1. Introdução.

Há dois pontos que precisamos estabelecer, aqui, muito claramente, porque Tomás é muito rigoroso quanto a isso: nossa alma não é uma pessoa; ela é a forma, a estrutura de um ente substancial que se caracteriza por ser de matéria e forma. Quando mortos, portanto, estamos realmente mortos. A morte é um prejuízo, porque desconstitui nossa unidade existencial matéria-forma, irremediavelmente. E, quanto à nossa mente, a morte prematura representa, ainda, uma enorme injustiça: aprender é algo que envolve todo o ser humano, e apenas o ser humano em sua integridade existencial corpo-alma pode aprender. Assim, mesmo o fato de que a nossa mente pode sobreviver à morte (e já vimos que ela pode) não diminui a injustiça decorrente de uma morte prematura, que consiste em perder a possibilidade de aprender de modo humano, natural. Este é um fato que nos depararemos nesta questão.

Já vimos, quando estudamos a mente humana, que a operação intelectual não está ligada a algum órgão corporal; por isso, ela sobrevive à morte. Mas a mente não é uma característica, autônoma, separada, do ser humano, mas uma dimensão da alma espiritual humana. Assim, se a mente sobrevive, é porque a alma sobrevive. É, no entanto, uma sobrevivência manca, incompleta, de uma estrutura já sem preenchimento. E cujo funcionamento integral depende da presença desse preenchimento. De fato, sabemos que nossa mente funciona pelo recurso aos nossos sentidos, à nossa memória e à nossa imaginação. Mas estes aspectos do ser humano são corporais, estritamente corporais. Para fazer uma má analogia, o sistema operacional do meu computador pessoal pode sobreviver à destruição do computador, mas a memória do computador, quando estocada nos seus componentes, fica irremediavelmente perdida. Assim, quando morremos, nossa mente continua, mas nossas memórias pessoais, nossas experiências, nossa imaginação, tudo isso fica irremediavelmente destruído.

Isto parece contradizer, então, a sobrevivência pessoal. Se a alma separada já não é uma pessoa, se não há mais a memória, como podemos falar numa sobrevivência pessoal? Será que a morte nos dilui numa espécie de “mente universal”, impessoal, e apaga irremediavelmente nossa identidade?

Seria assim, se nossa identidade fosse apenas a nossa memória. Mas não é: nossa identidade está, em primeiro lugar, estabelecida por nossas relações, uma vez que somos imagem da Trindade Santa.

Lembro-me, aqui, de um caso que um velho padre me contou: visitando um idoso que tinha o mal de Alzheimer, e havia perdido completamente a memória, ele perguntou à velha esposa, que cuidava do marido com tanto carinho: “o que te move a guardar tanto amor a ele? Ele já nem lembra de ti…” Ao que a velha senhora respondeu: “ele não lembra de mim, mas eu lembro dele perfeitamente”. Aqui, a memória está adequadamente ligada à relação, e portanto a identidade está preservada. É por isso que é tão importante, em vida, cultivar nossa relação com Deus e com os santos: mesmo quando não lembrarmos de nós mesmos, eles se lembrarão de nós e garantirão nossa identidade. Por outro lado, uma vez que a morte determina nossa passividade intelectual mais absoluta (não poderemos conhecer, e portanto não teremos autonomia para estabelecer, ali, novas relações), aqueles que morrem em rejeição a Deus e à santidade não poderão estabelecer novas relações, mas estarão à mercê de seres mais poderosos, puramente espirituais, que poderão estabelecer relações com eles, relações que serão ativas do lado dessas criaturas, mas estritamente passivas por lado da alma humana. Isto pode ser uma intuição daquilo que a tradição chama de inferno: a passividade de uma submissão completa a forças espirituais completamente desligadas do amor.

Isto também revela a gravidade do juízo após a morte: se não teremos mais memória pessoal, quanto aos acontecimentos concretos de nossa vida, nosso juízo será inteiramente verdadeiro, porque não dependerá de nossa visão quanto aos fatos passados, mas apenas da visão de Deus, em quem não há nenhum passado. Seremos julgados por quem se lembra de nós, quando nós próprios não poderemos dizer a ele: isto não aconteceu assim, porque simplesmente não nos lembraremos pessoalmente dos acontecimentos. Todas as máscaras, todas as desculpas, todos os enganos e autojustificações cairão. Isto poderá doer muito, e doerá: a tradição chama essa dor de “purgatório”.

