1. Voltando ao tema.

Vimos, então, no último texto, a posição de três grandes pensadores (Platão, Aristóteles e Averróis) sobre a questão do modo pelo qual nossa mente pode (ou não) conhecer diretamente as chamadas “substâncias separadas”, isto é, aquelas coisas imateriais como os anjos. Vimos que Platão pleiteia que nossa mente viveu, antes desta vida, num “reino das ideias” no qual ela apreendeu diretamente, como substâncias separadas, as puras ideias sobre tudo o que existe neste mundo material. Vimos a posição de Aristóteles que pleiteia um processo de aprendizagem empírico, e portanto afasta a possibilidade de conhecermos diretamente as substâncias imateriais. E, por fim, a posição de Averróis, que aceita o processo empírico, mas pleiteia a existência de um certo “intelecto agente” único para toda a espécie humana, separado da nossa individualidade material, que seria o responsável pelo conhecimento das coisas imateriais, quando unido a nós. Tomás, como vimos, ensina que esta posição de Averróis é insustentável. Veremos, agora, os motivos pelos quais Tomás a considera assim.

  1. A resposta sintetizadora.

Tomás vai nos dar, agora, seis razões pelas quais ele considera que não pode existir um “intelecto agente” separado da pessoa humana, que fosse a fonte do nosso conhecimento intelectual, como propõe Averróis. As razões são as seguintes:

Em primeiro lugar, se o intelecto agente fosse uma substância separada, ele seria outra coisa com relação a cada um de nós. Como seria possível que nós pudéssemos conhecer intelectualmente, se o órgão de conhecimento não estivesse em nós? De fato, se nosso intelecto fosse completamente passivo, ele simplesmente não conseguiria aprender nada; se o intelecto agente não é parte do indivíduo humano, é claro que o aprender não seria uma atividade humana, mas uma atividade de alguma outra coisa que não somos nós. Mas somos nós que agimos, no processo de aprendizagem. Sou eu mesmo que aprendo, não um “intelecto externo” que imprime conhecimento num “intelecto passivo” em mim. Para usar uma analogia com a internet, seria o mesmo que dizer que nossa mente é apenas um “terminal passivo” de uma rede inteligente. Ou seja, nada, nenhum conhecimento seria realmente meu, como nenhuma informação está de fato naquele “terminal de computador” que só pode funcionar se estiver ligado na internet. 

O segundo motivo é semelhante a esse, e Tomás faz uma analogia com o sol. De fato, é a luz do sol que faz com que todas as coisas sejam visíveis. Mas isto não significa que, quando eu enxergo as coisas que foram iluminadas pela luz do sol, eu esteja, de alguma maneira, me “unindo” ao sol para enxergar. Eu não poderia participar de alguma característica do sol simplesmente porque preciso da sua luz para enxergar o mundo; não é porque a luz do sol atualiza minha capacidade de enxergar que meus olhos passam, digamos, a ser capazes de emitir calor. De modo análogo, se existisse algum “intelecto ativo” que “iluminasse” espiritualmente nosso intelecto para que este recebesse passivamente o conhecimento intelectual, nem por isso eu poderia, como indivíduo, me “unir” a esse intelecto para participar de algum “poder intelectual” dele que não estivesse naturalmente em mim. Assim, não é porque existisse um “intelecto agente” separado, no mundo espiritual, com capacidade, digamos, para conhecer os anjos, que eu seria capaz, por alguma capacidade mágica, de conhecer os anjos também.

Em terceiro lugar, há esse suposto modo de união desse “intelecto agente separado” com a nossa alma. A escola de Averróis ensina que essa “união total” do intelecto agente externo com alguma alma humana não se dá em razão de aprender uma ou duas coisas inteligíveis, mas pelo conhecimento completo de todas as informações inteligíveis do mundo material. Ora, ainda que existisse um ser humano que fosse capaz de explorar todo o mundo material, de modo a conseguir uma perfeita união com o tal “intelecto agente”, mesmo assim teríamos que lembrar que apenas um ente imaterial, como um anjo, tem mais informações em si do que o conjunto de todas as coisas materiais. Assim, o intelecto agente teria muito mais informações, nele, do que até mesmo o mais esperto dos seres humanos que se uniu a ele. E isto significa que, mesmo o mais informado dos seres humanos não conseguiria tal união com o intelecto agente que o levasse a receber todo o conhecimento intelectual das substâncias separadas. Seria, fazendo uma comparação com o mundo da informática, imaginar que algum computador pessoal pudesse realizar uma conexão tão perfeita com a internet que pudesse receber todas as informações que estão na rede, o que é, claramente, impossível.

