1. Introdução.

Como sabemos, o debate sobre o conhecimento de Deus, objetivamente falando, foi realizado na questão 12 desta primeira parte da Suma. Ali, chegamos à conclusão de que Deus não pode ser conhecido, isto é, não podemos chegar a estabelecer uma relação de contemplação intelectual de Deus mesmo nesta vida. Apenas podemos, pela chamada “via da remoção” (que mencionamos no artigo anterior), saber que há um Deus e o que ele não é. É certo que, na questão 02, já havíamos tratado das chamadas “vias” para o conhecimento de Deus. Mas estas vias são muito mais caminhos para sabermos exatamente do que estamos falando, quando falamos de Deus, do que propriamente meios estritamente racionais para conhecê-lo. Não há meios estritamente racionais para chegar até Deus, para contemplá-lo, para entrar em relação pessoal com Ele. 

Mas o debate, nesta questão 88, parte de um ângulo diferente: se, naqueles primeiros debates, a visão era “de cima para baixo”, ou seja, a partir de Deus estudávamos como podemos conhecê-lo, aqui o debate é “de baixo para cima”: a partir da estrutura da nossa inteligência, como poderíamos conhecer Deus?

Há uma dificuldade, ainda hoje, em separar Deus da sua criação, como as duas ordens diversas de existência que realmente são. Deus não é uma das coisas do universo, ele está além, embora o universo exista nele e por ele. A nossa dificuldade de entender essas duas verdades (1. Deus não é uma coisa a mais no Universo, não é uma espécie de ente superpoderoso como os deuses gregos antigos; 2. Deus sustenta o Universo dinamicamente, de tal modo que nada ocorre sem ele) é permanente e atravessa todas as culturas. Há tanto o risco do ateísmo racionalista (declarar que Deus não existe, porque não pode ser visto no jogo da causalidade universal), quanto do deísmo (Deus existe, criou o universo mas não intervém mais, porque, sendo o relojoeiro perfeito, não criou uma realidade que precise de sua “intervenção corretora”) quanto do panteísmo (Deus é o próprio universo) e, enfim, aquilo que Erich Przywara chamava de “teopanismo” (o universo é uma ilusão, não existe de verdade; quando retiramos os véus do engano, apenas Deus existe). 

Neste último caso, o do teopanismo, tudo o que existe é, na verdade, um véu que nos engana, e nos faz imaginar que as criaturas existem, mas apenas existe Deus. Quando nós conhecemos qualquer coisa, no fundo estamos conhecendo fundamentalmente Deus, se soubermos olhar para além das ilusões deste mundo. O risco de ver as coisas assim é muito grande, e, de certo modo, é o que debateremos neste artigo. Vamos a ele.

  1. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial propõe que, como Deus é o fundamento de existência e de inteligibilidade de todas as coisas, já que as cria, ou seja, dá a existência e o faz de uma maneira tal que elas podem ser conhecidas intelectualmente por nós, então quando conhecemos as coisas na verdade estamos conhecendo, em primeiro lugar, o próprio Deus que as criou. Em suma, a hipótese propõe que o primeiro e mais fundamental conhecimento intelectual é o conhecimento do próprio Deus, em quem todas as coisas adquirem existência e inteligibilidade.

Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida inicial. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que, no caso do sentido da visão, é a luz que permite que enxerguemos todas as coisas. No caso do conhecimento intelectual, precisamos dos primeiros princípios lógicos, como o da identidade e não contradição, para obter qualquer conhecimento intelectual posterior. Assim, é na luz e pela luz que enxergamos com nosso sentido da visão, como é nos princípios lógicos e por eles que aprendemos intelectualmente sobre o mundo. Pode-se dizer, então, que aquilo que permite que conheçamos as outras coisas é conhecido de modo mais fundamental e mais primariamente do que as outras coisas que dependem desses elementos pressupostos.

Ora, prossegue o argumento, é a verdade primeira, que é Deus, que permite que todas as coisas sejam conhecidas e julgadas por nós, como nos lembra Santo Agostinho. Logo, Deus deve ser conhecido por nós primariamente e de modo mais fundamental do que todas as outras coisas, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor vai no mesmo sentido, mas desta vez com fundamento bíblico. Para iniciar, o argumento propõe que aquilo que dá o ser a outra coisa deve possuir as qualidades que transmite para a outra coisa. É assim com os animais que se reproduzem: eles têm, em si mesmos, as qualidades que transmitem aos filhos. Os artistas, os técnicos, os artesãos, possuem em si mesmos as qualidades de harmonia, beleza e inteligibilidade que transmitem às suas obras de arte e produtos. 

Todas as coisas que existem são inteligíveis. Ora, elas foram criadas por Deus. Além disso, ele nos criou com a inteligência capaz de decifrar a inteligibilidade que ele colocou nas coisas criadas; ele é como que o fundamento não só da inteligibilidade do mundo, mas também da nossa capacidade de aprender, como se diz na Bíblia, em João 1, 9: Ele é a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo. Ora, se é assim, ele é a própria fonte de inteligibilidade, e portanto ele é aquilo que primariamente e fundamentalmente conhecemos, quando conhecemos o mundo, conclui o argumento.

O Terceiro Argumento Objetor.

O terceiro argumento faz um raciocínio bem curioso: quando olhamos para alguma coisa que é imagem de outra, a primeira coisa, a coisa mais fundamental que conhecemos, ali, é a própria coisa original, da qual a imagem é a representação. Assim, se olharmos, por exemplo, para uma imagem de Nossa Senhora, o que primeiro conhecemos ali é a própria Nossa Senhora, que é a origem da imagem, ou seja, é a sua causa exemplar.

Ora, prossegue o argumento, nós somos imagem e semelhança de Deus, e essa imagem se configura, antes de mais nada, no fato de sermos inteligentes. Isto é, é a nossa mente que é, antes de mais nada, imagem de Deus em nós. A mente divina é, portanto, causa exemplar  de nossa mente.

Se aplicarmos, portanto, aquele princípio de que as imagens nos revelam, fundamentalmente, o conhecimento das próprias causas exemplares em que foram inspiradas, temos que concluir que, ao conhecermos nossa própria mente, estamos conhecendo, de modo primário e fundamental, a própria mente de Deus, que é causa exemplar da nossa, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra

O argumento sed contra vai lembrar que as Escrituras sempre ressaltam muito o fato de que não podemos ver Deus, isto é, não podemos conhecê-lo, contemplá-lo diretamente, entrar em relação com ele mesmo, porque, como está dito em João 1, 18: ninguém jamais viu a Deus. Portanto, conclui o argumento, não temos o conhecimento primário e fundamental de Deus, diante do limite do nosso próprio intelecto.

5. Encerrando.

No próximo texto, examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás e avançaremos sobre suas considerações a respeito dos argumentos objetores iniciais.