1. Introdução.

Agora, neste artigo, fica mais claro o assunto desta questão: estamos falando dos seres propriamente imateriais, como os anjos. Deus é imaterial também, mas não porque seja um ente desprovido de matéria, como os outros, mas porque está acima de toda matéria e de toda forma, e propriamente não pode ser enquadrado no gênero dos “entes imateriais”. Deus não pode ser enquadrado em gêneros e espécies. Por isso, não é propriamente de Deus que falaremos neste artigo: este assunto ficará para o próximo artigo.

Também não tratamos aqui das noções imateriais como a matemática ou a metafísica. Estas são noções abstraídas ainda do mundo material. A matemática lida com as quantidades, ainda que de um modo muito abstrato; mas quantidades são, afinal, quantidades de matéria. A metafísica, também, lida com a estrutura do mundo, mas o mundo é material. Nosso assunto, então, é atinente ao modo pelo qual podemos, enquanto caminhamos nesta terra, conhecer os anjos. Eles são os entes puramente espirituais, imateriais, que subsistem como tal e não têm, em si, nenhuma dependência da matéria para existir. É deles que tratamos, quando estudamos o modo de conhecer aquilo que é estritamente imaterial.

A outra questão à qual precisamos estar muito atentos é a própria noção de conhecer. Conhecer, aqui, não é ter notícia, ter informações, ser ensinado sobre alguma coisa a partir de fora, como (diríamos hoje) alguém que vai à internet e estuda um assunto por meio de tutoriais e textos. Isto é “informar-se”, e é fundamentalmente isto que os livros e a internet nos proporcionam.

A noção de conhecer vai muito além da noção de estar informado sobre alguma coisa. Conhecer é ser capaz de estabelecer uma relação com um ente, mas uma relação que envolva a experimentação, sem se limitar a ela. Conhecemos alguma coisa de fato quando formamos dela uma imagem intelectual, por meio da exploração pessoal que leva à abstração da mente sem excluir a relação de contato. Cabe, aqui, o exemplo da maçã: posso ter pesquisado tudo sobre a maçã, posso ter lido tutoriais na internet, posso ter assistido vídeos e ouvido podcasts sobre ela, posso conhecer profundamente suas peculiaridades físicas, químicas e biológicas pelo acesso aos mais impressionantes relatórios laboratoriais, mas não posso dizer que realmente conheço uma maçã se nunca a vi, se nunca a cheirei pessoalmente se nunca comi uma maçã. Esta seria, também, a diferença entre aquele que, sem ter filhos ainda, sabe tudo sobre o modo de criá-los, por um lado, e tê-los efetivamente gerado e criado, de modo virtuoso e responsável, por outro. Somente este último tem efetivo conhecimento sobre a criação de filhos.

Com estas distinções em mente, vamos nos debruçar agora sobre este artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial propõe que, uma vez que chegamos ao conhecimento propriamente intelectual (que é imaterial e abstrato) de realidades puramente imateriais como a matemática, a metafísica, as ideias universais sobre as coisas, então, de modo similar, deveríamos poder chegar ao conhecimento das substâncias imateriais (como os anjos) por meio do conhecimento das coisas materiais; nosso conhecimento do mundo material poderia nos levar a estabelecer uma relação de conhecimento verdadeiro quanto às substâncias imateriais, como nos leva ao conhecimento verdadeiro da matemática, da metafísica e de tantas outras abstrações.

