1. Retomando.

Conhecer não é uma noção unívoca. Podemos tomar conhecimento das coisas, sem conhecê-las de fato. É o caso de um biólogo que estudou uma fruta existente num país longínquo, que ele nunca veio a experimentar; ele pode saber tudo o que foi escrito sobre ela, ouvir relatos, conhecer sua aparência por fotos e filmagens, ter ideia do seu sabor por descrições poéticas, mas não conhecerá de fato a fruta enquanto não tiver contato físico com ela, enquanto não puder tocá-la, cheirá-la, provar pessoalmente o seu sabor. Somente assim é que há verdadeiro conhecimento humano: quando há o conhecimento intelectual a partir da experimentação sensorial. Assim sendo, como poderemos jamais conhecer aquilo que jamais poderemos experimentar adequadamente? Este é justamente o problema com o conhecimento daquilo que existe separadamente do mundo material; vimos, na resposta de Tomás, como ele não se omite em debater com as grandes tradições filosóficas que encontra, e como responde pormenorizadamente aos platônicos e aos averroístas. Acompanhar sua resposta não é fácil, mas é interessante, porque algumas correntes que, no tempo de Tomás, se apresentavam abertamente, ainda hoje existem, embora de maneira mais sutil. é interessante ver como sua resposta a Averróis poderia ser aplicada à nossa relação, hoje em dia, com a Rede Mundial de Computadores: com toda a sua sofisticação tecnológica, a internet não implica, necessariamente, um verdadeiro ganho de inteligência para cada um de nós, porque não substitui o modo humano e completo, pessoal, de conhecer. 

É com isso em mente, e depois de termos lido a resposta sintetizadora de Tomás, vamos começar a revisitar os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor vai buscar uma citação de Santo Agostinho, na qual ele diz que a nossa mente alcança o conhecimento das coisas corpóreas por meio dos sentidos corpóreos, mas alcança o conhecimento das coisas imateriais por si mesma. Assim, o argumento acredita que conseguimos conhecer diretamente as coisas imateriais.

A resposta de Tomás. 

De fato, desta citação de Santo Agostinho, diz Tomás, podemos concluir que não conseguimos conhecer as coisas incorpóreas, ou seja, as substâncias separadas, diretamente, pelo nosso processo de conhecimento ordinário; no entanto, a nossa autopercepção, que estudamos na questão anterior, leva a que possamos perceber a espiritualidade de nossa própria alma, e com isso adquirimos algum fundamento para ter algum conhecimento indireto, por analogia, das outras coisas imateriais. É sempre, no entanto, um conhecimento indireto, analógico, limitado, este que a nossa mente pode adquirir das substâncias separadas, mediante o autoconhecimento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra aquele velho princípio da filosofia clássica do conhecimento: o semelhante conhece o semelhante. De fato, nossos olhos possuem sensores adequados aos diferentes comprimentos de onda da luz, e assim podem conhecer a luz. Nossos ouvidos possuem uma estrutura capaz de vibrar com as ondas sonoras, e assim conseguimos ouvi-las. Ora, se as coisas são assim, então o fato de que nossa mente é espiritual, ou seja, é imaterial em sua estrutura e funcionamento, torna-a mais parecida com as substâncias incorpóreas, separadas da matéria, do que dos entes corporais, então ela pode conhecer diretamente (de modo até mais perfeito) as coisas imateriais, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A semelhança é um princípio de conhecimento, mas não é uma semelhança no sentido da igualdade. Se fosse assim, cada vez que nossa mente conhecesse uma coisa material, ela se tornaria um pouquinho material também, e nós andaríamos por aí cheios de coisas materiais na mente. Mas não é assim.

A semelhança consiste no fato de que o órgão do conhecimento deve ser adequado para receber a coisa conhecida como conhecimento, não como existência material. Assim, os olhos são capazes de perceber os diferentes comprimentos de ondas de luz, mas não são, eles próprios, luminosos. De modo análogo, a mente é capaz de receber a estrutura, a ideia universal e abstrata das coisas, que está nelas como forma, e portanto é imaterial. Mas ela faz isto por um processo de percepção material, usando os órgãos do corpo como os sentidos e a memória. Assim, a mente é imaterial porque o conhecimento é imaterial, e neste sentido ela é semelhante ao conhecimento que adquire. Mas ela está naturalmente proporcionada a conhecer imaterialmente as coisas materiais. Por isso, o argumento está equivocado.

  1. Encerrando por enquanto. 

Estes argumentos e estas respostas têm o condão de deixar mais clara a discussão, um tanto teorética, estabelecida na resposta sintetizadora.

No próximo texto, veremos os três últimos argumentos objetores.