Em quarto lugar, uma razão curiosa: Tomás diz que a natureza faz os seres de uma maneira tal que a grande maioria, em cada espécie, consegue realizar os fins daquela espécie. Seria ilógico, por exemplo, que apenas uma minoria das vacas conseguisse digerir celulose. Mas a característica da espécie humana é justamente a inteligência, e apenas por meio de uma vida inteligente, repleta de contemplação e de ordem racional dos impulsos sensíveis, ou seja, uma vida virtuosa, é capaz de plenificar o ser humano. No entanto, apenas pouquíssimos, ou talvez praticamente nenhum, dos seres humanos seria capaz de adquirir completo conhecimento sobre tudo o que existe no mundo, para atingir uma união perfeita com o “intelecto agente” separado proposto por Averróis. Mas essa união perfeita, para Averróis, significa a própria realização humana. Logo, a realização humana seria simplesmente impossível, se o pensamento de Averróis fosse verdadeiro. O que seria uma contradição da natureza.

Em quinto lugar, Tomás vai usar um argumento aristotélico. Para Aristóteles, a felicidade consiste em uma atividade da alma, a atividade mais perfeita de todas. É uma visão muito interessante, que precisamos recuperar: a felicidade, para Aristóteles, não consiste em buscar deleites e prazeres, mas em realizar perfeitamente aquela atividade que mais caracteriza aquele ser. Assim, um peixe perfeito seria aquele que nada mais perfeitamente, e uma ave perfeita, aquela que mais perfeitamente voa; no nado perfeito o peixe atinge a sua felicidade, como o pássaro o atinge por voar perfeitamente. Quanto aos seres humanos, Aristóteles  afirma que, de todas as atividades virtuosas que aperfeiçoam a alma, a atividade mais elevada é a contemplação dos conhecimentos mais altos, ou seja, o desenvolvimento da virtude da sabedoria, que consiste justamente em contemplar o que de mais alto existe para ser conhecido. Ora, nada pode ser mais elevado do que contemplar as substâncias separadas; se, portanto, esta atividade só é feita pelo intelecto agente, e o intelecto agente não nos compõe pessoalmente, mas é algo separado de nós, então a nossa felicidade não estaria em nós, mas nele, o que seria, obviamente, um absurdo. A nossa felicidade deve ser uma atividade em nós, e não uma união com a atividade de outra coisa, conclui Tomás. Também por isso a proposição de Averróis é errônea.

Em sexto lugar, lembramos que já estudamos anteriormente, na questão 79, artigo 4, por motivos ali expostos, que o intelecto agente não pode ser algo fora da própria alma humana, mas uma capacidade da própria alma humana, a capacidade de poder iluminar as informações que, depuradas de suas condições de tempo e lugar, serão inscritas no intelecto passivo e se constituirão em nosso conhecimento intelectual. Ora então o intelecto agente, como parte de nossa própria mente, tem a mesma extensão que o intelecto possível. Mas ele só pode iluminar aquilo que, como seres humanos, podemos explorar empiricamente pelos nossos sentidos, e isto se limita às coisas materiais do mundo criado. Portanto, nosso conhecimento intelectual direto está limitado pela nossa capacidade de explorar o mundo material, e não pode, portanto, se estender às substâncias separadas. 

Assim, conclui Tomás, como seres humanos que caminham neste mundo, animais racionais capazes de explorá-lo e aprender, nem nosso intelecto possível (ou passivo) consegue receber diretamente o conhecimento intelectual das substâncias separadas, nem nosso intelecto agente pode iluminá-lo. Não podemos, pois, inteligir diretamente as substâncias separadas imateriais em si mesmas.  

  1. Terminando a resposta sintetizadora.

Havendo, pois, terminado de examinar a longa resposta sintetizadora, exploraremos, nos dois próximos textos, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.