Há quatro argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese. Vamos a eles.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor traz uma citação do Pseudo-Dionísio, autoridade muito respeitada no tempo de Tomás, e que ensinava que a nossa inteligência humana, para contemplar as coisas propriamente celestes, precisa sempre da ajuda do conhecimento das coisas materiais. Seria mais ou menos aquela ideia, ainda difundida em certos meios científicos hoje, de que poderíamos construir laboratórios tão complexos e precisos que seriam capazes de detectar e controlar o contato com essas inteligências separadas, se elas existirem, por meio da detecção de fenômenos que elas produzem por aqui, como fenômenos paranormais, mediunidade e coisas assim. Ora, se este grande escritor antigo ensina que a contemplação das coisas celestes é possível, desde que devidamente apoiado no conhecimento das coisas materiais, quer dizer, na verdadeira ciência, então esta ideia de que podemos chegar a interagir com essas inteligências separadas, imateriais, que chamamos anjos, e de que somos capazes de contemplá-las e estabelecer relação com elas, a partir do conhecimento que adquirimos das coisas materiais, é verdadeira, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor parte da noção de que o conhecimento intelectual consiste na ciência, ou seja, no conhecimento universal e abstrato das coisas a partir de suas causas, e este conhecimento se dá por definições e conceitos que estão em nossa mente. Ora, temos definições e conceitos universais e abstratos sobre os anjos, e informações sobre suas causas e suas atividades; o próprio São João Damasceno define os anjos, e a filosofia e a teologia são capazes de formar noções universais e abstratas a respeito deles. Assim, nossa mente tem a capacidade de desenvolver uma verdadeira ciência, no sentido intelectual da palavra, sobre os anjos, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor parte da ideia, muito espalhada ainda hoje, de que a nossa natureza humana é a de um tipo de “anjo” espiritual, completo em si mesmo, que acidentalmente se relaciona com a matéria por possuir, num determinado estágio de sua vida, um corpo. Sabemos quão falsa é essa noção: somos essencialmente seres materiais com funções intelectuais espirituais, mas não somos anjos. Mas o argumento, seguindo esta linha de que nossa alma espiritual seria algo do mesmo gênero dos anjos, nos lembra que somos capazes de autoconhecimento, ou seja, de chegar a conhecer intelectualmente essa estrutura que é a nossa própria mente, na sua natureza de alma espiritual. E o fazemos porque observamos a mente funcionando, interagindo com o mundo, conhecendo, e com isso refletimos sobre seu ato e a conhecemos. Ora, se conseguimos conhecer realmente a nossa própria alma, que é essencialmente imaterial por sua natureza, nada nos impede de obter o mesmo nível de conhecimento de outras substâncias imateriais, como os anjos, a partir de sua atividade no mundo, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

A ciência, ou seja, o conhecimento intelectual adequado sobre as coisas, é caracterizado pela formação de noções intelectuais sobre as causas que atuam na coisa e a partir da coisa. Este tipo de conhecimento, que é próprio da mente humana, somente não pode atingir aquelas causas que são infinitamente distantes de seus efeitos, ou seja, que não estão na mesma ordem dos efeitos, como é o caso de Deus: Deus é a causa incriada, perfeita, absoluta, mas nossa ciência somente é capaz de conhecer as causas criadas, imperfeitas, relativas. Ora, os anjos não são deuses, e portanto a relação de causalidades em que estão envolvidos é da ordem criatural, não da ordem divina. Portanto, essa relação de causalidades, que envolve os efeitos causados pelos anjos no universo criado, sua atividade, pode ser realmente conhecida por nós com ciência certa, verdadeira e consistente, a partir do estudo do universo material, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra também vai buscar a autoridade do Pseudo-Dionísio, que tanto tratou dos anjos quanto dos limites do conhecimento humano.

Ora, o Pseudo-Dionísio dizia que há três limites para o modo de conhecer:

1. Os seres que têm apenas a capacidade de conhecimento sensorial, como os cães e os cavalos, são incapazes de chegar a conhecer as realidades intelectuais, como a matemática, a lógica ou a metafísica. Ees podem conhecer apenas os indivíduos e suas características sensíveis, como cheiro, aparência, textura ou sabor.

2. Os seres compostos (ou seja, aqueles seres que são formados a partir de outros elementos, como o ser humano, que é composto de uma estrutura imaterial e um corpo material, ou mesmo os anjos, que são compostos de sua essência concebida por Deus e sua existência efetiva, dada por ele) não podem chegar a inteligir os seres simples como Deus, em quem não há nenhum tipo de composição ou elementos (em Deus, essência e existência são uma coisa só, em Deus não há composição de forma e matéria, nem de sensibilidade e intelectualidade, e assim por diante).

3. Os seres corpóreos (como nós, humanos, ou os cães e os cavalos) não podem vir a experimentar, contemplar e conhecer realmente os seres espirituais, incorpóreos, como Deus e os anjos.

Assim, pela autoridade do Pseudo-Dionísio, podemos estar certos de que não somos capazes de obter um conhecimento verdadeiro, real, relacional e contemplativo dos anjos, conclui o argumento.

5. Encerrando.

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.