1. Voltando para finalizar.

Com este rico artigo, temos estudado qual é a base segura para a razão humana; não para desprezar o conhecimento analógico, ou mesmo o conhecimento recebido; eles são formas válidas, mas incompletas, de conhecer. O conhecimento próprio, aquele que realiza o sentido pleno do conhecer, é o conhecimento intelectual que nasce da exploração sensorial do mundo, o conhecimento verdadeiramente vivido, experimentado, concreto. Isto é muito interessante de relembrar, num momento em que o mundo digital parece ser mais fascinante do que o mundo concreto. O mundo digital é um mundo derivado, secundário, que nos proporciona apenas conhecimentos indiretos, incompletos, provisórios, embora importantes. Mas sua grande capacidade de envolver, de entreter, de dar prazer, de aparentemente superar limites, tem se mostrado um grande desafio para o ser humano. Por isso, reler Tomás é receber esse convite para  ter os dois pés bem apoiados no chão do mundo real. Por isso, desenvolver um amor, uma estabilidade e um prazer verdadeiro de viver no mundo real parece ser o maior desafio ao qual nossa geração está sendo chamada.

Vamos examinar, então, os três últimos argumentos objetores e suas respostas.

  1. Os últimos argumentos objetores e suas respostas.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor parte da constatação de que os objetos dos sentidos podem, eventualmente, ser tão intensos que vêm até mesmo a prejudicar os próprios órgãos dos sentidos. Nosso tato pode identificar o calor, mas um objeto muito quente pode queimar nossos dedos. Nossos olhos podem ver a luz, mas olhar diretamente para o sol pode lesar os olhos irremediavelmente. Assim, não podemos imaginar que um objeto mais intenso, do ponto de vista sensorial, forneça mais informações do que um menos intenso, mas isto decorre de um limite dos nossos órgãos dos sentidos, não do objeto mesmo. Se nossos órgãos dos sentidos não fossem tão frágeis, um objeto com alguma característica muito intensa nos daria mais informações, e portanto seria ainda mais inteligível.

Mas, no caso dos objetos inteligíveis, este problema não acontece. Já vimos, em outros debates, que nossa mente é imaterial, e por isso ela não pode ser de algum modo ferida ou lesionada pela intensidade do objeto. Daí termos que concluir que um objeto mais inteligível teria que ser mais diretamente apreendido pela nossa mente.

Ora, as substâncias separadas, sendo puras formas sem matéria, são necessariamente muito mais dotadas de inteligibilidade do que as substâncias naturalmente materiais. Então nossa mente deve ser capaz de apreendê-las de modo ainda mais direto do que as materiais, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É preciso lembrar, diz Tomás, que entre ignorar e aprender, entre não saber e saber, existe um processo de conhecimento que é uma passagem da potência ao ato. Ora, todo processo de passagem de uma potência para um ato envolve um caminho, que, no caso da inteligência humana, é o caminho da exploração do mundo por meio dos sentidos. Então, na verdade, a razão pela qual aquelas coisas que apresentam maior intensidade sensorial não são conhecidas diretamente por nós, não somente porque lesam os órgãos dos sentidos (como a luz direta do sol faz com os olhos), mas porque elas ultrapassam a própria capacidade de conhecer, dos sentidos. Nossa visão simplesmente não é capaz de processar o nível de luminosidade do sol, não somente porque a retina não aguenta fisicamente o seu brilho, mas porque nossa própria capacidade de interpretar os estímulos não dá conta de lidar com essa intensidade de estimulação. 

De modo análogo, não somente nosso intelecto não tem um caminho para apreender diretamente qualquer estímulo que não nos chegue por meio dos sentidos, como não tem a capacidade para interpretar e lidar diretamente com a intensidade de informação envolvida nas substância separada. É por isso que, mesmo sabendo que os anjos e o próprio Deus são puras formas, portanto altamente dotados de inteligibilidade, nosso intelecto não tem proporção com a inteligibilidade deles, de modo a podê-los conhecer diretamente.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor é de Averróis.  Ele defendia a ideia de que a natureza não trabalha em vão. Quando um ente natural possui alguma característica própria, é de se esperar que, na maioria das vezes, essa característica se desenvolva. Assim, é de se esperar que a imensa maioria dos peixes consiga nadar, e que a imensa maioria das aves consiga voar.

