A tentação de imaginar que se pode ver Deus em tudo o que se conhece é muito perigosa; ela pode tender a eliminar a diferença entre a ordem do criador e a ordem da criatura, que, embora permitam analogias, são infinitamente distantes. Pode retirar, também, a importância e a seriedade da revelação bíblica e principalmente da revelação em Nosso Senhor Jesus Cristo. É muito importante, então, estabelecer com claridade quais os limites do conhecimento humano quanto a Deus, para não correr o risco de proclamar um “conhecimento” de Deus que não é legítimo.

Examinemos, agora, as respostas de Tomás a esta proposição tão importante.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Nós já conhecemos, pelos estudos e debates que travamos nos textos anteriores, qual é o percurso natural da mente humana, desde a ignorância até o conhecimento intelectual, a ciência. Já vimos que nós somos os únicos seres inteligentes que passam por um processo de aprendizagem. Nem anjos, nem, é claro, o próprio Deus precisam aprender. Os anjos são intelectos em ato, ou seja, não estão em potência para conhecer, não ignoram nada do que devam saber. Nosso intelecto humano, porém, nasce como potência, isto é, vazio de conhecimentos intelectuais, e precisa aprender; e essa aprendizagem sempre começa pelos sentidos que, explorando o mundo, oferecem à nossa memória a formação de imagens (phantasmata) das coisas que examinam, de tal modo que nosso intelecto agente possa examinar essas imagens e, purificando-as dos elementos que as particularizam, chegar ao conhecimento universal e abstrato que caracteriza a ciência. Assim, tudo aquilo que não pode ser examinado pelos sentidos não faz parte do objeto próprio do conhecimento intelectual humano.

Assim, vimos, nos textos anteriores, que os anjos não podem ser objeto de nosso conhecimento intelectual direto; podemos ter notícias e informações indiretas sobre eles, talvez por analogia ou pelos efeitos que eles podem produzir sobre o mundo material, talvez pelas tradições religiosas ou filosóficas, mas não podemos examiná-los diretamente. Não podemos conhecer os anjos de modo natural, contemplá-los e estabelecer relações com eles, no sentido que dizemos que conhecemos nossos amigos, nossos pais ou o vizinho. Eles estão além da nossa capacidade intelectual direta.

Se os anjos, que compartilham da condição de criaturas, estão além da capacidade do nosso intelecto criado, por não serem compostos de matéria em nenhum grau, embora possam ser classificados no gênero lógico das criaturas, muito mais além da nossa capacidade intelectual natural, no sentido do conhecimento intelectual direto, está Deus.

Então, como sabemos, podemos chegar a algum conhecimento indireto, alguma informação intelectual, sobre Deus, como vimos nas questões 12 e 13 desta Primeira Parte da Suma, especialmente pelo uso do raciocínio analógico. É o que ensina o Catecismo da Igreja Católica, § 41: Todas as criaturas são portadoras duma certa semelhança de Deus, muito especialmente o homem, criado à imagem e semelhança de Deus. As múltiplas perfeições das criaturas (a sua verdade, a sua bondade, a sua beleza) refletem, pois, a perfeição infinita de Deus. Daí que possamos falar de Deus a partir das perfeições das suas criaturas: «porque a grandeza e a beleza das criaturas conduzem, por analogia, à contemplação do seu Autor» (Sb 13, 5).

Assim é que Tomás nos esclarece que Deus não é o nosso conhecimento intelectual primeiro nem o mais fundamental, não devido a alguma limitação em Deus, mas devido à configuração limitadíssima do nosso próprio intelecto. Conhecemos primariamente as criaturas materiais e, a partir desse conhecimento, podemos, por analogia, chegar a alguma informação, a algum conhecimento indireto, sobre Deus, como nos ensina a Carta aos Romanos, 1, 20: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras”. As obras de Deus, portanto, quer dizer, as criaturas materiais e sua substancialidade (aquilo que elas são, sua quididade, para usar a terminologia antiga) são o objeto próprio do nosso intelecto, e elas podem nos levar a um conhecimento indireto, limitado e eminentemente negativo sobre Deus.

3. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

Havendo, pois, determinado assim quais os princípios sobre os quais devemos pautar nosso exame a respeito do tema ora em debate, passamos ao exame especificado dos argumentos objetores iniciais e as respostas que Tomás nos oferece sobre eles.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor afirma que aquilo que é necessário para tornar outras coisas conhecidas é mais fundamental e se dá primeiro ao nosso conhecimento do que as próprias coisas que ele faz conhecer. Assim, a luz é necessária para que possamos enxergar: numa sala escura, à noite, não enxergamos nada. Mas assim que alguém acende uma lâmpada as coisas da sala nos ficam visíveis. Neste caso, comprova-se que a luz, que faz todas as coisas serem visíveis, é mais fundamentalmente percebida do que as coisas que ela torna visíveis.

