1. Retomando o texto.

Não tenho dúvida de que os anjos são capazes de nos ver e de influenciar em nossas vidas, e isto não é necessariamente uma boa notícia. Eles são criaturas, são mais poderosas do que nós e nem todos são santos, mas, ao revés, alguns são irremediavelmente maus. Mas não há outra explicação para tantas religiões que pregam o contato com “seres espirituais” e “espíritos desencarnados”, como tampouco existe outra explicação para tantos males psiquiátricos que envolvem ouvir e enxergar vozes, normalmente não vozes amáveis, mas perversas. A linha é tênue, quanto a nós e eles. Mas nos é impossível, mesmo sabendo que eles existem, ter um controle, um conhecimento adequado deles como temos das outras pessoas. Mas estamos nos adiantando.

Vimos, no texto anterior, a hipótese de que podemos chegar a um conhecimento seguro dos anjos. Não se trata, aqui, de um “conhecimento” teórico e abstrato, mas daquele tipo de conhecimento que mencionamos quando dizemos: você conhece o Papa? Sim, sabemos que há um papa, podemos acompanhá-lo pelos meios de comunicação, mas nunca fomos apresentados a ele, então não o conhecemos no sentido pleno da palavra. É claro que todo mundo tem (ou teve) uma mãe, mas saber disso não me faz conhecer automaticamente as mães dos meus amigos, se eles não vierem a apresentá-las a nós. É nesse sentido, no sentido mais pleno da palavra “conhecer”, que tratamos, aqui, do conhecimento dos anjos.

Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

A visão platonizante de Avempace.

Tomás vai iniciar sua resposta lembrando de uma velha corrente filosófica que prega que a abstração parte do conhecimento sensível para atingir o conhecimento intelectual mais abstrato e universal: primeiro, abstraímos a matéria do indivíduo (por exemplo deste cão) para chegar à quididade, ou à própria essência, dos cães, e passamos a conhecer a espécie dos cães. Mas ainda há, neste conhecimento, uma certa materialidade, porque os cães são um tipo de ser material; há, então uma segunda abstração, que chega às próprias quantidades envolvidas nos cães (tamanho, peso, etc.) e alcança, portanto, um segundo grau de abstração que é a matemática. E assim por diante, vamos abstraindo cada vez mais as puras formas da respectiva matéria. Mas para um certo filósofo árabe (um certo Avempace, citado por Averróis) esse caminho não seria infinito: a nossa inteligência atingiria o limite quando alcançasse as formas puríssimas que são completamente imateriais e determinam as coisas materiais todas com que convivemos. Estas seriam as substâncias imateriais, segundo Avempace, e seriam perfeitamente cognoscíveis por nós.

Mas Tomás enxerga, aí, um platonismo, isto é, a ideia de que há um mundo separado deste nosso, no qual há puras formas que determinam as coisas materiais, imperfeitas que conhecemos aqui. Mas não é disso que falamos, diz Tomás.

A posição de Tomás.

Não é hora de demonstrar que a concepção platônica de um “mundo separado” repleto de “puras ideias” é falso; mas, quando debatemos o conhecimento das “substâncias separadas”, ou “imateriais”, não estamos falando de abstrações que se atingem a partir do conhecimento do mundo material, mas de algo bem diferente: falamos de entes que, por sua natureza mesma, existem como entes imateriais, puramente espirituais, e não podem ser abstraídos ou conhecidos a partir do conhecimento do mundo natural. São de outra ordem. Portanto, não podemos chegar a encontrá-los, conhecê-los, contemplá-los, a partir de algum suposto “processo de abstração” pelo conhecimento das coisas materiais. Eles são de outra ordem, com relação às coisas materiais.

É certo que podemos obter alguma noção, alguma informação, a respeito desses seres, pelo conhecimento indireto de sua atuação no mundo, ou por analogia com relação às coisas materiais. Mas não é deste tipo de conhecimento que estamos falando aqui; falamos, isto sim, da impossibilidade de obter um conhecimento unívoco, relacional, contemplativo, desses entes. Isto é naturalmente impossível para nós, dada a estrutura da nossa inteligência.

3. Encerrando.

A resposta de Tomás é breve; isto se dá porque o presente artigo possui quatro argumentos objetores iniciais, nos quais ele vai desenvolver melhor seu pensamento. Nós os examinaremos no próximo texto.