Há uns dois mil anos, um operário pobre e uma jovenzinha camponesa grávida são obrigados a percorrer mais de cento e cinquenta quilômetros por causa de uma ordem imperial arbitrária de recenseamento. Sem dinheiro para a hospedaria (que não era, mesmo, o lugar para pessoas tão desprovidas) ela acaba tendo seu filho num curral, saudada apenas por pastores miseráveis que eram obrigados a dormir no relento. Encontrados por uns astrólogos orientais, que acabaram falando para o ditador da época sobre uma velha lenda a respeito de um descendente perdido de uma família real meio apagada, a família teve que migrar e se refugiar numa nação hostil vizinha.
Esta é uma história improvável. Certamente não passaria nos padrões editoriais da época, que prestigiava semideuses poderosos derrotando gigantes ainda no berço, magos prodigiosos ou reis corajosos que lutavam guerras impossíveis.
É certo que havia uma velha profecia obscura que falava em “70 semanas de anos” desde o exílio para o nascimento do rei messias, e a época era apropriada. Mas esse tal messias não era muito bem identificado (ser descendente dos velhos reis não era difícil, imaginando que apenas Salomão teve mil mulheres), e, ainda que o fosse, seria apenas um membro de uma família nobre num país secundário, domínio distante de um império poderoso como o romano.
Esse mesmo menino cresce, vira um líder carismático de um pequeno grupo de seguidores, que não é reconhecido nem pelas autoridades religiosas de seu povo. Mas incomoda o procurador colonial de plantão e é esmagado como um inseto, numa execução banal e cruel que desperta apenas a curiosidade e o sarcasmo dos passantes. Algumas mulheres piedosas o acompanham, gente da ralé, povinho mesmo. Nem seus discípulos permanecem no lugar da execução; apenas um deles, jovenzinho, ainda sem idade para ser penalmente responsável. Cercado da polícia de choque e ridicularizado pelos conterrâneos, morre banalmente e é rapidamente arrancado do lugar de suplício, para não atrapalhar a festa nacional que se aproxima. Alguém o joga rapidamente num buraco qualquer, mas as autoridades têm o cuidado de lacrar o buraco com uma grande pedra e colocá-lo sob vigilância, ao menos durante a festa. Sabem que os discípulos são só uma ralé acovardada, mas temem que alguém roube o corpo para transformá-lo em arma política contra o governo.
Continua uma história banal. Certamente seria difícil achar, já não digo editor, mas até mesmo um redator capaz de colocar isso em papiro. Escribas eram raros e caros, e estas pessoas, que viveram estes fatos, mal tinham os trapos do corpo.
Como pode ser que, dois mil anos depois, tanta gente comemore esse nascimento insignificante, estas pessoas miseráveis, essa morte banal, esse grupo patético? O que há de tão importante, que nos faça parar de trabalhar, reunir a família, trocar presentes?
Pode ser um simples apego histórico. Mas a que?
Pode ser uma velha tradição. Nascida de onde?
Ou pode ter uma outra explicação, mais sublime, mais simples. Esse menino ressuscitou.
Será que Deus se humilharia a esse ponto, viveria uma história tão banal, tão humilhante, tão tosca, que não poderia ser inventada nem pelo mais tolo dos contadores de histórias, só para nos surpreender?
Quem esperaria que ele viesse a ressuscitar?
Feliz Natal!
23 de dezembro de 2022 at 17:05
Obrigado por todo o bem, que Deus continue lhe dando forças para continuar em seu ministério.
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23 de dezembro de 2022 at 20:45
Amém, caro amigo! Que Deus nos abençoe!
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