Mas deixemos de digressões, ainda que importantes. Vamos ao texto do artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

A morte é real, implica destruição da unidade em que se constitui o ser humano. Morto, já não há, ali, um ser humano em sua integralidade existencial. Assim, nossas funções vegetativas e sensitivas cessam completamente. Mas e quanto à nossa mente, isto é, às nossas funções intelectuais? Como poderiam elas prosseguir?

Assim, a hipótese controvertida inicial propõe que a capacidade intelectual, isto é, aquilo a que chamamos de “nossa mente”, também deixa de existir, após a morte. A alma separada do corpo já não pode inteligir absolutamente nada, propõe esta hipótese. Há três argumentos objetores, tentando comprovar essa hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o próprio Aristóteles, na obra Sobre a Alma, ensinava que “a intelecção”, ou seja, o processo de inteligir, “fica corrompida quando há alguma degradação interna no ser humano”. Assim, como a morte implica a completa degradação de todos os sistemas humanos internos, ela também resulta na total destruição da mente e da capacidade de inteligir, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lida com uma experiência que temos: quando há algum dano corporal que atinge nossos sentidos ou nosso sistema nervoso ou cerebral, nossa capacidade de aprender ou de inteligir fica prejudicada. Quando há alguma patologia que bloqueia nossa memória ou confunde nossa imaginação, isso atinge nossa mente mesma, que fica prejudicada em sua intelecção. Assim, uma vez que a morte implica a destruição dos sistemas responsáveis pela própria memória, pela percepção, pela estruturação da imaginação, ela implica também a completa destruição da mente e de sua capacidade intelectiva, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Já vimos que a intelecção humana, o próprio funcionamento da mente humana em seus processos intelectuais, envolvem sempre um acesso à memória e à imaginação, que fornecem os dados empíricos que possibilitam a abstração das ideias universais sobre as coisas (species). Este processo de construir e guardar, na mente, as species, implica sempre que tenhamos acesso às imagens da memória e da imaginação.

Mas a memória e a imaginação são dimensões estritamente dependentes do nosso corpo. E este é destruído pela morte. Assim, nossa mente já não poderia recorrer aos dados sensíveis armazenados na nossa memória para inteligir, porque a memória já não existe. Além disso, a nossa mente não tem, por si mesmo, nenhuma ideia universal e abstrata existente ali de modo inato, porque, quando nascemos, nossa mente está inteiramente vazia de conhecimentos. Portanto, não restaria meio para que a mente funcionasse após a morte.

Não se argumente que Deus poderia infundir diretamente conhecimentos em nossa mente, depois de mortos; neste caso, não teríamos uma mente natural, mas a nossa mente deixaria de ser o que naturalmente fomos em vida, para ser uma entidade puramente sobrenatural, desligada de nossa vida terrena e existente por milagre divino. Não seria, portanto, uma sobrevivência, mas uma recriação miraculosa.

Por fim, não se pode também argumentar que nossa mente continuaria a funcionar com base nos conhecimentos que adquiriu e manteve durante a vida, porque, neste caso, nem os que morreram ainda no útero materno, nem os que morreram recém-nascidos teriam qualquer sobrevivência com identidade, após a morte, porque não teriam acúmulo de conhecimentos para que sua mente continuasse a funcionar. Assim, nossa mente simplesmente não funciona mais após a morte, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Não temos dúvida de que a alma humana, justamente por ser espiritual, ou seja, ter operações intelectuais que não dependem da presença do corpo, pode existir após a morte. Mas, além disso, temos o testemunho da revelação cristã, e mesmo de toda a tradição religiosa espalhada pelo mundo. Portanto, se a sobrevivência da alma é um fato, temos necessariamente que admitir que a mente deve operar de algum modo após a morte, porque nada pode existir sem operar, conclui o argumento.

5. Encerrando.

No próximo texto iniciaremos o exame da resposta sintetizadora de Tomás, muito longa, complexa e interessante. Vamos prosseguir devagar, porque as ideias fundamentais não são tão difíceis, mas às vezes o tema fica complexo pela forma com que é colocado.