os estímulos sensoriais e as imagens da memória, e estas operações são todas corpóreas.
No entanto, lembra Tomás, não era essa a visão que Platão tinha sobre nossa alma. Para Platão, nossa alma é, em si mesma, um ente completo, substancial, e existe antes mesmo da nossa existência terrestre; ela vive numa espécie de “mundo das ideias”, no qual ela conhece as coisas como puras ideias, universais e abstratas. Por alguma espécie de queda, da qual temos que nos purificar progressivamente, nosso ser, que consistia apenas na alma substancial, foi aprisionado num corpo que, por ser de matéria, é um estorvo para a alma. O corpo não faz parte substancial de nós, de nossa identidade, mas está numa união acidental com a alma; união que é prejudicial à alma, inclusive. Por isso, os sentidos e a memória, como as demais faculdades do corpo, são apenas a ocasião para que nós nos lembremos da nossa antiga vida no mundo das ideias, mas não são meio de novas aprendizagens. Na verdade, tudo o que pensamos aprender é apenas recordado por nós, e nós já o sabíamos antes de sermos aprisionados nos corpos. Assim, a morte seria uma bênção, porque nos livraria do estorvo do corpo material e nos permitiria voltar a inteligir perfeita e claramente aquilo que já sabíamos antes, pensava Platão. E pensam algumas correntes espiritistas, ainda hoje.
Mas isso não é consistente. Se a matéria existe para a forma, e a forma é a estrutura da matéria, não seria razoável imaginar que a forma ficasse subordinada à matéria, como se o corpo fosse prejudicial à alma, embora vivificado por ela. Não faria sentido que a alma fosse um bem para o corpo, como de fato é, mas o corpo não fosse um bem para a alma.
O modelo aristotélico de intelecção por phantasmata.
Se, no entanto, admitimos a concepção aristotélica, como Tomás o faz, de que o corpo é que viabiliza, pelos sentidos e pela memória e imaginação, a intelecção da alma, então teremos necessariamente que conclui que a morte interrompe o processo de intelecção. A mente depende do corpo não somente para aprender, mas inclusive para pensar, já que as ideias, em nós, sempre se vinculam aos dados sensoriais armazenados na memória. Ausentes os sentidos, a memória e a imaginação, como ocorre na morte, o pensamento também não poderia ocorrer. O que não é consistente com o fato de que pensar é essencialmente uma operação imaterial, espiritual, e, portanto, não pode ser atingida pela morte. O que pensar, então?
O modo de ser da alma separada do corpo pela morte.
A alma é uma coisa só, ou seja, ela é o elemento imaterial, estrutural, do ser humano, e sua natureza é estruturar o corpo e dar inteligibilidade – e inteligência – à pessoa.
Ocorre que Santo Tomás, nesse ponto, nos apresenta a um daqueles belos princípios que condensam tanta sabedoria; aqui, ele lembra daquele princípio metafísico que diz que “cada coisa opera assim como é; então o modo de operar segue o modo de ser”. O exemplo que Tomás dá é aquele dos estados físicos da matéria: a água opera de um modo (como gelo) quando a temperatura ambiente é inferior a 0º C, de outro jeito (líquido) quando a temperatura está entre 1º e 99º C, e ainda de outra maneira quando está igual ou acima de 100º C, na qual vira vapor. O comportamento da água muda, portanto, com a variação do seu entorno, e isso muda sua operação.
Algo análogo ocorre com a alma. De fato, quando em vida, ela opera em seu modo normal, com a autonomia de exploração da realidade material pelos sentidos e a plenitude da capacidade de intelecção do seu objeto próprio, que é o ente material criado. Após a morte, é como se ela sofresse uma “mudança de estado”, pelo desligamento do corpo que a dilacera, e isso torna incompleta sua capacidade de aprender e de inteligir pelo recurso às capacidades corporais como a memória e a imaginação. Neste novo estado, o estado de existência puramente espiritual, ela passa a se abrir ao contato das substâncias espirituais separadas, ou seja, os anjos. Aquele modo de se relacionar que lhe era proporcionado, que era a relação com o mundo material, está impossibilitado. Mas, sendo um ente espiritual que subsiste, ela passa a se abrir à relação com o mundo dos entes espirituais subsistentes separados.
Não que os anjos não entrem em relação conosco durante a nossa vida terrena. Eles o fazem, embora nós não possamos entrar em relação com eles de volta. Mas sabemos do nosso anjo da guarda protetor, de tantos santos anjos que estão em comunhão conosco pelo mistério da comunhão dos santos e, lamentavelmente, das inspirações, influências, opressões e mesmo possessões demoníacas que podem ocorrer. Na nossa vida terrena, porém, essas relações, nas quais somos a parte passiva, constituem a exceção, uma parte não desprezível, mas não prioritária, de nossa vida humana.