Ora, se as substâncias separadas, como os anjos por exemplo, são pura inteligibilidade, então elas devem ser inteligidas, como seria natural. Se elas não são apreendidas, a natureza falhou nelas, e seria algo análogo a imaginar que os peixes não conseguissem nadar, por exemplo. Logo, uma vez que, normalmente, a natureza não falha naquilo em que opera, as substâncias separadas podem ser apreendidas diretamente por nós, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O raciocínio de Averróis não está correto, diz Tomás. 

Em primeiro lugar, o fato de que as substâncias imateriais não sejam apreendidas por nós não significa que sua inteligibilidade falhou. De fato, elas são conhecidas por si mesmas e pelas outras substâncias separadas, como vimos quando estudamos a natureza dos anjos. A sua inteligibilidade, portanto, continua plena.

Mas há uma segunda questão: os peixes têm, entre seus fins, aquele de serem hábeis em nadar, como as aves devem ser hábeis em voar. Mas as substâncias separadas não têm, entre seus fins, aquele de serem capazes de ser conhecidas. Isto é uma caraterística, mas não uma finalidade de sua existência. Por isso, o fato de que elas não sejam conhecidas por nós não é uma falha em sua natureza, como seria uma falha que um peixe não fosse capaz de nadar. Portanto, o raciocínio não procede.

O quinto argumento objetor.

O quinto argumento objetor faz uma comparação entre as capacidades dos órgãos dos sentidos e a capacidade de apreensão da nossa mente. Essa comparação vem, na verdade, de uma característica da física do tempo de Tomás, quando se achava que os corpos celestes, ou seja, a lua e tudo que está acima dela, seriam compostas de outro tipo de matéria, diversa da matéria das coisas aqui da terra; seria uma matéria mais perfeita, indestrutível, eterna e imutável, porque os corpos celestes, segundo eles acreditavam, seriam estáveis, uniformes e imutáveis. Hoje sabemos que não é assim, e que a mesma composição material que está na Terra está em todos os corpos celestes, e a Terra não é uma espécie de “centro do universo”, ao redor da qual as outras coisas giram. Mas era esta a visão, e precisamos conhecê-la para entender o debate proposto por este argumento.

O argumento diz que nossos olhos, sendo órgãos do sentido da visão, são capazes de enxergar tanto as coisas contingentes e destrutíveis aqui da Terra, quanto os corpos celestes indestrutíveis e imutáveis, “superiores” em composição, do céu. 

Ora, se o sentido da visão é capaz de enxergar as coisas terrestres e as celestes, independentemente de sua natureza inferior ou superior, então nossa mente deve ser capaz de inteligir as coisas materiais e imateriais, mesmo considerando que estas são superiores àquelas, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás

Os órgãos dos sentidos, especificamente os olhos, são capazes de ver as coisas terrenas e os corpos celestes pelo mesmo modo, isto é, pela percepção dos estímulos visuais transportados pela luz que atingem o órgão e o estimulam. O mesmo modo de ver, portanto, se aplica às realidades materiais da Terra ou do espaço sideral.

MAs no caso das realidades imateriais, quanto à sua inteligibilidade, a analogia não funciona. De fato, um é o caminho para conhecer as coisas materiais; é o caminho da exploração sensorial, da recepção de estímulos sensíveis da coisa pelos órgãos dos sentidos, e formação da imagem sensorial na memória, para que o intelecto agente possa extrair os dados inteligíveis, que é a species ou forma universal e abstrata, imprimindo-a no intelecto possível. Ora, esse tipo de exploração sensorial é impossível de ser feita nas substâncias separadas: ninguém pode enxergar, apalpar ou cheirar um anjo, por exemplo. Assim, uma vez que não conseguimos formar a imagem o phantasmata da substância imaterial, tampouco conseguimos apreendê-la diretamente, conclui Tomás. Assim, a analogia não funciona.

  1. Concluindo.

É muito interessante conhecer este limite da nossa inteligência. No próximo texto continuaremos a explorar nossa relação com as substâncias separadas, debatendo o segundo artigo desta questão 88.