Ora, prossegue o argumento, é Deus quem dá inteligibilidade às coisas, e nos dá a inteligência. Sem a “luz” divina, portanto, nada seria cognoscível, nem nós seríamos capazes de conhecimento. Então teríamos que concluir, por analogia à relação entre a luz e a visão, que Deus é mais fundamentalmente conhecido por nós do que as coisas criadas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Quando, usando de nossos olhos, nós olhamos para as coisas que são iluminadas pela luz física, quer de uma lâmpada, quer do sol, a luz é o meio pelo qual vemos as coisas, mas não é, ela própria, o que vemos primeiro, no sentido de ser o objeto mesmo da visão. Não podemos dizer, portanto, que a luz é o que fundamentalmente vemos, com nossos olhos, mas apenas que ela é o meio pelo qual vemos o que vemos; mas essa afirmação só e feita por uma certa reflexão sobre o ato de ver. Ninguém que contempla, digamos, a Mona Lisa, afirma que viu fundamentalmente a luz das lâmpadas da sala e, secundariamente a Mona Lisa.

Assim, a luz que ilumina no nosso intelecto é uma certa “impressão” da verdade divina em nós, isso é inegável. Mas essa luz, que é o intelecto agente, e que mede e purifica o conhecimento sensível, não é o que é primária e fundamentalmente conhecido por nós, quando adquirimos conhecimentos intelectuais. Apenas por reflexão percebemos essa capacidade ativa de aquisição de conhecimento, porque ela não é, por si mesma, objeto de conhecimento, mas apenas o meio.

Ora, se a própria luz intelectual que existe em nós, que é uma realidade criada, não é conhecida primária e fundamentalmente por nós, no processo de aprendizagem intelectual, muito menos o será o próprio Deus, realidade incriada que não está na mesma categoria que nós. Portanto o argumento não é correto.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento vai na mesma linha, mas parte de uma citação bíblica. Inicia citando um antigo ditado que diz que aquilo que faz alguma coisa ser o que é deve ter as mesmas qualidades que ela. Se Deus é a “luz verdadeira que ilumina todo homem vindo a este mundo” (João 1, 9), ele é a causa de todo o nosso conhecimento sobre as coisas criadas. Logo, se é ele que dá inteligibilidade às coisas, deve ser em si mesmo maximamente inteligível, e não podemos conhecer nada sem que o conheçamos de modo fundamental e primário, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Esse ditado, “ aquilo que faz alguma coisa ser o que é deve ter as mesmas qualidades que ela”, só é válido para as coisas que estão na mesma ordem, como os pais com os filhos ou os artífices com seus produtos. Mas Deus não está na mesma ordem que as criaturas, e portanto sua causalidade (causalidade primeira) não pode ser relacionada com a causalidade das criaturas (causalidade segunda). Portanto, de fato todas as coisas podem ser conhecidas por nós não porque conhecemos Deus e deduzimos dele a cognoscibilidade das coisas, mas porque Deus é causa primeira dessa capacidade que temos de conhecer e da capacidade que as coisas têm de ser conhecidas. Portanto, o argumento se equivoca.

O terceiro argumento objetor.

Aquilo que é causa exemplar é o que é fundamentalmente e primariamente conhecido, quando olhamos uma imagem: quando vemos a fotografia do Papa, reconhecemos em primeiro lugar o Papa, que é o objeto da foto, e não os produtos químicos e físicos que compõem a própria foto.

Ora, a nossa inteligência, como sabemos pela Bíblia, é imagem e semelhança da inteligência divina. Então, contemplando a nós mesmos, deveríamos conhecer, em primeiro lugar e de modo fundamental, a causa exemplar de nossa inteligência, que é Deus. Logo, Deus é o que conhecemos de modo fundamental e primário, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Quanto mais perfeitamente a imagem reflete a sua causa exemplar, tão mais perfeitamente ela pode levar ao conhecimento da causa exemplar. Assim, se a nossa inteligência fosse a imagem perfeita de Deus, nós inteligiríamos Deus imediatamente, apenas pelo exercício de autoconhecimento da nossa própria inteligência. No entanto, somos apenas imagens imperfeitas, distantes, de Deus. Portanto, conhecer a alma humana não leva ao conhecimento direto de Deus.

Mas há apenas um ser humano cujo conhecimento leva ao conhecimento de Deus: Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é a imagem perfeita do Pai, como diz Colossenses 1, 15. Assim, este argumento erra o alvo.

4. Concluindo.

Concluímos, com esta questão, o estudo atinente à capacidade humana de aprender e conhecer naturalmente, no estado de vida natural nesta Terra. Na próxima questão, estudaremos a inteligência humana em seu funcionamento no estado após a morte. Muito interessante.