Mortos, estamos isolados do mundo material, e, portanto, é no mundo espiritual que vivemos. Esta abertura da alma ao corpo, que é natural e que constitui a base para a intelecção ordinária do ser humano, torna-se um rompimento, a ser preenchido por aquelas realidades espirituais que não dependem da matéria para relacionar-se. A relação com os anjos, portanto, que, na vida terrena, é algo marginal, incontrolável e pouco relevante para nossa vida (pelo menos para nossa vida perceptível) torna-se, na verdade, o modo ordinário de funcionar, de conseguir inteligir, de conseguir pensar, para a nossa alma.
Isto nos traz uma pergunta, diz Tomás. Certamente, ordenar seus pensamentos, obter seus conhecimentos, diretamente a partir das substâncias separadas (ou mesmo do contato com Deus, para os bem-aventurados) é algo mais fácil, mais rico e mais proveitoso do que o duro trabalho empírico de examinar o mundo fisicamente para conseguir inteligir, acumulando imagens na imaginação para passar pelo processo de abstração intelectual, sempre custoso, sempre incompleto, sempre sujeito a equívocos. Não seria mais fácil se Deus nos tivesse feito desde logo com essa abertura à comunicação com os anjos, dos quais receberíamos nossos conhecimentos sem o processo árduo natural, por meio dos corpos, que é próprio do ser humano vivo? Não estaríamos, depois de mortos, numa situação mais confortável do que em vida, quanto ao acesso ao conhecimento?
Não, diz Tomás. Deus não quis criar, em nós, anjos, ou seja, entes de conhecimento intelectual nato, independentes da matéria, mas inteligências materiais, múltiplos seres inteligentes com a mesma espécie fundamental, inseridos na criação corpórea como imagens suas, iluminados pela sua luz quanto à inteligência. E, para seres assim, é mais adequado inteligir com o corpo, isto é, entrar em relação inteligente com o mundo material a partir de dentro, pela exploração, pela experimentação, com autonomia e com identidade com relação às outras coisas materiais com as quais convivemos. Portanto, para a alma humana, é mais adequado o modo de aprender que de fato temos quando em vida, quando unidos com o corpo.
É claro que o pensamento do anjo é mais claro, mais completo e mais perfeito que o nosso. Mas é um conhecimento completamente conceitual, a partir das noções elevadíssimas que receberam de Deus. E Tomás explica que, em Deus, o conhecimento de si mesmo é o conhecimento de todas as coisas; nos anjos, quanto mais elevados, mais capazes de sintetizar toda a realidade em noções poucas, mas elevadíssimas, capazes de grande penetração no conhecimento das coisas, por serem mais universais e mais completas. A partir daí, os anjos mais inferiores precisam de cada vez mais noções, e cada vez menos profundas, para entender a realidade. Nós, humanos, exploramos as coisas particulares e, a partir delas, chegamos a conceitos múltiplos, pouco profundos, para entender o que existe.
Mal comparando, seria como se o general fosse capaz de enxergar todo o campo de batalha com apenas um olhar: assim é Deus. Os anjos são como os grandes comandantes, têm uma noção do geral, mas precisam olhar para as coisas de um modo menos completo, menos abrangente do que o general. Por fim, nós, humanos, somos soldados, vemos apenas nosso campo de batalha pessoal, embora possamos chegar a alguma noção de que há uma guerra. Ou ainda, um grande cientista é capaz de, com apenas uma equação (por exemplo, E=MC2) explicar uma enormidade de efeitos, enquanto um trabalhador braçal precisa de muitas palavras para explicar cada gesto concreto que ele faz no campo.
Assim, para nossa inteligência simples, mas encarnada, o conhecimento muito amplo, muito angelical, não seria adequado; precisamos do conhecimento do soldado, daquele que está engajado na guerra, e não dos grandes generais que a observam desde fora. Se um soldado tivesse que sopesar, em cada momento da batalha, a guerra com o nível de abstração e profundidade com que um general a observa, certamente seria rapidamente derrotado.
Assim, os anjos têm esse conhecimento amplo, profundo, abstrato, universal, que para nós seria simplesmente teórico demais, incapaz de dar conta da concretude da vida. Por isso é que o nosso modo de conhecer, a nossa inteligência, é muito menos penetrante e muito mais concreta do que a dos anjos. E é assim que, em vida, conhecemos por experiência, por experimentação, por relação sensorial. Neste modo de conhecer, quando estamos em vida, somos capazes de explorar o mundo e eleger livremente, discernir, aprender, escolher.
Depois de mortos, embora capazes de pensar sob a influência das outras substâncias separadas, perdemos a autonomia de exploração, de discernimento das relações, de iniciativa, que o corpo nos dá, quando estamos completos ontologicamente. Resta-nos a influência dos anjos. Daí a importância de morrer em comunhão com os santos, e em paz com Deus; caso contrário, podemos virar joguetes passivos em poder de inteligências poderosíssimas que não nos amam de modo algum, justo o contrário. As implicações disto nós estudaremos ao longo desta questão.
3. Encerrando.
Eis uma questão que nos fará pensar, que nos provocará, que nos levará a meditar sobre pontos que não nos ocorrem normalmente.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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