1. Retomando.
Já vimos, então, que podemos ter alguma informação sobre entes imateriais como os anjos, a partir de analogias ou de seus efeitos na relação com o mundo material, mas não podemos conhecê-los, no sentido de saber quem são, de contemplá-los e entrar em relação consciente com eles. O que não significa que eles não possam entrar em relação conosco – e eles o fazem. Pensamentos, inspirações, proteções, consolações, tudo isto podemos receber de nossos anjos protetores, os santos anjos designados para caminhar conosco, como nosso anjo da guarda. Mas há também aqueles anjos perversos que nos podem tentar, influenciar para o mal, acossar e até, em casos extremos, exercer uma influência ou mesmo uma possessão. Somos passivos nessa relação; é como se estivéssemos sujeitos a um mundo no qual somos cegos, surdos e mudos do ponto de vista da nossa capacidade de tomar iniciativas, mas não o somos para recebê-las. Eis, aí, a importância do discernimento dos espíritos, para o qual, aliás, o Papa Francisco vem chamando nossa atenção numa série de catequeses que se encerrou agora em janeiro de 2023.
Mas voltemos ao artigo. Colocados os princípios, vamos estudar os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita o Pseudo-Dionísio, que lembra que nossa inteligência humana só consegue se elevar à contemplação das coisas celestes, que são espirituais, imateriais, a partir de uma base de conhecimentos obtidos aqui mesmo, no mundo criado, em sua materialidade. Assim, o argumento conclui que, pelo conhecimento das coisas materiais podemos nos elevar ao conhecimento das substâncias imateriais.
A resposta de Tomás.
É possível, de fato, chegar a um certo conhecimento das coisas imateriais, celestes, por analogia com as coisas materiais. Mas esse conhecimento analógico é limitado, imperfeito, pobre mesmo. Vemos isto, por exemplo, na representação popular dos anjos como seres alados, a partir da ideia de que eles não estão presos às forças materiais, gravitacionais; não podemos, no entanto, imaginar que anjos são, realmente, seres humanos com asas. É apenas uma imagem metafórica para expressar uma analogia entre a leveza da imaterialidade dos anjos e a capacidade de voar das aves, expressando, ao mesmo tempo, que eles são seres pessoais como nós.
Devemos, porém, sempre lembrar que essas analogias são limitadíssimas, porque as dessemelhanças entre o mundo material e o mundo material são imensamente mais relevantes do que as semelhanças; é o que nos ensina o Catecismo da Igreja Católica no parágrafo 43, citando, aliás, o Quarto Concílio de Latrão, que ocorreu alguns anos antes do nascimento do próprio Tomás. Portanto, a posição do Pseudo-Dionísio apenas revela uma possibilidade de um conhecimento analógico, superficial, limitado.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que a ciência, isto é, o conhecimento intelectual organizado sobre algum assunto, consiste na aquisição de definições e noções sobre um determinado objeto. Ora, prossegue o argumento, existem verdadeiras definições e noções sobre os anjos, tanto de natureza filosófica como teológica, como aquelas que se encontram em estudiosos como São João Damasceno, dentre outros. Assim, conclui o argumento, podemos chegar a um conhecimento intelectual verdadeiro e certo sobre as substâncias imateriais como os anjos.
A resposta de Tomás.
Há um método, no caminho da aprendizagem intelectual, que é chamado de “via da remoção”: é quando, para pensar em algo mais perfeito, consideramos algo menos perfeito e removemos as imperfeições, de modo a atingir alguma noção sobre aquilo que é muito elevado para nosso intelecto. Essa via é muito utilizada na teologia, para discernir as perfeições divinas a partir das perfeições limitadas do ser humano: por exemplo, pensamos num pai humano e, eliminando os limites, podemos imaginar a perfeição da paternidade divina. O próprio Jesus faz isso em Mt 7, 9-11 (paralelo Lc 11, 11-13), quando diz: “Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem”. Esse método é utilizado, às vezes, até mesmo em ciências naturais: quantas vezes a física calcula o deslocamento de um corpo sem levar em conta a gravidade e o atrito, para fins de cálculo cinemático?
Este método, porém, quando aplicado às coisas imateriais, pode nos fornecer algumas informações sobre o que as coisas celestes não são; mas não pode nos informar sobre o que elas de fato são, senão muito indiretamente: ou seja, pela via da remoção não atingimos a quididade das coisas imateriais, para usar a terminologia de Tomás. Portanto, essa via é capaz de nos dar algumas informações, mas não um conhecimento pleno, intelectual, direto, sobre as substâncias imateriais. Não podemos, pois, confundir a aquisição de algumas informações e noções com a verdadeira ciência.
O terceiro argumento objetor.
A nossa alma intelectual é capaz de subsistência sem o corpo, como já sabemos. Também é capaz de operações estritamente imateriais, como as operações intelectuais. Ela compartilha, pois, certa natureza angelical, imaterial. Ocorre que, como já estudamos na questão anterior, nós somos capazes de conhecer a alma humana, não só por um processo de autoconhecimento, mas mesmo por um processo intelectual capaz de atingir uma ciência universal e abstrata sobre ela.
Se é assim, prossegue o argumento, nada impede que nós venhamos igualmente a conhecer essa outra substância imaterial que são os anjos, similares à alma humana, por uma ciência igualmente segura, conclui.
A resposta de Tomás.
O processo pelo qual a alma humana chega à perfeição do conhecimento, isto é, pelo qual ela atinge o seu ato, não é um processo puramente imaterial: já vimos que é por meio dos sentidos, com toda a sua materialidade, que chegamos ao conhecimento. Ora, antes de conhecer, a alma humana é, quanto ao seu intelecto, estritamente potencial, ou seja, é um poder-ser que ainda não atingiu propriamente o ser. Portanto, é o processo de conhecimento, chegando ao ato, que permite que nós possamos contemplar e conhecer a própria alma humana. Podemos dizer que, de certo modo, para os seres humanos, conhecer é conhecer-se. É este processo de conhecimento e autoconhecimento, que não exclui a matéria (embora a própria operação intelectual seja imaterial) que permite ao ser humano conhecer adequadamente a alma humana. Ela se revela, se dá a conhecer, pelo seu próprio processo de conhecer.
Mas não é assim com os anjos. Não há, neles, nenhum processo de aprendizagem que envolva alguma aptidão material, ou que transite da potência ao ato. Os anjos já são criados com todo o conhecimento intelectual de que precisam, e não têm nenhuma operação que dependa da matéria. Assim, eles estão inteiramente além da capacidade humana de conhecer, do modo humano de explorar seus objetos de conhecimento. Em suma, os anjos não são objetos de conhecimento proporcionado à inteligência humana, e portanto a comparação com a alma humana não é adequada, conclui Tomás.
O quarto argumento objetor.
Há um caminho de conhecimento científico que parte do estudo dos efeitos para chegar ao conhecimento intelectual, científico, confiável, das respectivas causas. De modo similar àquele pelo qual os detetives policiais examinam a cena do crime para, a partir dos efeitos da ação dos criminosos, chegar à descoberta dos autores, o conhecimento intelectual pode investigar os efeitos, por exemplo, de um asteroide que caiu na Terra há milhões de anos para identificar as causas da extinção dos dinossauros.
Ora, é inegável que este tipo de estudo só pode ser bem-sucedido quando a causa e os efeitos estão no mesmo plano de existência, isto é, os efeitos criados somente podem nos encaminhar à descoberta de causas criadas. Portanto, este caminho de investigação não pode nos levar a um conhecimento científico de Deus, porque Deus não tem causas em si mesmo, e não é uma causa criada, não estando, portanto, no mesmo nível dos efeitos criados. Ele, sendo incausado e incriado, dista infinitamente dos efeitos criados e, portanto, não pode ser investigado a partir da investigação dos efeitos criados. Um trabalho de detetive poderia, no máximo, identificar que existe uma causa que é, ela própria, incausada, mas não poderia alcançar, por essa via, nenhum conhecimento efetivo sobre ela.
Mas com os anjos não é assim. Eles são criaturas, e, portanto, os efeitos que eles podem causar no mundo são da mesma natureza criatural que eles próprios. Portanto, um trabalho de detetive, estudando estes efeitos, pode levar a um conhecimento intelectual, certo, e até a estabelecer uma relação às claras com os anjos, descobrindo-os pela metodologia que leva dos efeitos às causas, tudo isto a partir das capacidades do intelecto humano, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Sim, os anjos são criaturas, não há dúvida. E criaturas vivas, relacionais, capazes de causar efeitos e de se relacionar com o restante do mundo criado. Mas isto não permite que nós possamos estudá-los do mesmo modo com que estudamos os entes materiais, como que classificando-os em gêneros e espécies biológicas; eles não se enquadram em classificações biológicas de gênero e espécie, como as que classificam plantas, animais e os seres humanos. Assim, eles não podem ser investigados pelo mesmo método que envolve a causalidade de efeitos materiais por coisas materiais.
Mas os anjos são criaturas, e assim a sua existência é dada por Deus. Portanto, Deus pensa em sua essência, e dá existência a essa essência. Nos anjos há, portanto, composição de essência e existência, o que permite enquadrá-los no gênero lógico das criaturas (entes que não existem por si mesmos, ou seja, nos quais a essência não é o próprio existir, como Deus). Portanto, uma vez que eles podem ser classificados no gênero lógico das coisas criadas, que é o mesmo gênero que envolve todas as outras criaturas (inclusive nós próprios), nós podemos saber, com segurança do conhecimento intelectual, algumas verdades sobre eles, naquilo que coincidem conosco no mesmo gênero lógico das criaturas.
Isto não nos dá, porém, nenhum conhecimento específico, isto é, um conhecimento individual de cada anjo, de tal modo que pudéssemos efetivamente experimentá-los, conhecê-los pessoalmente e entrar em relação com eles. Este conhecimento é, para nós humanos, impossível.
Quanto a Deus, porém, ele não pode ser classificado em nenhum gênero ou espécie lógicos, porque ele supera todos os gêneros e todas as espécies. Assim, não há nenhuma categoria que nos permitisse estabelecer qualquer espécie de conhecimento intelectual direto ou indireto do que ele é. Quanto a ele, podemos saber apenas o que ele não é: ele não é um ente no meio dos entes, como os anjos são criaturas em meio a criaturas; Deus é algo que supera infinitamente a criaturalidade de qualquer ente.
3. Conclusão.
Quando alguém quer apresentar alguém a outra pessoa, simplesmente mostra uma pessoa a outra, trocam nomes e informações pessoais e dialogam. Neste momento, qualquer um dos dois pode dizer a um terceiro: “eu conheço aquela pessoa”. Isto não pode ocorrer entre nós e os anjos.
E quanto a Deus? E quanto ao nosso conhecimento sobre ele? Veremos isto no próximo artigo.
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